Respublica
Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Simbolismo Político
Como salienta Lévi-Strauss, os factos sociais
são, ao mesmo tempo, coisas e representações pelo que a sociologia não pode
explicar a génese do pensamento simbólico; deve tomá-la como se fosse dada.
De facto, é o pensamento simbólico que torna
a vida social ao mesmo tempo possível e necessária dado que os
símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam até porque o
significante precede e determina o significado. Como justamente observa Paul
Ricoeur, toda a razão tem um horizonte
sobredeterminado pela crença, havendo um
ponto, onde o racional comunica com o mítico, donde deriva toda uma
constituição simbólica do laço social. Com efeito, toda
a ética que se dirige à vontade para a lançar no agir deve ser subordinada a
uma poética que abre novas dimensões à nossa imaginação. Também Eric
Voegelin assinala que a sociedade é
iluminada por um complexo simbolismo, com vários graus de compactude e
diferenciação — desde o rito, passando pelo mito, até à teoria —
e esse simbolismo a ilumina com um significado na medida em que os símbolos
tornam transparentes ao mistério da existência humana a estrutura interna
desse pequeno mundo, as relações entre os seus membros e grupos de membros,
assim como a sua existência como um todo. A auto-iluminação da sociedade
através dos símbolos é parte integrante da realidade social, e pode mesmo
dizer-se que é uma parte essencial dela, porque através dessa simbolização
os membros da sociedade a vivenciam como algo mais que um acidente ou uma convivência;
vivenciam-na como pertencendo a sua essência humana. Mais recentemente,
Edgar Morin considera que não podemos fugir ao mito, mas podemos reconhecer a sua natureza de
mitos e relacionar-nos com eles, simultaneamente por dentro e por fora.
Porque o problema consiste em reconhecer
nos mitos a sua realidade e não a realidade. Em reconhecer a sua verdade e não
em reconhecer neles a verdade. Em não introduzir neles o absoluto. Em ver o
poder de ilusão que segregam constantemente e que pode ocultar a sua verdade.
Devemos demitificar o mito, mas não fazer da demitificação um mito. Como
salienta Georges Burdeau, o mundo político é da mesma natureza que o universo poético, dado que é
povoado por crenças, convenções e símbolos. E isto porque se
o político é o reflexo de uma imagem que a sociedade faz de si mesma,
concebe-se facilmente que ele seja solidário de símbolos e de mitos que
sustentam esta representação.