
Churchill, Winston (1874-1965)
Winston Leonard Spencer Churchill. Primeiro ministro britânico em 1940-1945 e 1951-1955. Deputado conservador desde 1900. É autor de um célebre discurso proferido na Universidade de Zurique, em 19 de Setembro de 1946, onde se assume como o primeiro homem de Estado do pós-guerra a apelar para a criação dos Estados Unidos da Europa - qualquer seja o nome que lhe derem, destacando a necessidade da reconstrução da família europeia, através de uma aliança entre a França e a Alemanha, mas para a constituição daquilo que viria a ser o Conselho da Europa.Discurso de Fulton
Poucos antes, em 5 de Março, em Fulton, no Missuri, também tinha sido ele o primeiro a denunciar a cortina de ferro, mas para incitar à união dos povos de língua inglesa contra o perigo soviético. Será também ele a proferir o discurso inaugural do Congresso de Amsterdão, em 12 de Abril de 1947, onde oeuropeísmo para que apela tem apenas como finalidade o pegar pela mão os alemães e reconduzi-los à família europeia. Da mesma forma, também lhe caberá prioridade no apelo à constituição de umas forças armadas europeias, em discurso proferido no Consselho da Europa, em 11 de Agosto de 1950. No discurso da Universidade de Zurique, reconhecia que os combates cessaram, o perigo não desapareceu. Se devemos criar os Estados Unidos da Europa - qualquer que seja o nome que lhe derem - devemos começar imediatamente. Vou dizer-vos qualquer coisa que vos espantará: o primeiro gesto de reconstrução da família europeia deve ser uma aliança entre a França e a Alemanha. E isto por considerar que não haverá renovação da Europa sem a grandeza espiritual da França, sem a grandeza espiritual da Alemanha. Dizer isto em 1946, quando ainda grassavam profundos sentimentos hostis face aos alemães, principalmente em França, constituía quase uma profecia. Além disso, a proposta de Churchill opunha-se claramente às teses, então, dominantes no seio do Departamento de Estado norte-americano, onde se restauravam os modelos daquele cosmopolitismo indiferenciado que já haviam marcado Woodrow Wilson em 1918 (BELOFF, p. 225). Ao acentuar a ideia de Europa unida, Churchill apostava numa reorganização mundial assente numa série de grupos regionais de estilo confederativo, evitando a fragmentação do primeiro pós-guerra. Para ele, na linha dos projectistas da paz, a Europa continuava a ser a fonte da fé e da moral cristãs o que estava em contradição com a vaga de explosivas paixões nacionalistas que tiveram a sua origem nos países alemães. Saliente-se, contudo, que a ideia de Estados Unidos da Europa preconizada por Churchill estava mais imbuída dos tradicionais reflexos da balance of power dos britânicos do que do visionarismo federalista. Para ele, seriam parcelas da Alemanha a integrar a federação europeia, da qual não participava, evidentemente a Grã-Bretanha que não passaria de madrinha do projecto. Assim, considerava que a construção dos Estados Unidos da Europa solidamente estabelecida tornará menos importante a questão do poder material dos Estados particulares. Os Estados anteriores da Alemanha, livremente unidos num sistema federativo para alcançar o bem estar comum, poderiam ocupar o seu lugar individual nos Estados Unidos da Europa. Em discurso de 5 de Março de 1946, proferido em Fulton, no Missuri, Churchill tinha lançado a sua célebre diatribe sobre a cortina de ferro : uma cortina de ferro abateu-se sobre o continente... Depois daquilo que eu vi dos nossos amigos russos durante a guerra, estou convencido que não há nada que eles tanto admirem como a força e que respeitem menos que a fraqueza militar... É preciso que os povos de língua inglesa se unam de urgência para enlever qualquer tentação para a ambição e a aventura. No Congresso de Amsterdão de 12 de Abril de 1947, o discurso inaugural é de Churchill e começa evidentemente pela questão alemã: a Europa necessita de todos estes franceses, de todos estes alemães, de tudo o que cada um de nós pode prestar. Por isso, saúdo aqui a delegação alemã que convidamos para que tome assente entre nós. Para nós, a questão alemã considte em restaurar a vida económica da Alemanha e e fazer honrar de novo a antiga boa reputação do povo alemão, sem que os vizinhos da Alemanha e nós mesmos fiquemos expostos mais uma vez o novo fortalecimento do seu poder militar. Ele queria acentuar a tarefa orgulhosa das potências vitoriosas, de pegar pela mão os alemães e de reconduzi-los à família europeia. Contudo, não se vê Churchill afrontar o governo trabalhista de Londres quando, em resposta ao projecto de Schuman vem considerar que os britânicos estão mais próximos da Austrália e da Nova Zelândia que da Europa pela língua, as origens, os costumes, as instituições, as concepções políticas e os interesses. Também Churchill via a Europa de fora. Discursava para a Europa como um corpo estranho. Como já dizia nos anos trinta, perante as propostas de Briand, nós estamos com a Europa, mas não somos da Europa. Estamos ligados, mas não estamos coligados. De certa maneira assumia que a Europa continental das margens do Reno deveria seguir uma via dolorosa de expiação. A Alemanha por causa do nazismo. A França por causa de Vichy. A Itália por causa dos fascismo. Churchill pensava que a Commmonwealth e a aliança com os norte-americanos lhe davam espaço para não se voltarem para o continente. A Grã-Bretanha ainda alimentava a ilusão mundialista e pensava que os ventos da história não afectariam o essencial do free trade. A Europa apenas servia para conter os soviéticos e impedir o regresso ao fascismo, constituindo uma espécie de seguro antitotalitário. Como dizia, no começo dos anos trinta, quando andavam no ar as propostas de Briand, mesmo sem o Império Britânico e a Rússia, a massa europeia, uma vez unida, uma vez federada ou parcialmente federada, uma vez consciente do seu continentalismo, constituirá um organismo sem igual. No que diz respeito à Inglaterra, nós estamos com a Europa, mas não somos da Europa. Estamos ligados, mas não estamos incluídos. Foi assim que Winston Churchill se dirigiu ao mundo quando tomou posse do cargo de Primeiro-Ministro em 10 de Maio de 1940: tenho apenas para vos oferecer sangue, suor e lágrimas. Temos diante de nós uma longa e dura provação. Temos diante de nós muitos e longos meses de luta e sofrimento... não sobreviverá o Império Britânico, não sobreviverá a mínima parcela dos seus vastos domínios e com ele esboroará todo o sagrado impulso que através dos tempos tem conduzido o homem para os mais altos destinos. Mas Churchill, apesar de apelar à unidade da Europa, ainda via a Europa de fora, fazendo apelo à unidade do continente, mas sem a participação dos ingleses. Para ele, a Grã-Bretanha seria o centro de uma série de círculos, onde o mais íntimo seria o da Commonwealth, o segundo, o da ligação anglo-americana, vindo a unidade europeia apenas em terceiro lugar. · Posição que depois vai ser repetida pelo governo conservador de Churchill, regressado ao poder depois da vitória nas eleições de 25 de Outubro de 1951, através do ministro dos estrangeiros, Anthony Eden, que, num discurso proferido nos Estados Unidos, em 12 de Fevereiro de 1952, considerava que a Grã-Bretanha nunca poderia aderir a uma federação europeia: trata-se de algo que nós sentimos não poder aceitar até à medula dos ossos. Se o fizessemos, prejudicaríamos a força da nossa acção em prol da paz e da união atlântica que é a expressão dessa causa. É que a Grã-Bretanha e os seus interesses estendem-se para além do Continente europeu. O nosso pensamento vai para além dos mares. Sem isto, que é a essência da nossa vida, não seríamos mais do que alguns milhões de pessoas vivendo numa ilha da costa europeia.
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