Herder, Johann Gottfried (1744-1803)

Nasce na Prússia, filho de um mestre-escola pietista. Discípulo de Kant em Konigsberg. Contacta com Goethe em Estrasburgo, de quem se torna amigo. Professor em Riga desde 1764. Visita França. Pastor luterano desde 1765, torna-se, entre 1776 e 1803, superintendente da igreja de Weimar.

 

Povo orgânico

Estrutura a noção de Volk como povo-orgânico e não já como simples sociedade atomística, considerando o mesmo como produto de um crescimento natural que leva a uma ordem considerada a melhor, onde cada um desempenha aquelas funções a que o destinou a natureza. Hostil ao racionalismo, considera que existe uma Volksseele, uma alma do povo, que é singular, maravilhoso, inexplicável, indizível. A partir de então, a nação deixa de ser mera categoria política prática e simples sociedade atomisticamente concebida, e vai procurar raízes no conceito de Volk, como um povo orgânico, marcado por uma unidade de língua e de cultura e consciente de constituir uma unidade. Passa-se assim da nação-contrato para a nação-génio, aquela entidade a que vai atribuir-se uma alma colectiva, o Volksgeist, que faz dela uma totalidade englobante, mas a que se dá uma raiz naturalista.

 

Organicismo

Para Herder, como nota Vítor Aguiar e Silva, a nação é um organismo dotado de um espírito próprio, espírito que se desenvolve ao longo do tempo, mas que não se modifica na sua essência, e que constitui a matriz de todas as manifestações culturais e institucionais de uma nação. Assim se compreende que o mesmo declare: o Estado mais natural é um Estado composto de um só povo, com um só carácter nacional. Um povo é um crescimento natural, assim como uma família, apenas mais amplamente difundido. [...] Como em todas as comunidades humanas [...] também, no caso do Estado, a ordem natural é a melhor, isto é, a ordem em que cada um desempenhe aquelas funções a que o destinou a natureza.

 

Um homem em ponto grande

Um povo que é visto como uma espécie de homem em ponto grande, dotado de uma imanência, à imagem e semelhança da vida interior da pessoa. Onde haveria forças vivas humanas que gerariam caracteres nacionais específicos porque tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades actuantes e o seu sabor, assim o antigo carácter dos povos proveio de traços raciais, do clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das acções peculiares a cada um desses povos. Neste sentido, a vida de cada povo é comparada ao desenvolvimento de uma planta onde a cultura de um povo é a flor da sua existência, pela qual ele se revela duma forma deveras agradável, mas transitória, pelo que a sanidade e duração de um estado não dependem do grau máximo da sua cultura, mas de um sábio ou feliz equilíbrio das suas forças vivamente activas. Quanto mais fundos forem estes alicerces vivos do seu centro de gravidade, mais firme e duradouro ele será.

 

As influências

Estas teses vão influenciar o romantismo, a Escola Histórica e todo o movimento político posterior que procura distanciar da restritiva interpretação de razão feita pelo chamado racionalismo e que, opondo-se a Descartes e Kant, se opõe ao ideal de universalidade iluminista em nome do direito à diferença, da especificidade do tempo e do lugar, considerando que cada civilização é única. Neste sentido defende as unidades naturais, interpretadas por analogia com o conceito de língua, que exprime a experiência colectiva de um grupo. A ideia de Hegel sobre o espírito do mundo é por ele influenciada, tal como o conceito de espírito do povo de Savigny. Neste sentido é considerado como o pai do nacionalismo.

 

·Tratado sobre a origem da linguagem. Uma nova filosofia da história

1774.

 

·Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menscheit

 (1784 - 1791) (Ideias sobre uma filosofia da história da humanidade, ver a trad. cast. Obra Selecta, Madrid, Alfaguara, 1982).äIdeen.

 

4Almeida, Políbio Valente, Do Poder do Pequeno Estado, Lisboa, ISCSP, 1990, pp. 102-103.4Antunes, Manuel, «Herder», in Logos, 2, cols. 1093-1095. 4Gardiner, Patrick, Teorias da História[1959], trad. port. de Vítor Matos e Sá, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1974, pp. 41 segs..4Gierke, Otto von, Natural Law and the Theory of Society. 1500 to 1800, trad. ingl. de Ernest Barker, Cambridge, Cambridge University Press, 1938, pp. 105, 305 e 332-333.4Maltez, José Adelino, Ensaio sobre o Problema do Estado, Lisboa, Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1991, I, p. 299.

 



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