Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Ideologia

 

Termo inventado pelo sensualismo de Destutt de Tracy, em 1796, em Project d’Élements d’Idéologie, querendo significar ciência das ideias, o estudo sistemático, crítico e erapêutico dos fundamentos das ideias. Sofre logo uma rápida evolução semântica: de ciência das ideias passa a aspiração reformista envolvendo um programa político. Conforme a definição de Marcel Prélot, teses ligadas entre si e referidas a um princípio, dando origem a um plano intelectual de organização política, o qual constitui igualmente um todo ligado e coordenado. Para Jean Touchard, uma ideia política que tem peso social, uma pirâmide com vários andares; no vértice, a doutrina, aquilo a que os marxistas chamam praxis; em seguida, as vulgarizações; depois, os símbolos e as representações colectivas.

 

A ideologia depressa passou a uma criatura que ultrapassou os limites conceituais que lhe foram estabelecidos pelo criador. É um sistema de pensamentos, um conjunto de pensamentos estratificados, um conjunto autónomo sujeito a leis próprias de desenvolvimento. Por outro lado, passou a significar uma espécie de programa político reformista, ligado aos amanhãs que cantam. Em terceiro lugar, a ideologia é um sistema de ideias conexas com a acção (Carl J. Friedrich), exigindo uma estratégia para a actuação.

 

Para Adriano Moreira, as ideologias são factos com peso objectivamente verificável na vida social , "sistemas de ideias que já não são pensadas por ninguém" (Weidle), padrões de comportamento político, sistemas de ideias que presidem à luta política, orientando os agentes individuais e colectivos nessa competição pela captura, manutenção e exercício do Poder.

 

Têm três elementos: racionais (as ideologias são ideias sistematizadas, a presença residual das ideias dos pensadores,  marcada por um lógica teleológica); emotivos (destinadas a obter a adesão emocional dos indivíduos, os juízos de valor que apelam para uma coerência valorativa, e que normalmente se comunicam pela apologética e pela propaganda); e míticos (através do mito -intuições e esperanças colectivas onde se acomodam ideias milenaristas, os sebastianismos, a sociedade futura do pão gratuito e da paz perpétua).

 

Para Anthony Downs, a ideologia como a verbal image of the good society, and the chief means of constructing such a society. —

 

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Ideologias, Fim das Na década de cinquenta deste século, entre as angústias do pós-guerra e as dramas existenciais da guerra fria, emerge a tese do apaziguamento ideológico, do declínio ideológico ou do crepúsculo das ideologias. É quando Raymond Aron escreve L’Oppium des Intelectuels (1955), para, dez anos depois, dissertar sobre Fin des Idéologies. Renaissance des Idées. Segue-se Jean Meynaud que elabora a tese Le Déclin des Idéologies (1961).

Sobre a questão do declínio, crepúsculo ou fim das ideologias, Bell [1955 e 1960], Shils [1955 e 1968], Fernandez de la Mora [1965], Germino [1967], Waxman [1968], Di Palma [1973], Thomas [1975], e Shtromas [1994].

 

 




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