Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004


Civilização

Laços comunitários seriam laços de cultura, já os laços societários seriam laços de civilização

Confronto entre civilização e Cultura

Este confronto entre cultura e civilização vai, aliás, constituir um dos principais tópicos do pensamento alemão deste  começo deste nosso século.

Thomas Mann

Thomas Mann, por exemplo, considera que a cultura tem a ver com a alma (seele) enquanto a civilização está mais relacionada com o intelecto ou o espírito (geist). Para ele "a cultura é o princípio arquitectónico da organização estética, que conserva, protege e transfigura a vida", enquanto "a civilização é o Espírito no seio da razão, afinamento dos costumes, dúvida, progresso das Luzes, dissolução, enfim. "

No plano da teoria do Estado esta distinção vai manifestar-se  em  Paul von Sokolowski que na sua obra Politik und Rechtsphilosophie der Staat, de 1932, considera que o verdadeiro fim do Estado é "a realização de uma síntese perfeita da civilização e da cultura". Para ele, "civilização designa a função que o homem exerce lutando com as forças externas da natureza; cultura designa a função que o homem exerce lutando com as forças internas da natureza, os impulsos naturais". Se a civilização corresponde à s divindades e ao dogma, a cultura tem a ver com uma exigência moral interior.

 

Lord Acton considera que  " o Estado pode no decurso do tempo produzir uma nacionalidade mas que a nacionalidade deva constituir um Estado é contrário à natureza da moderna civilização".

Este católico britânico referia mesmo que "os Estados substancialmente mais perfeitos são aqueles que... abrigam várias nacionalidades distintas sem oprimi-las". Mais que "o processo de civilização depende de trancender-se a nacionalidade... As influências que são acidentais cedem à quelas que são racionais... As nações almejam o poder, e o mundo a liberdade"

 

Pessoa: a nação é entendida como "um conceito puramente místico", como "um meio de criar uma civilização", como um "organismo capaz de progresso e de civilização"

Pessoa considerava que "toda a criatura que hoje luta com a Alemanha deve saber que está lutando pelos princípios seguintes:1. A Civilização está acima da Pátria. 2. O Indivíduo vale mais do que o Estado. 3. A Cultura vale mais do a Disciplina"

 

Maurice Hauriou considera expressamente que "o Estado não existiu sempre, é uma formação política de termo de civilização; as sociedades viveram muito mais tempo no regime de clã, tribo e suserania feudal que no regime de Estado"

Toynbee

Também Arnold Toynbee chegou a idêntica conclusão quando considerou o Estado Nação como incapaz de história, dado que esta apenas seria possível para aquilo que qualifica como "civilizações". Arnold Toynbee, "numa civilização em crescimento, a um desafio opõe-se uma réplica vitoriosa que vai imediatamente gerar um outro desafio diferente ao encontro do qual se ergue uma outra réplica vitoriosa"

É evidente que o estatismo moderno nasceu à imagem e semelhança das reminiscências romanas. Daquela Roma cuja "engenharia política"(Agostinho da Silva) criou uma espécie de civilização de Estado.

 

Civilização

} Brugmans, Henri, Les Origines de la Civilization Européenne, Paris, 1958. } Service, Elman R., Origins of State and Civilization, Nova York, W. W. Norton, 1975. }

 

Civilização acima da Pátria (PESSOA), 93, 618

Civilização do devir HEGEL, 26, 167

Civilização e cultura, a mão e o cérebro DILTHEY, 32, 210

Civilização, espírito, contra as forças externas da natureza, 51, 319

Civilização-Resultado de um crscimento espontâneo e não de vontad, 39, 240

Segundo Rousseau, foi a civilização ou sociedade civil, no sentido de sociedade política, que criou um regime artificial de desigualdades, colocando os homens em regime de mútua dependência: o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu. Isto é, depois das desigualdades naturais ou físicas, seguiram-se as desigualdades morais ou políticas. Além da diferença entre os fracos e os fortes, acresceram as diferenças entre os ricos e os pobres; os senhores e os escravos.

 

Civilizations e Estado 

Num conúbio entre Weber e Marx, Jürgen Habermas considera que o Estado Moderno, que se forma em conexão com o tráfico mercantil das economias territoriais e nacionais em formação a partir das necessidades de uma administração financeira central, viu-se sempre remetido para a competência profissional de funcionários com preparação jurídica. Isto é, para além de exércitos permanentes, surgiu uma administração permanente e tiveram de aplicar mais uma arte do que uma ciência. O Estado resultaria da emergência típicas das sociedades das chamadas culturas superiores (civilizations), em oposição à s sociedades ditas mais primitivas, através de três elementos: — existência de um poder central ( organização estatal da dominação face à organização por parentesco);  — divisão da sociedade em classes socio-económicas; — estar em vigor algum tipo de mundivivência central (mito, religião superior) que tem como fim uma legitimação eficaz da dominação. Acontece que o Estado parece ter de abandonar a substância da dominação em favor de uma inserção eficiente das técnicas disponíveis no enquadramento das estratégias impostas pelas próprias coisas — ele parece já não continuar a ser um aparelho para a imposição coactiva de interesses infundamentáveis por princípio e só sustentáveis em termos decisionistas, para se transformar num órgão de uma administração integralmente racional 

 

 




© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Última revisão em: