Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Aron, Raymond Claude Ferdinand (1905-1983)

Raymond Claude Ferdinand Aron. Autor francês, de origens judaicas. Doutorado em filosofia em 1935, é um dos introdutores em França dos teóricos daquilo que chama sociologia alemã . Reage contra a dominante positivista, sendo, sobretudo, Inspirado por Max Weber. Criador de um certo modelo francês de ciência política, atinge uma fundamental síntese entre a preocupação neoclássica da teoria política e o sociologismo. Utilizando o saber clássico e a metodologia das ciências sociais modernas, mais à maneira da sociologia compreensiva de Weber, do que do neo-empirismo anglo-saxónico, Aron defende a autonomia da política, como uma organização do comando e da obediência.

Considerado um conservador liberal, tem um passado de resistente. Teórico do gaullismo, manteve sempre a respectiva independência mental.

Crítico demolidor do marxismo sartriano, considerado como o ópio dos intelectuais, assume-se como jornalista de ideias, principalmente a partir das colunas de Le Figaro.

Com Aron, a ciência política francesa atinge uma fundamental síntese entre a preocupação neoclássica da teoria política e o sociologismo. Utilizando o saber clássico e a metodologia das ciências sociais modernas, mais à maneira da sociologia compreensiva de Weber, do que do neo-empirismo anglo-saxónico, Aron defende a autonomia da política, como uma organização do comando e da obediência.

 

Do jurista e sociólogo alemão retém, sobretudo, a ideia de compreensão, bem como o projecto da construção do tipo ideal que, como Weber refere, não é obtido pela generalização, mas pela racionalização utópica permitindo racionalizar o irracional. Porque os factos sociais tal como os construímos no ponto de partida referem-se a intencionalidades conscientes, e são, por consequência, factos significativos que diferem das realidades percebidas no ponto de partida das ciências da natureza. Falando num subsistema político dentro do sistema social, considera que este, apesar de dotado de autonomia, não está separado dos outros sectores do conjunto social. É que as lutas e os acontecimentos no subsistema político não aparecem como reflexo ou simples consequência das lutas e dos acontecimentos do conjunto social ou do sistema económico-social. O agregado político, influenciado por todos os outros subsistemas, ... tem as suas próprias leis de funcionamento e de desenvolvimento, e, por sua vez, influencia todos os outros, porque é através dele que são tomadas as decisões que visam alcançar os objectivos da colectividade no seu todo. Para além desta defesa da autonomia e do primado da política, Aron é um dos grandes teorizadores do pluralismo, quando concebe que a democracia moderna, tem na sua realidade efectiva, poderá ser caracterizada pela institucionalização dos conflitos.

 

A compreensão, como salienta Raymond Aron, não é uma capacidade misteriosa do espírito de se confundir, por assim dizer, com outro espírito, de se projectar por um acto de intuição divinatória nos sentimentos de um outro. A metodologia da investigação submete-se às regras do rigor e da prova em todas as disciplinas que se pretendem científicas.

 

Considera que é possível um estudo lógico-experimental de condutas não lógicas, utilizando as categorias paretianas. Neste sentido, salienta que a deontologia de uma actividade científica se traduz nas seguintes regras:

1.Não podemos seleccionar arbitrariamente os elementos da realidade e não os devemos deformar.

2.Não podemos seleccionar arbitrariamente as palavras nem as suas definições.

3.Não podemos apresentar, como certos ou precisos, fenómenos cuja própria natureza exclui geralmente a precisão

4.Não podemos determinar arbitrariamente o que é importante ou essencial.

5.Temos de respeitar a liberdade de discussão e de crítica, excluindo os argumentos de autoridade e a retórica de intimidação, dos que pretendem esquivar-se ao debate, tentando desqualificar uma interpretação sem a refutar

6.Devemos praticar o bom uso dos juízos de valor, afastando os que exprimem simples preferências que apenas estão na esfera da opinião

A ciência está sempre inacabada.

Assim, observa que la science moderne est, par essence, en devenir, elle ignore les propositions relatives au sens ultime des choses, elle tend vers un but situé à l'infini et renouvelle sans cesse les questions posées à la nature.

Primado e autonomia da política

Considera que a ciência política, pelo menos implicitamente, contém apreciações relativamente aos valores que professam os autores que a mesma estuda. Não é possível compreender autenticamente o sentido de uma conduta política sem incluir nesta compreensão e distinções de valores. Porque um agregado torna-se político quando se opõe a outros agregados do mesmo tempo e quando possui, relativamente aos seus membros, uma unidade de inteligência e de acção. Mas dizer primado da política, isto é, reconhecer que modo de exercício da autoridade, o modo de designação dos chefes, contribui, mais do que qualque outra instituição para moldar o estilo das relações entre os indivíduos, não significa o determinismo do maurrasiano politique d'abord. Significa tão só reconhecer a existência de uma influência dominante no conjunto social: influenciado por todos os outros subsistemas, o subsistema político tem as suas leis próprias de desenvolvimento e, por seu lado, influencia todos os outros, dado que é através dele que são tomadas as decisões que visam conseguir os objectivos da colectividade considerada como um todo.

A procura do todo

A ciência política, pelo contrário, tem em vista coisas terrenas, a ordem política, que, apesar de ser humana, demasiado humana, não constitui o todo da existência humana, como dizia Aron.

Puissance e pouvoir

Observa que on a la puissance de faire une chose et on exerce le pouvoir de la faire. Isto é, a puissance, tal como a potestas, é o potencial de comando, de influência ou constrangimento que um indivíduo possui relativamente a outros, enquanto o pouvoir, ou a potentia, é a passagem a acto da puissance, ou da potestas. A primeira pode ter-se, a segunda apenas pode exercer-se.

Estado total e Estado limitado

Faz uma distinção entre o Estado Total, onde haveria uma confusão entre o Estado e a Sociedade, e o Estado Limitado, onde a sociedade seria distinta do Estado, distinguindo os regimes de partido monopolístico dos regimes constitucionais-pluralistas.

A democracia como institucionalização de conflitos

Proclama que a democracia moderna, na sua realidade efectiva, poderá ser caracterizada por uma institucionalização de conflitos.

Quem manda?

Tal como Harold D.Lasswell, que referia que para o poder é preciso perguntar Who gets what? How? When?, considera que é preciso determinar quem governa:Qui commande?Quoi?Comment? Quand?. Não deixa,no entanto, de seguir a eterna questão de saber quem tem o direito de comandar e porque é que sou obrigado a obedecer? Porque "a ciência política, pelo menos implicitamente, contem apreciações relativamente aos valores que professam os autores que a mesma estuda. Não é possível compreender autenticamente o sentido de uma conduta política sem incluir nesta compreensão e distinções de valores"

"poucas palavras são tantas vezes utilizadas pelos economistas, sociólogos ou politólogos como a de teoria,poucas conduzem a tantos equívocos" E isto porque a palavra tem duas significações e duas tradições.

A etimológica que confunde teoria com filosofia e a considera como o conhecimento contemplativo da ordem essencial do mundo.

A cientista, marcada pela vontade do "saber para prever e poder", que a considera como "um sistema hipotético-dedutivo constituído por um conjunto de proposições cujos termos são rigorosamente definidos e onde as relações entre os termos (as variáveis) revestem as mais das vezes uma forma matemática".

Ora, acontece que quem trata de política sente, por vezes uma espécie de complexo de inferioridade face a outras ciências sociais, como , por exemplo, a matematizável economia pura, e trata de assumir-se como "científico" à imagem e semelhança das ciências da natureza.

No fundo, como que está a atribuir um carácter de ciência subdesenvolvida à ciência que não é ciência dita exacta.Está a esquecer que o teórico se pode, no princípio, ser hipotético-dedutivo, acaba, como conclusão, por pisar os terrenos da grande interrogação da teoria contemplativa.

Basta que tenha necessidade de integrar os fenómenos que não se repetem, que são os acontecimentos da história, produzidos pelos seres que não se repetem, que são os homens, no todo da existência humana.Porque, como dizia Pascal, "o homem supera infinitamente o homem".Porque não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história.Porque o normal é haver anormais...

Aliás, Aron, acaba por concluir, quanto à teoria das relações internacionais , que, no fim do itinerário, o "conjunto" levou-o , contrariamente ao que pensava no começo, à "determinação do sistema inter-estadual" e æ "prudência do homem de Estado", passando pela "análise das regularidades sociológicas e das singularidades históricas", o que "constitui o equivalente crítico ou interrogativo de uma filosofia". Isto é, ele que quis começar por ser cientista de uma teoria cientista, acabou por ser cientista de uma teoria contemplativa.

 

 

[1935]

La Sociologie Allemande Contemporaine

 

Paris, Éditions Alcan, 1935.

[1938]

Introduction à la Philosophie de l’Histoire

 

Paris, Éditions Gallimard, 1938.

[1946]

L'Homme contre les Tyrans

 

Paris, Éditions Gallimard, 1946.

[1955]

L’Oppium des Intelectuels

 

Paris, Éditions Calmann-Lévy, 1955.

[1957]

Espoir et peur du Siècles. Essais non Partisans

 

Paris, Éditions Calmann-Lévy, 1957.

[1961]

Dimension de la Conscience Historique

 

Paris, Librairie Plon, 1961.

[1962]

Paix et Guerre entre les Nations

 

Paris, Éditions Calmann-Lévy, 1962.

[1962]

Dix-Huit Leçons sur la Societé Industrielle

 

Paris, Éditions Gallimard, 1962. Cfr. trad. port. Dezoito Lições sobre a Sociedade Industrial, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981.

[1965]

Démocratie et Totalitarisme

 

Paris, Éditions Gallimard, 1965.

[1961]

Dimension de la Conscience Historique

 

Paris, Librairie Plon, 1961.

[1962]

Dix-Huit Leçons sur la Societé Industrielle

 

Paris, Éditions Gallimard, 1962.

[1964]

La Lutte de Classes. Nouvelles Leçons sur les Societés Industrielles

 

Paris, Éditions Gallimard, 1964.

[1967]

Les Étapes de la Pensée Sociologique

 

Paris, Éditions Gallimard, 1967.

[1969]

D'une Sainte Famille à l'Autre. Essais sur les Marxismes Imaginaires

 

Paris, Éditions Gallimard, 1969.

[1969]

Les Désillusions du Progrés

 

Paris, Éditions Calmann-Lévy, 1969.

[1970]

·Marxismes Imaginaires

 

Paris, Éditions Gallimard, 1970.

[1972]

·Études Politiques. Recueil d’Essais

 

Paris, Éditions Gallimard, 1972.

[1973]

·République Impériale

 

Paris, Éditions Gallimard, 1973.

 

·Penser la Guerre, Clausewitz

[1976]

2 vols., Paris, Éditions Gallimard, 1976 [trad. port. Pensar a Guerra, Clausewitz, 2 vols., vol. I - A Era europeia; vol. II - A Era planetária, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1986].

[1977]

·Playdoyer pour l’Europe Décadente

 

Paris, Éditions Robert Laffont, 1977.

[1977]

·«De la Libéralisation»

 

[ed. orig. 1977], apud La Politique Historique de Raymond Aron, in Cahiers de Philosophie Politique et Juridique, n.º 15, pp. ...*, Caen, Université de Caen, 1989.

[1979]

·«De l’Existence Historique»

 

[ed. orig. 1979], apud La Politique Historique de Raymond Aron, in Cahiers de Philosophie Politique et Juridique, n.º 15, pp. 155-156, Caen, Université de Caen, 1989.

[1989]

·«La Philosophie Critique de l’Histoire»

 

Apud La Politique dans la Pensée de Raymond Aron, in Cahiers de Philosophie Politique et Juridique, n.º 15, pp. ...*, Caen, Université de Caen, 1989.

[1981]

·Le Spectateur Engagé. Entretiens avec Jean-Louis Missaiks et Dominique Wolton

 

 Paris, Éditions Julliard, 1981 [trad. port. O espectador comprometido, Lisboa, Moraes Editores, 1983].

 

·Mémoires. 50 Ans de Refléxion Politique

 

 vol. I, Paris, Éditions Julliard, 1983.

Casado, Yolanda, El Pensamiento Histórico y Político de Raymond Aron, 1988.

 Ionescu, Ghita, «Um Clássico Moderno», in Crespigny, Anthony, Minogue, Kenneth R., Filosofia Política Contemporânea, trad. port., Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982, pp. 189 segs..

 «La Philosophie Politique de Raymond Aron et De l'Existence Historique» (1979), in Cahiers de Philosophie Politique et Juridique de l'Université de Caen, 1989, com artigos de Alain Boyer, Pierre Caye, Fransciszek Draus, Simone Goyard-Fabre, Sylvie Mesure, Philippe Raynaud e Alain Renaut. Zuñiga, L. Rodriguez, Raymond Aron y la Sociedad Industrial, 1973.

 Brito, António José, «Raymond Aron», in Logos, 1, cols. 459-460.

Châtelet, François, Pisier-Kouchner, Evelyne, Les Conceptions Politiques du XXème Siècle. Histoire de la Pensée Politique, Paris, 1981, pp. 696-712.

Maltez, José Adelino, Princípios de Ciência Política. Introdução à Teoria Política, Lisboa, ISCSP, 1996, pp. 11, 14, 38, 41, 55, 56, 60, 62, 68, 104, 118, 139, 158, 313, 539 e 544.

© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência: Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info). Última revisão em: 10-02-2009