Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Chardin, Pierre Teilhard de 1881-1955

Padre jesuíta francês, desde 1905. Parte para o Egipto em 1908. Trabalha no laboratório de Paleontologia do Museu de Paris. Em 1918 passa a professor de geologia do Instituto Católico de Paris. Doutor em ciências desde 1922. Parte em 1923 para a China, donde apenas regressa em 1945. Em 1926, os superiores jesuítas ordenam-lhe que abandone o ensino no Instituto Católico de Paris. Descobre em 1929 o Sinanthropus. Tenta reconciliar o cristianismo com a ciência, mas as suas obras não são autorizadas pelo Vaticano. Em 1933 é negado o imprimatur a Le Milieu Divine. Em 1938 a L'Enérgie Humaine. Em 1944, Roma proíbe Le Phénomène Humaine, para lá enviado em 1941. Instalado em França de 1946 a 1951, não obtém das autoridades eclesiásticas autorização para poder candidatar-se ao Collège de France, em 1948.. Retira-se então para Nova Iorque, onde se instala desde 1951. Um decreto do Santo Ofício de 6 de Dezembro de 1957 determina que os seus livros devem ser retirados das bibliotecas dos seminários e instituições religiosas e não devem ser vendidos em livrarias católicas. Em 1962, ainda o Santo Ofício condenava as respectivas teorias. Só em 1981 é que o Vaticano as deixou de considerar como heterodoxas.

Lei da complexidade crescente

Estabelece a  lei da complexidade crescente das estruturas, reintroduzindo, no debate contemporâneo, a ideia de autonomia dos sistemas complexos. Uma forma mentis que leva a falar numa ciência da autonomia para os sistemas abertos como são os sistemas políticos, onde a autonomia da sociedade depende dos indivíduos.

Uma interpretação espiritualista da evolução

Com efeito, a partir de Chardin, passa a fazer-se uma interpretação espiritualista da evolução e utiliza-se um modelo dialéctico, superador da respiração hegeliana da tese-antítese-síntese.

Um evolutivo cósmico

O autor perspectiva um evolutivo cósmico onde há simultâneamente divergência e convergência, geradoras de uma complexidade capaz de lançar para cima e para dentro através da emergência, no sentido de um estado cada vez mais complexo e centrado, pela subida do múltiplo para a unidade.

O caminho para o ponto ómega

Foi assim que aconteceu, sucessivamente com o aparecimento da vida, a partir do múltiplo inicial. Assim voltou a acontecer com a cefalização e o aparecimento do homem. Do mesmo modo, vai sucedendo com o processo de noogénese, com a socialização, no caminho para o trans-humano, o ponto ómega, para a síntese do universal e do pessoal.

O simples e o complexo, o fechado e o aberto

Todos os sistemas vivos, enquanto sistemas abertos são sistemas complexos e não sistemas simples. Se nas coisas simples domina uma energia tangencial, o acaso, a entropia e a probabilidad, já nas coisas complexas existe uma energia radial, o anti-acaso, a anti-entropia e o improvável. O sistema aberto seria regido por mecanismos de auto-organização, responde a flutuações aleatórias, tem processos de crescente complexificação, conuzindo a ordens cada vez mais espontâneas. Deste modo, cada nova ordem traz consigo novos desafios, donde surgem novas ordens ainda mais complexas.

Uma nova forma de energia que lança para cima e para dentro

A complexidade diz respeito aos todos, às totalidades que não são simples justaposição de elementos simples, diz respeito aos todos centrados sobre si mesmos. A especificidade está na energia radial ou interna das coisas humanas, dessa anti-entropia que atravessa o mundo físico e o faz subir para o improvável. É esse poder que têm os seres vivos para a regeneração e para a multiplicação. Essa forma de energia que lança para cima e para dentro, para estados cada vez mais complexos e mais centrados. Essa forma de energia que liga os corpúsculos de centro a centro, de consciência a consciência sempre no sentido do improvável.

A anti-entropia

Nisso, os seres vivos divergem da lei da degradação da energia marcante no mundo físico, onde domina a entropia, aquela quantidade de energia que, sendo gasta numa mudança, se torna irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício. A entropia tende para a involução e para o nivelamento de conjuntos corpusculares marcados pela probabilidade, por esse jogo nivelador e homogeneizador que conduz à morte da matéria. Ela não passa de uma energia tangencial, mensurável.

A matéria-espírito

Contudo, a consciência faz parte do tecido do universo como o próprio corpo. Porque o universo é bi-facial, é Espírito-Matéria, dado que o Espírito emerge da complexidade da Matéria e o fenómeno humano constitui apenas uma fase suprema do fenómeno espiritual. A relação entre o Espírito e a Matéria é o mesmo do que a relação entre o Uno e Múltiplo. Não há antinomia, porque concretamente, não há Matéria e Espírito; somente existe Matéria tornando-se Espírito. Não há no mundo nem Espírito nem Matéria: o tecido do Universo é Matéria-Espírito. Não entre a Matéria e o Espírito separação nem justaposição. A super-estrutura do Espírito funda-se na infraestrutura da Matéria, a realidade da Matéria é o que permite a emergência do Espírito.

O político como antropogénese

Para que o político possa emergir não basta a reunião ou justaposição de elemento, é preciso que eles sejam coordenados ou centrados, não por um centro geométrico mas por uma unidade de acção que vise produzir uma acção comum. Neste sentido, o político é complexo, é composto de diferentes peças que funcionam em relação umas às outras, em função de um centro. O político é produto de uma antropogénese, é um ressalto original a evolução sobre si mesma, através da reflexão.

A amorização

A partir de então surge uma nova forma de energia que gera um movimento circular, produto da emergência de um sistema cerebral, de uma consciência reflexiva que tem vista uma convergência humana, de uma construção do universo pela amorização. Se há uma fase de divergência, de multiplicação de seres, segue-se a convergência, o encontro ou ínteses destes seres, onde surge a emergência, o aparecimento de uma qualidade nova, provocada pela energia radial, que aponta para uma subida no sentido do improvável. O motor da história não é a contradição, a antítese contra a tese, mas a atracção e o amor.

Divergência, convergência, emergência

A divergência não é oposição. A convergência é atracção. A emergência é uma qualidade nova que permanece ligada à síntese. Por outras palavras, a evolução é continuidade, não é ruptura, pelo que as próprias ciências sociais são o prolongamento da física e da biologia.

A noosfera

O político é produto de um centro que será tanto mais simples e mais profundo quanto mais densa e de maior raio for a esfera onde o coração se forma. O político não faz parte da biosfera, da zona da vida não reflexiva que cobre o planeta, da zona da vida dos vegetais e dos animais. O político faz parte da noosfera, da humanidade encarada como a camada pensante da terra, estreitamente ligada à biosfera, mas distinta dela, daquela noosfera que evolui para estados cada vez mais centrados.

A planetização

O mundo não é assim um mundo de coisas, mas de processos. Tudo se transforma, tudo está em evolução, tudo marcha do múltiplo para a unidade, num processo cósmico de planetização, segundo o qual os homens tendem a formar uma unidade assente na diferenciação, onde o todo, a totalidade não é uma soma nem um amontoado, mas um conjunto onde todas as partes estão ligadas entre si, de centro a centro, de consciência a consciência. Uma união que salvaguarda a diferença e originalidade de cada parcela, dado que nunca significa fusão, mas antes diferenciação. A humanidade é um todo em via de centração. Há continuidade na passagem do natural ao artificial, porque o fluxo da vida sobe para a consciência. O homem não é uma peça acrescentada ao mundo, emerge do movimento cósmico. O artificial, o cultural é o natural hominizado, é a organização da matéria acompanhada de psiquismo.

A necessidade de uma ultrafísica

Neste sentido, impor-se-ia uma ultrafísica, um esforço capaz de englobar a matéria e o espírito, capaz de relacionar dialecticamente idealismo e materialismo, uma explicação coerente do mundo capaz de apelar para a soma das nossas experiências, apelando ao aperfeiçoamento do mundo e ao crescimento ontológico do sujeito, um conhecimento que também seja praxis.

A totalidade como união e diferenciação

Caminhamos para a totalidade, para a conciliação entre o universal e o pessoal, para uma totalidae que não é fusão de elementos num amontoado ou num todo indeterminado, mas uma união que diferencia e interioriza, que personaliza, porque toda a unidade, consciente de si mesma, é distinta: na própria medida em que se encontrem reunidos uns contra os outros, os elementos pensantes que todos nós somos multiplicam incontestavelmente, por um mecanismo de inter-reflexão, o seu poder de reflexão individual. O ponto ómega será pois união na diferenciação, o contrário da uniformização, do nivelamento, do igualitarismo, do formigueiro de elementos, unicamente comandados por leis estatísticas dos grandes números e do acaso.

   

1923

La Messe sur le Monde

 

1923.

   

1955

Le Phénomène Humain

 

Paris, Éditions du Seuil, 1955, Oeuvres I. Cfr. trad. port. de Léon Bourdon e José Terra, O Fenómeno Humano, Porto, Livraria Tavares Martins, 1965. Obra escrita entre 1938 e 1940.

   

1956

L’Apparition de l’Homme

 

Paris, Éditions du Seuil, 1956, Oeuvres II. Recolha de artigos sobre pré-história e paleontologia.

   

1957

La Vision du Passé

 

Paris, Éditions du Seuil, 1957, Oeuvres III. Recolha de artigos científicos, morais e religiosos.

   

1957

Le Milieu Divin

 

Paris, Éditions du Seuil, 1957, Oeuvres IV. Recolha de textos sobre a espiritualidade cristã.

   

1959

L’Avenir de l’Homme

 

Paris, Éditions du Seuil, 1959.

   

1962

L’Énergie Humaine

 

Paris, Éditions du Seuil, 1962.

   

1963

L’Activation de l’Énergie

 

Paris, Éditions du Seuil, 1963.

   

1965

La Place de l’Homme dans la Nature

 

Paris, Éditions du Seuil, 1965.

   

1965

Science et Christ

 

Paris, Éditions du Seuil, 1965.

· Cartas de Hastings e de Paris. 1908 - 1914

Cfr. trad. port., Lisboa, Moraes Editores, 1967.

Cartas a Léontine Zanta

Cfr. trad. port., Lisboa, Moraes Editores, 1967.

Cartas do Egipto. 1905-1908

Cfr. trad. port., Lisboa, Moraes Editores, 1967.

4 Coffy, Robert, Teilhard de Chardin e o Socialismo, Lisboa, Moraes Editores, 1967. 4 Colóquio A Unidade do Género Humano, realizado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, de 2 a 6 de Maio de 1965, com a colaboração da Societé Pierre Teilhard de Chardin e do Centro Português de Estudos Europeus, in Estudos Políticos e Sociais, vol. III, nº 3, 1965, pp. 791-866, destacando-se a lição de Adriano Moreira, «Sobre o Estado Universal», ibidem, pp. 997-1009. 4 Cuénot, Claude, Aventura e Visão de Teilhard de Chardin, Lisboa, Moraes Editores, 1966. 4 Lubac, Henri, A Oração de Teilhard de Chardin, trad. port. de António Jorge, Lisboa, Moraes Editores, 1965. ¾ Blondel e Teilhard de Chardin, Lisboa, Moraes Editores, 1968. 4 Martin-Deslias, Noel, Teilhard de Chardin. Aventureiro do Espírito, trad. port. de Manuel Poppe, Lisboa, Moraes Editores, 1965.

© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência: Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info). Última revisão em: 14-01-2004