Respublica
Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Sociedade Global
A procura do conceito de sociedade global. Marcel Mauss e o fenómeno social total: a sociedade como totalidade articulada e
complexa. A perspectiva de Gurvitch: o carácter pluridimensional da realidade
social e a teoria da sociedade global, com a necessidade de quatro soberanias:
social, económica, jurídica e política. A tese de Jean-William Lapierre ( a
sociedade global como um vasto fenómeno
social total, um conjunto concreto e singular de pessoas e grupos no qual todas
as categorias de actividades são exercidas e mais ou menos integradas).
A vulgarização de Maurice Duverger. O Estado-Nação
como sociedade global. Da relação social à estrutura social. A
diferenciação social, a organização dinâmica da estrutura e o respectivo
aspecto social (Radcliffe-Brown).
A ideia remonta a Marcel Mauss (1872-1950), a quem cabe a descoberta do facto
ou fenómeno social total, considerado como uma totalidade
concreta, simultaneamente, jurídica, económica, religiosa e estética,
onde a mesma pessoa pode desempenhar vários papéis sociais. Esta ideia vai,
depois, ser adoptada por uma série de autores que tentaram conciliar a herança
darwinista com o mais recente desenvolvimentismo.
A
teoria sistémica, no âmbito da sociologia e da politologia francesas, concilia-se com a ideia de social
total que, no dizer de Georges Gurvitch (1894-1965), ultrapassaria os
agrupamentos funcionais e as classes
sociais. Uma sociedade global que, segundo o mesmo autor, seria um macrocosmos
de macrocosmos sociais, assumindo, na maior parte dos casos, grande
envergadura, sendo dotada de uma quádrupla soberania:
social, económica, jurídica e política, porque uma
sociedade global afirma a sua especificidade e a sua diferença relativamente a
uma outra sociedade global a todos os níveis (... ) Ao nível político, exerce de facto e de direito o poder de
administrar os grupos e os indivíduos que a compõem; ao nível jurídico,
apresenta-se como a fonte do direito, que fixa o que é permitido e o que é
proibido, e organiza os diversos tipos de relações e de contratos (sistemas de parentesco, contratos de propriedade, etc. );
ao nível económico, organiza a produção, a circulação e o consumo de bens;
ao nível cultural, é o foco criador dos modelos de comportamento dominantes e
a organizadora dos seus modos de transmissão.
Marcel
Mauss (1872-1950), a quem cabe a descoberta do facto ou fenómeno social total, considerado como uma totalidade
concreta, simultaneamente jurídica, económica, religiosa e estética, em
que a mesma pessoa pode desempenhar vários papéis
sociais. Esta ideia será, depois, adoptada
por uma série de autores que tentaram desenvolvimentismo.
Gurvitch, neste sentido, elenca a sucessão histórica das várias sociedades
globais: teocracias carismáticas, sociedades
ditas patriarcais, sociedades feudais,
sociedades globais onde predominam as
cidades-estados tornando-se impérios, sociedades globais onde se manifestaram os alvores do capitalismo e o absolutismo dito
esclarecido, e a Jean-William Lapierre, uma sociedade global pode ser considerada
como um vasto fenómeno social total. Entende por tal um conjunto concreto e singular de pessoas e de grupos no qual todas as
categorias de actividade são exercidas e mais ou menos integradas. Trata-se
do mesmo conceito que, no século XVII, se exprimia por sociedade civil e corpo político
e que significa o mesmo que o inglês polity ou com aquilo que os marxistas entendem por formação
social. Segundo o mesmo autor, haveria cinco sistemas principais de sociedade global: sistema bio-social ou sócio-genético, parentesco,
segundo Claude Lévi-Strauss; sistema ecológico ou sociogeográfico; sistema
económico ou de comunicação de bens e
serviços; sistema cultural ou de comunicação
de mensagens; sistema
político. Esta visão da sociedade global desaguou
na perspectiva de Maurice Duverger, para quem a sociedade global implica uma
cultura e um carácter nacional, exigindo três elementos: articulação dos
diversos grupos humanos; forte integração dos mesmos, de modo a gerar uma
solidariedade profunda; uma
intensidade superior à da solidariedade grupal.
Duverger tomava como ponto de chegada o actual Estado-Nação
e como paradigma a nation par excelence,
que por acaso também é a sua. Mas não deixava de estabelecer o quadro
evolutivo das diversas sociedades globais: a tribo, a cidade antiga, o domínio
senhorial feudal, a monarquia absoluta e, finalmente, o Estado-nação, com os
diversos modelos do século: Estado liberal-capitalista, Estado fascista, etc.
Neste
sentido, Lapierre considerava o Estado como um aparelho ou organização dotado
de uma legitimação
através de leis, com uma determinada
Concordava, aliás, com Nicos Poulantzas (1936-1979) quando este atribuía ao
Estado uma função global de coesão
e considerava que o mesmo possui esta função
particular de constituir o factor de coesão dos níveis de uma formação
social, acentuando, no entanto, que numa
perspectiva antropológica esta função não é específica da forma histórica
particular do poder político que é o Estado. Ela define todo o poder político,
incluindo o das sociedades cujo modo de organização política não comporta
qualquer aparelho de Estado especializado nesta função.