Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Delors, Jacques (n. 1925)

Antigo sindicalista cristão, animador do Clube Jean Moulin; quadro do comissariado geral do Plano, torna-se conselheiro do primeiro-ministro Chaban Delmas em Junho de 1969, participando na elaboração do programa nouvelle societé durante o governo gaullista de Pompidou; depois da demissão de Delmas, foi professor associado da universidade de Paris-Dauphine; aderiu ao partido socialista em Dezembro de 1974; deputado ao Parlamento Europeu em 1979, torna-se presidente da comissão económica e monetária do mesmo; minsitro da Economia e das Finanças francês de Maio de 1981 a Julho de 1984; presidente da Comissão entre 1985 e 1995. O projecto precisava de uma liderança simultaneamente forte e negociadora. Ei-la que emerge a partir de Janeiro de 1985. Chama-se Jacques Delors, vai alcunhá-lo como Monsieur Europe e volta a vestir-se algo de Monnet. Com ele regressa-se ao primado do método. Com efeito, Delors dá corpo a uma táctica criadora de novas estratégias, principalmente a partir da invenção do livro branco da comissão elaborado pelo britânico Lord Cockfield, que inventou o objectivo do mercado interno, espaço sem fronteiras a ser realizado até 31 de Dezembro de 1992.O grande mercado único que, no fundo, não passa de uma transfiguração mediática do velho mercado comum foi o excelente pretexto para que despertasse a velha letargia comunitária, através do método da administração por objectivos, desdobrada num detalhado calendário de três centenas de medidas.Inventava-se um motor e um catalizador, criando-se um processo de sinergia que permitiu um esforço praeter legem face aos tratados.A luta simbólica contra as fronteiras ia tocar num dos elementos ontológicos do Estado moderno absolutista.Com efeito, o Tratado de Roma se tinha abolido os direitos aduaneiros, não tinha feito desaparecer as fronteiras. A liquidação dos direitos aduaneiros eliminava de facto a razão pela qual a partir dos finais do século XVI se tinha iniciado o processo de estabelecimento das raias secas, o prelúdio de uma mais vasta territorialização do político que vai ser concretizada pelo Estado Absoluto, graças à aplicação do conceito de soberania externa· A Europa de 1992 vai sem dúvida constituir o leit motiv da segunda metade dos anos oitenta. É o tempo dos engenheiros financeiros e dos macroeconomistas e, muito principalmente, dos governadores de bancos e o voluntarismo político cede lugar ao esotérico dos relatórios bancários.É a Europa bancoburocrática que regressa, talvez mais financeira do que economista e mais economico-financeira do que política.Já não é a Europa dos diplomatas e dos estrategistas, como a que surgira com De Gaulle. Muito menos, a Europa dos políticos programáticos e dos homens de pensamento, como a do Congresso de Haia de 1948.É um tempo de impotência do poder político, face a certas leis de ferro da economia. Um tempo onde, no quadro da teologia de mercado prègada pela onda da moda neoliberal, onde se reforçam os desafios da mundialização económica, conforme a opinião dominante da OCDE e com a inevitável viragem do GATT.

· Le Nouveau Concept Européen,

Paris, Éditions Odile Jacob, 1992.

 

© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência: Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info). Última revisão em: 14-01-2004