Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

ANO:1800


SUMÁRIO:
Destaques Cronologia Acontecimentos Bibliografia Personalidades Livros do Ano Falecimentos e Nascimentos

I – DESTAQUES

PORTUGALMUNDO

Política

· Chega a Lisboa o novo embaixador francês, Luciano Bonaparte (Novembro de 1800)

· Rússia retira-se da Segunda Coligação (26 de Setembro)

· Habsburgos austríacos derrotados por Napoleão (14 de Junho)

Ideias

· O idealismo transcendental. Schelling no System des tranzendentalen Idealismus precede Hegel na consideração de um espírito objectivo, que não é apenas pessoal e subjectivo. Entende a natureza como algo de não morto, como algo que não tem apenas de ser visto negativamente, como limite à acção do homem. A natureza é o espírito que devém e o homem, o olho pelo qual a natureza a si mesmo se contempla, sendo, assim, entendida, não como mero produto, mas sim como o sujeito que produz. Neste sentido, admite a existência de uma alma do mundo (Weltseele) que se torna extrínseca, primeiro, no mundo vegetal e animal, e, depois, no mundo do espírito. Do mesmo modo, refere a existência de uma alma do povo (Volksseele) que, primeiro, é inconsciente, e, depois, se transforma em consciente, segregando tanto o social como o político.

· A invenção da ideologia. O francês Destutt de Tracy, exilado em Bruxelas, começa a publicação de élements d’Idéologie, que se pretendia um tratado de economia social. Aí inventa a palavra ideologia, então entendida como mera ciência das ideias.

· O Estado Comercial Fechado...

 

II – CRONOLOGIA

NACIONAL

INTERNACIONAL

· Novembro Chega a Lisboa o novo embaixador francês, Luciano Bonaparte

· 26 de Setembro Retirada russa da Guerra da Segunda Coligação, originando uma nova viragem no curso da mesma.

· 14 de Junho Habsburgos austríacos sofrem isoladamente a ofensiva francesa e são derrotados por Napoleão, em Marengo, tendo que aceitar os termos de uma nova paz, favorável aos interesses franceses.

III - ACONTECIMENTOS DO ANO

Guerra da Segunda Coligação (1798-1801) Grã-Bretanha, Rússia, áustria, Turquia, Portugal e Nápoles contra a França · Napoleão desembarca no Egipto no Verão de 1797 e aí estaciona até 1801 · Em 1798 prossegue o avanço na Itália e ocupa Roma; prendem o próprio Papa, Pio VI, e instituem a República Romana, depois de já terem ocupado a Suíça e de aí terem instituído uma República Helvética · Entretanto, os franceses sofrem pesadas derrotas na Suíça e na Itália perante um exército austro-russo.· No Mediterrâneo, a França é obrigada a retirar do Egipto e perde Minorca e Malta · Golpe de Estado de 9 de Novembro de 1799, o 18 Brumário, leva ao poder Napoleão; · Os russos, do imperador Pedro III (1796-1801), que começaram aliados aos ingleses, invocando a circunstância destes não haverem concedido Malta à Ordem de S. João de Jerusalém, de que Pedro III era o protector, retiram-se e chegam a acalentar uma aliança com a França, projectando invadir a índia · Face à retirada dos russos, os franceses atacam os autríacos agora isolados e a partir de Julho de 1800 dão-se uma série de vitórias francesas em Marengo, Hochstadt e Hohenlindeen

· Aproveitando as circunstâncias, a Dinamarca e a Prússia atacam Hanovre; · Napoleão leva os austríacos de vencida, concluindo a Paz de Lunéville de 9 de Fevereiro de 1801, onde se confirmam as ocupações já reconhecidas na Paz de Campoformio, além de, em Nápoles, regressarem os Bourbons; a Inglaterra fica sozinha na luta contra Napoleão; · Surge uma liga de neutralidade armada entre a Dinamarca, a Suécia e a Rússia; · Os britânicos voltam a ficar isolados, mas obtêm ganhos no ultramar. Em 1801 atacam Alexandria e obrigam à retirada dos franceses do Egipto. Nas índias ociedentais fazem cair uma série de domínios franceses, holandeses, dinamarqueses e suecos. Na índia atacam possessões francesas; · Contudo, os Ingleses preferem fazer com a França a Paz de Amiens, em 25 de Março de 1802, depois de um acordo provisório estabelecido logo em 1 de Outubro de 1801; segundo os termos da mesma retiraria do Egipto e entregariam todas as conquistas coloniais, à excepção do Ceilão. Pitt é derrubado em 1802 · A Espanha, nesta sequência, alia-se com a França, obtendo algumas contrapartidas, nomeadamente a reocupação de Minorca, embora perca a ilha de Trinidad; pelo tratatdo de 21 de Março de 1801, obtém para uma filha de Carlos II, Maria Luiza, casada com D. Luís, infante de Parma, o chamado reino da Etrúria, considerado como propriedade da Espanha

Malta Dominada pelos franceses de 1798 a 1800, é, depois, ocupada pelos ingleses e integrada no Império Britânico, sob a forma de colónia, desde 1814.

IV – BIBLIOGRAFIA

AUTORES

OBRAS

BONALD, Louis (1754-1840)

Essai Analytique sur les Lois Naturelles de l'Ordre Social ou du Pouvoir, du Ministre et du Sujet dans la Societé

1800.

FICHTE, Johann Gottlieb

Der Geschlossene Handelsstaat, 1800

SCHELLING

System des tranzendentalen Idealismus

STAEL

Litterature considerée dans ses relations avec les institutions socials, 1800

V - PERSONALIDADES DO ANO

Harpe, Fréderic de La (1754-1838) Preceptor do imperador Alexandre I, desde 1784, é obrigado sair da Rússia em 1795. Colaborando, depois, com os franceses, é um dos membros do directório da unitária República Helvética em 1798. Derrubado em 1800. Em 1797 publica Essai sur la constitution du pays de Vaud.

Barruel, Abade de (1741-1820) Escritor contra-revolucionário, crítico do jacobinismo e da maçonaria.

· Mémoires pour servir à l’Histoire du Jacobinisme

5 vols., Hamburgo, 1800. Adaptado para português em 1810 por José Agostinho de Macedo, O segredo revelado ou manifestação do sistema dos pedreiros-livres...

Bonald, Louis (1754-1840) Louis-Gabriel-Ambroise, Visconde de Bonald. Pensador contra-revolucionário. Entra em conflito com o processo revolucionário a partir de 1791. Mostra-se hostil à existência de uma constituição escrita e parte para o exílio. Adere ao Império em 1810, sendo nomeado para o Conselho Universitário. Deputado com a Restauração em 1823, será também nomeado por Luís XVIII para o Conselho da Instrução Pública. Inventa a expressão relações sociais, depois desenvolvida por Comte. Defende uma societé bonne assente na família e nos grupos sociais naturais como as corporações. Opondo-se ao despotismo não deixa de defender a independência do poder monárquico. Assume a perspectiva da descentralização, quando inclui a comuna entre os corps intermédiaires, privilegiando, sobretudo, a comuna rural.

· Théorie du Pouvoir Politique et Religieux dans la Societé Civile démontré par le Raisonnement et , 'Histoire , 1796. Cfr. reed. Paris, UGE, 1965. Obra escrita no exílio em Heidelberg.

· Essai Analytique sur les Lois Naturelles de l'Ordre Social ou du Pouvoir, du Ministre et du Sujet dans la , ocieté , 1800. ,

· Législation Primitive Considerée dans le Dernier Temps para les Seules Lumières de la Raison , 1802.

· Recherches Philosophiques , 1818.

Fichte, Johann Gottlieb (1762-1814) Filósofo alemão, que desenvolve o sistema de Kant, transformando-o num idelaismo absoluto. Filho de tecelão. Estuda teologia em Jena. Partidário de Kant desde 1790. Chega a catedrático em Jena, com o apoio de Kant e de Goethe. Primeiro reitor eleito da Universidade de Berlim.

Panteísmo do eu

Nas suas primeiras obras, ainda é marcado por um estrito individualismo kantiano, por uma espécie de panteísmo do eu, considerando o espírito como o criador de todas as coisas, incluindo as próprias regras disciplinadoras do espírito. é, entretanto, acusado de ateísmo, por identificar Deus com a ordem moral do mundo. Vai para Berlim em 1799, onde contacta com os românticos, nomeadamente Schlegel e Schleiermacher.

Deificação do eu colectivo

Se, então, ainda saúda entusiasticamente a Revolução Francesa, eis que as invasões napoleónicas obrigam-no a transferir esse panteísmo do eu individual para uma deificação do eu colectivo, porque o espírito concebe a vida terrestre como uma vida eterna e a pátria como a representação terrestre dessa eternidade.

Língua, raça e Estado

Com ele se misturam três ideias fundamentais neste processo. A ideia de língua nacional, a de raça e a de Estado, tudo caldeado num messianismo germânico.Nos Reden an die Deutschen Nation, uma série de catorze conferências proferidas em Berlim, na ressaca da invasão napoleónica, entre 1807 e 1809, defende a existência de uma espécie de eu nacional, com base na unidade da língua e na identidade da raça. Mais do que isso: retomando a tese de Lutero sobre a predestinação do povo alemão, conclui pela necessidade de um Estado Forte.

Do espírito alemão à nação alemã

Neste sentido, considera que apesar de haver um espírito alemão, ainda não existe uma nação alemã e que construir a nação alemã seria o dever do espírito alemão para com a humanidade, dado que há um destino histórico e tudo se consegue pela educação nacional, um caminho pela convicção moral, por dentro, e não pelo poder material, de fora.

A missão educativa do Estado

Refere, aliás, que o Estado não pode ser apenas uma instituição jurídica, devendo converter-se numa instituição educativa, cuja missão consiste em evitar o mal em vez de o castigar, visando alcançar um fim inferior (v. g. a legalidade) através de um fim superior (v. g. a moralidade). , · Zuruck Forderung der , enkfreiheit , 1793. , · Die Bestimmung des Gelehrten

1794.

· Grundlage des Naturrechts nach Prinzipien der Wissenschaftslehre , 1796. Cfr. trad. fr. de Alain Renaut, Fondement du Droit Naturel selon le Principe de la Doctrine de la Science 1796-1797, Paris, Presses Universitaires de France, 1984.

· Das System der Sittenlehre nach den Prinzipen der Wissenschaftslehre, 1798.

· Der geschlossene Handelsstaat, 1800. Ver a trad. fr. L’état Commercial Fermé, Lausanne, Age de l’Homme, 1980.

· Gesprach über den Patriotismus , 1804. , · Uber das Wesen des Gelehrten

1806. , · Grundzuge des gegenweirtigen Zeitalters 1806.

· Reden an die deutsche Nation

Berlim, 1807 - 1808. Cfr. trad. fr. Discours à la Nation Allemande, Paris, Aubier-Montaigne, 1975. Nova trad. De Alain Renault, Paris, Imprimerie National, 1992.

· Machiavelli

1807. Ver a trad. fr. de Luc Ferry, Machiavel et Autres écrits Philosophiques et Politiques de 1806-1807, Paris, Payot, 1981. , · Die Wissenschaftslehre in ihrem allgemeinen Umrisse

1810

· Rechtslehre , 1812.

· Staatslehre , 1813 (obra póstuma).

Schelling, Friedrich 1775-1854 Estuda teologia em Tubinga, sendo aí companheiro de Hegel e Holderlin. Aio de jovens nobres em Leipzig. Professor em Jena desde 1798. Aqui se relaciona com os irmãos Schlegel e Novalis. Recebe influências de Goethe e Fichte. Professor em Wurzburgo desde 1803 e em Munique, desde 1806. Distancia-se de Fichte. Assume, a aprtir de 1809, aquilo que designa por filosofia positiva. Influencia o panenteísmo de Krause. Chamado em 1841 a Berlim para aniquilar o panteísmo hegeliano. Considera que o Estado é o organismo objectivo da liberdade, partindo do princípio que o organismo é um objecto indivisível, completo em si mesmo, subsistente por si mesmo. é o elemento em que a ciência, a religião e a arte se compenetram reciprocamente, de maneira a tornarem-se num todo vivo e objectivo na própria unidade. Neste sentido, o Estado é um organismo que não pode ser dominado, mas apenas desenvolvido, e a história como um todo é um desvendamento contínuo e progressivo do absoluto. Ele é não só o arquitecto do organismo, o artista criador das artes plásticas, no qual se desvenda a ideia divina de direito, como também a união do real e do ideal, a reunião da liberdade e da necessidade. Precede Hegel na consideração de um espírito objectivo, e não apenas pessoal e subjectivo, entendendo a natureza como algo de não morto, como algo que não tem apenas de ser visto negativamente, como limite à acção do homem. A natureza é o espírito que devém e o homem, o olho pelo qual a natureza a si mesmo se contempla, sendo, assim, entendida, não como mero produto, mas sim como o sujeito que produz. Neste sentido, admite a existência de uma alma do mundo (Weltseele) que se torna extrínseca, primeiro, no mundo vegetal e animal, e, depois, no mundo do espírito. Do mesmo modo, refere a existência de uma alma do povo (Volksseele) que, primeiro, é inconsciente, e, depois, se transforma em consciente, segregando tanto o social como o político.

· Neue Deduktion des Naturrechts, 1795.

· Ideen zu einer Philosophie der Natur , Ideias para uma Filosofia da Natureza, 1797.

· Von der Weltseele , Acerca da Alma do Mundo, 1798

· System des transzendentalen Idealismus , Sistema do Idealismo Transcendental, 1800.

Tracy, Antoine-Louis-Claude Destutt de (1754-1836) Um dos fundadores do grupo sensualista dos ideólogos. Militar de carreira, adere à Revolução, destacando-se como deputado. Faz parte do grupo dos sensualistas, que teriam sido liderados por Condorcet se este não se tivesse suicidado. Companheiro de Cabanis. O grupo aliado a Bonaparte, antes deste subir ao poder, acaba por entrar na oposição republicana. é então que Bonaparte os acusa de idéologues. Exilado em Bruxelas, publica aí a primeira edição dos seus Elementos de Ideologia, dito um tratado de economia social, que apenas será reeditado em 1826. Escreve também, em 1810, um Comentário ao Espírito das Leis, impresso nos Estados Unidos, graças a Jefferson, em 1811, mas apenas editado em França em 1822. Inspira o positivismo de Comte e tem como discípulos Stendhal e Sainte-Beuve. Acredita no jogo harmonioso das forças sociais, defende a distribuição de poderes e põe acento na liberdade política, considerando que esta não pode florescer sem liberdade individual e sem liberdade de imprensa.

& éléments d'Idéologie

(4 vols., 1800 - 1815). Ver a reed. Paris, Vrin, 1970.

& Traité d'économie Politique

(1822).

VI - LIVROS DO ANO

& Der geschlossene Handelsstaat, 1800 Fichte considera que o Estado deve bastar-se a si mesmo, não podendo ser um simples Estado jurídico, mera entidade que tutela as liberdades individuais. Tem também de ser um Estado Económico e um Estado ético. Um Estado que deve promover a cultura e aperfeiçoar a vida moral. Um Estado que deve ser um Estado comercial fechado, uma entidade fechada sobre si mesma, tanto no plano jurídico como no plano económico. Neste sentido, defende um modelo intervencionista, chegando ao cúmulo de propor que se proíbam os particulares de ter actividades económicas no domínio do comércio externo.

 

 

VII - FALECIMENTOS E NASCIMENTOS

FALECIMENTOS

NASCIMENTOS

MARTINI, Carlos António (1726-1800)

CASTILHO, António Feliciano de (1800-1875)

LIEBER, Franz (1800-1872)

SARAIVA, de Morais Figueiredo, ANTóNIO RIBEIRO (1800-1890)