Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

A partir da Convenção de Évora Monte de 1834 começou verdadeiramente em Portugal a instalação do demoliberalismo, demonstrando-se como todas as revoluções portuguesas são sempre pós-revolucionárias. O cartismo depois do vintismo, o fontismo depois da regeneração, os bonzos de Afonso Costa depois do 5 de Outubro de Machado Santos, o situacionismo salazarista depois do 28 de Maio de Gomes da Costa, e até o soarismo e o cavaquismo depois dos cravos de Abril de Salgueiro Maia e Otelo Saraiva de Carvalho. No day after do novo regime, há sempre, segundo as célebres palavras de Garrett, um barão usurariamente revolucionário e revolucionariamente usurário, o tal barão que mordeu no frade, devorou-o ... e escouceou-nos a nós depois.

Há sempre a criação de uma nova aristocracia pós-revolucionária, de um novo estado dentro do Estado que tende a assentar numa espécie de comunismo burocrático em aliança com uma emergente oligarquia financeira. Aquele que até 1871 era depreciativamente considerado como o fontículo, consegue, pelo equilíbrio e pelo pragmatismo, captar uma ampla base social e política de apoio, com breves referências doutrinárias. Dizia-se liberal e conservador, mas desdenhava a restauração, apesar de herdar alguma coisa do estilo de Costa Cabral e de praticar muita da matreirice de Rodrigo da Fonseca. Se consegue mobilizar avilistas e constituintes, provoca também que os reformistas e os históricos se congreguem numa oposição progressistas que assume a bandeira da memória liberal, gerada pelo setembrismo e pela patuleia. E permite que muitas ideias novas se grupusculizem, desde os novos católicos do grupo A Palavra, aos socialistas e republicanos. O vulcão das novas ideias políticas europeias, perante a estabilidade governativa portuguesa consegue aqui entrar pelo puro prazer das ideias pensadas, gerando-se movimentos que nascem dos princípios e das abstracções e que têm tempo de adequação às circunstâncias.

Como dizia o mesmo Garrett, por mais teorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que se comece, o “status in statu” forma-se logo: ou com frades, ou com barões, ou com pedreiros-livres se vai pouco a pouco organizando uma influência distinta, quando não contrária, às influências manifestas e aparentes do grande corpo social.

Com efeito, todos os impulsos revolucionários têm gerado sempre uma casta banco-burocrática pós-revolucionária aliada a uma certa família de políticos baseada numa gregação de clientelas. E durante mais de cem anos, os próprios partidos dependeram de um batalhão, dado que a tropa funcionou como uma parte armada das clientelas, enquanto os partidos se assumiram como bandos armados apoiados por um periódico.

Na verdade, tais partidos demoliberais formaram-se, sobretudo, por influência militar, mas sempre com o apoio das maçonarias, actuando no subsolo da política aparente. Só depois da estabilidade é que vieram as influências cortesãs, parlamentares e jornalísticas, também apoiadas infra-estruturalmente pelas várias lojas maçónicas que, transformadas em meros clubes políticos, iam garantindo as fidelidades e as lideranças do poder oculto. Aliás, as próprias mudanças políticas passaram a assentar em pronunciamentos entendidos como verdadeiras empresas militares que transformaram o exército em mero instrumento partidário.

 

Entre 1834 e 1836, durante o regime devorista, se há um situacionismo que resulta da coalição entre o partido dos amigos de D. Pedro e os chamados conservadores, marcados pelo estilo de Palmela, destaca-se uma oposição dita de radicais, que amalgamava avançados, vintistas e saldanhistas da emigração que vai dos chamados irracionais, o partido do sul, liderado por Leonel Tavares de Cabral, àqueles que se dizem da oposição pura, ligada aos irmãos Passos.

A força dominante, que a si mesmo se qualificava com centro parlamentar e que os adversários qualificavam como chamorros, brasileiros e devoristas, tinha como infra-estrutura o Grande Oriente Lusitano, então liderado por José da Silva Carvalho, enquanto na oposição se destaca a chamada Maçonaria do Sul, então liderada por Saldanha, enquanto o grupo dos Passos, o partido do Porto  e dos candidatos comerciais, se estrutura em torno da Maçonaria do Norte.

O novo governo de aliança entre os chamorros e os palmelistas,  como o conde da Taipa, D. Gastão Pereira de Sande, que chamou aos governamentais uma camarilha feita para devorar o País à sombra de uma criança.

Como se refere em Hontem, hoje e amanhã visto pelo direito, surgiu uma nova nomenclatura. Até porque tirar os bens aos nobres e ao clero reputava-se um acto de justiça, mas não era considerado escândalo o acumularem ofícios aqueles que apregoavam justiça e reforma

Em 27 de Maio surgiu um novo governo, presidido por Saldanha, unindo os membros da maçonaria do Sul com os do Grande Oriente Lusitano, com a discreta participação dos palmelistas. Era o governo dos impossíveis, o pastel misto ou a fusão, com um líder radical, Francisco António de Campos, dirigente da Associação Mercantil de Lisboa, na pasta da fazenda.

O regime dito devorista introduz algumas das nvidades dos regimes portugueses demoliberais. Em primeiro lugar a cedência à pressão militar para as mudanças de governo, principalmente com os militares a serem manipulados por facções. Em segundo lugar, a política de empregadagem para o recrutamento de aliados, utilizando-se os fundos orçamentais para aliementação dos jobs for the boys. Em terceiro lugara, a venda ao desbarati de bens públicos, para se compensar a dívida externa. Em quarto lugar, a utilização dos lugares universitários pelo favoristismo, como aconteceu em 17 de Novembro de 1835, quando saiu a lista dos lentes proprietários da Escola Politécnica, onde sentaram alguns dos principais membros da classe política, como Jervis de Atouguia, Ferreira Pestana, João Fontes Pereira de Melo e António de Oliveira Marreca e onde até um estudante da escola de Pontes e Calçadas de Paris foi feito catedrático, apesar dos imediatos protestos da Universidade de Coimbra.


 
© José Adelino Maltez
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Última revisão em: 11-04-2009