Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Antinomia

Mounier considera a antinomia como um acto de fé central. Diremos também que as antinomias são momentos necessários para a realização do direito, até porque o ser talvez não passe de contradição. Por exemplo, só estando aqui podemos chegar mais além e, depois de passarmos ao mais além, podemos ir ainda mais além, fiéis ao lema que Paul Claudel atribuiu a Cristóvão Colombo. Com efeito, o homem tende para o infinito, porque se sabe finito, porque tem a certeza que vai morrer, como dizia Pascal. Neste sentido, assinalaremos que as revelações feitas ao espírito pela transcendência apenas podem expressar-se numa nova forma, mescla íntima de saber e não saber, provocação mais do que certeza. Assim é, precisamente, o paradoxo. Brota do ponto de união da eternidade com a historicidade, do infinito com o finito, da esperança com o desespero, do trans-racional com o racional, do indizível com a linguagem. A certeza das certezas, ou, melhor, o acto de fé central é para a razão uma antinomia, e a sua solidez está composta do impulso mútuo que se dá  nos dois pólos da antinomia. Talvez a ordem seja a coordenação de elementos dispersos e não semelhantes, a concórdia dos discordes, onde, em vez da disciplina unidimensional, predomina a harmonia. Em vez de um bloco monolítico e hierarquista, onde a autoridade vem de cima, para impor a obediência e, quando muito, a confiança plebiscitária, toda a verdadeira ordem apenas tenta imitar o pluralismo e a flexibilidade da harmonia cósmica.

 




© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Última revisão em: 10-02-2009