Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Hugo, Victor Marie (1802-1885)

Poeta e romancista francês. Filho de um general francês, o conde Sigilbert Hugo, passa a infância em Itália e na Espanha. Assume-se como deputado depois da Revolução de 1848. Exilado desde 2 de Dezembro de 1851 em Jersey, apenas regressa à pátria em 4 de Setembro de 1870. Autor de Notre-Dame de Paris, de 1831, e de Les Misérables, de 1862. Começando por ser legitimista católico, durante a restauration, passa para o campo liberal a partir do orleanismo de 1830. Assim, aparece em 1848, enquanto deputado eleito pela burguesia, como um apoiante da repressão contra os revolucionários, embora defendesse a liberdade de imprensa e a educação popular. O jornal que então dirige, L'Événement, tem aliás, como divisa: Haine vigoureuse de l'anarchie, tendre et profond amour du peuple. Adepto do republicanismo, começa por apoiar Luís Napoleão para, logo o defrontar e ver-se condenado ao exílio, entre 1852 e 1870. Volta às lides políticas episodicamente em 1871, como deputado, funções de que logo se demite. Acaba por morrer laureado como profeta da República Universal.

O turbilhão romântico

Victor Hugo, o turbilhão romântico, acirrado pela primavera dos povos de 1848, que fala tanto nos Estados Unidos da Europa como na Europa Nação, ao mesmo tempo que procura conciliar alemães e franceses.

Defesa da fraternidade europeia

Já em 1849, presidindo a um congresso da paz organizado por Mazzini, declarara: Virá um dia em que, tu França, tu Rússia, tu Itália, tu Inglaterra, tu Alemanha, todas vós, nações do continente, sem que se percam as vossas qualidades distintas, vos fundireis numa unidade superior e constituireis a fraternidade europeia, da mesma maneira que a Bretanha, a Borgonha, a Lorena, a Alsácia se fundiram com a França. Virá um dia onde as balas e as bombas serão substituídas pelos votos, pelo sufrágio universal dos povos, pela venerável arbitragem de um grande Senado soberano que estará para a Europa, como o Parlamento está para a Inglaterra, como a Dieta está para a Alemanha, como a Assembleia Legislativa está para a França.

Os Estados Unidos da Europa

Dois anos depois, num discurso feito no parlamento francês, em 17 de Julho de 1851, quando, sob a Segunda República, presidida por Luís-Napoleão, se discutia a revisão constitucional, proclamava: Sim! Foi o povo francês que primeiro colocou num granito indestrutível e no meio do velho continente monárquico a pedra do grande edifício que um dia se há-de chamar Estados Unidos da Europa.

A Nação Europa

Num artigo, intitulado O Futuro, de 1867, vem, depois, dizer: No século XX existirá uma nação extraordinária. Esta nação será grande, o que a não impedirá de ser livre. Será ilustre, rica, pensadora, pacífica e cordial para o resto da humanidade (...) Esta nação terá Paris como capital e deixará de se chamar França para se chamar Europa. No século XX chamar-se-á Europa e, nos séculos seguintes, mais modificada ainda, chamar-se-á Humanidade.

Do fim das fronteiras à paz universal

Em 14 de Julho de 1870, três dias antes de se iniciar a guerra franco-prussiana, semeava em Haute-Ville o carvalho dos Estados Unidos da Europa. Depois da derrota francesa, quando a assembleia nacional em Bordéus se reúnia, eis Victor Hugo propondo à Alemanha vitoriosa uma fusão: Não mais fronteiras! Que o Reno seja de todos! Sejamos a mesma república, sejamos os Estados Unidos da Europa, sejamos a federação continental, sejamos a liberdade europeia, sejamos a paz universal! Na sua casa da Place des Vosges deixou mesmo uma nota escrita pelo seu próprio punho: eu represento um partido que não existe ainda. O partido da Revolução-Civilização. Este partido edificará o século XX. E fará nascer, primeiro, os Estados Unidos da Europa. Depois, os Estados Unidos do Mundo .

A paixão pela Alemanha

Victor Hugo, o europeísta, é o romântico apaixonado pela Alemanha, o mesmo que, em 1842, proclamava: se não fosse francês gostaria de ser alemão . Para ele, França e Alemanha são, de facto, a Europa. A Alemanha é o coração; a França, a cabeça. Alemanha e França são em essência a civilização; a Alemanha sente, a França pensa; coração e cérebro formaram o homem civilizado (...) Tiveram a mesma origem; lutaram juntas contra os romanos; foram irmãs em dias passados, são irmãs agora, serão irmãs nos tempos que virão. Sua formação, também, foi a mesma. Não são nações isoladas; não adquiriram as suas possessões por conquista; são filhas verdadeiras do solo europeu. Hugo, com efeito, faz parte daquela corrente francesa que sofreu os efeitos de 1815 e que, mantendo o complexo de Waterloo, detestava os dois líderes da Europa anti-napoleónica, a Grã-Bretanha e a Rússia: Hoje, como há duzentos anos, há duas poderosas nações mirando a Europa com olhos cobiçosos. O espírito guerreiro, de violência e conquista, está ainda solto no Leste; o espírito de ganância, de astúcia e aventura continua solto no Oeste. Parecem os dois gigantes ter-se movido um pouco mis para norte, a fim de tentar pegar no continente um pouco mais acima. A Rússia tomou o lugar da Turquia e a Inglaterra substituiu a Espanha. A Inglaterra é Cartago contra Roma, é o antigo espírito púnico que durante tanto tempo lutou contra a civilização na antiguidade. O espírito púnico é o espírito do comércio (...) o espírito da ganância, o espírito do egoísmo. A Inglaterra acabará sendo esmagada pela formidável oposição do universos, ou compreendendo que o reino de Cartago passou.

© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência: Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info). Última revisão em: 11-01-2004