Respublica
Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Sacralização do Poder
Como refere Jules Monnerot, com o Renacimento, tentou
transformar-se a política numa arte que lembra a medicina: o político
como médico é, ao mesmo tempo, um homem que sabe, um homem que escolhe e um
homem que actua. Resta saber, continuando a citar o mesmo autor, se, a
partir de então, essa tendência humana para a sacralização do político
não foi mais"a
homologia do sagrado e do político.
Como a este respeito salienta Balandier "manifestam o poder enquanto força,
associada às forças que regem o universo e nele alimentam a vida, e enquanto
potência de dominação. Associam a ordem do mundo, imposta pelos deuses, e a
ordem da sociedade, instaurada pelos antepassados do princípio ou pelos
fundadores do Estado. O ritual garante a manutenção do segundo... Esta
solidariedade do sagrado e do político, que faz com que os actos que lesam o
poder ( mas não os seus detentores) sejam sacrílegos, apresenta formas
diversas consoante os regimes políticos;
deixa o sagrado em primeiro plano no caso das sociedades sem Estado, faz
prevalecer a dominação exercida sobre os homens e as coisas no caso das
sociedades estatais". Outro autor como Leslie White refere mesmo que o
Estado e a Igreja não passam de dois aspectos do mecanismo político do Estado
tradicional. O Estado tem como missão garantir "a integridade do sitema
socio-cultural de que é uma parte" e quer conservar "o sistema
como um todo". Kelsen Quer libertar o Estado e o Direito daquilo que
designa pela "névoa metafísica", que os considera como algo de
"sagrado na sua origem ou na sua ideia". Pretende um
"conhecimento do Estado isento de elementos ideológicos e, portanto,
liberto de toda a metafísica e de toda a mística". Para ele, "ao
separar-se com toda a clareza a teoria do Estado da política - como
Ética e Técnica social - de um lado, e a ciência
natural e a sociologia naturalista,
por outro lado, realiza-se o postulado da pureza do método".