Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

Valores
 

Do lat. valore, provenienete do verbo valere, gozar de boa saúde, passar bem, ser forte, ser corajoso. Em grego, axios, etimologicamente, aquilo que tem peso. Daí, aquilo que vale a pena, aquilo que é precioso, que é digno de ser estimado ou preferido. Aquilo que uma coisa vale. O desejável que é colectivamente partilhado no interior de uma determinada sociedade.Padrão utilizado pela consciência para avaliar uma acção, realizada ou a realizar. Aquilo que é bom, que é desejável, que tem mérito, que vale a pena. Todos aqueles fins que motivam a acção humana em variados domínios, da estética à religião, do direito à política.

Adam Smith foi o primeiro a usar a expressão valor, distinguindo entre o valor de uso e o valor de troca. Em termos económico, o valor é considerando como o preço que do ponto de vista normativo se julga dever ser pago por um objecto ou um serviço. Nestes termos, Marx chega a considerar que o valor de uma coisa equivale ao trabalho acumulado, porque as coisas valem o trabalho que custaram para serem produzidas. Foi da economia que a expressão passou para o mundo da moral e da filosofia, com detsque para o filósofo alemão Rudolf Hermann Lotze (1817-1881), na sua obra Mikrokosmos, 1856- 1864, quando distinguiu realidade, verdade e valores, mundos a que corresponderiam as conexões causais, as conexões de sentido e as conexões de fim. O modelo foi adoptado por Heinrich Rickert e pela escola neo-kantiana de Baden. Também Nietzsche usa a expressão valor, considerando-a como equivalente ao conceito clássico de bem.

No plano politológico, segundo Clyde Kluekhon, os valores podem ser definidos como aquilo que é o desejável, partilhado em comum no interior de uma determinada colectividade social. Os valores são interiorizados pelo indivíduo no decurso do respectivo processo de socialização, contribuindo para a integração e a mobilização sociais. Com a sociedade moderna, face ao processo de divisão de trabalho e de conflitualização, o núcleo comum dos valores sociais foram reduzidos a um mínimo, contrariamente ao que sucedia nas sociedades tradicionais.

O movimento neo-kantiano da Escola de Baden, marcado pelo magistério de Heinrich Rickert gera a chamada filosofia dos valores e inspira a sociologia compreensiva de Max Weber. Surge, assim, um paradigma científico que, muitas vezes, se opõe aos que defendem uma ciência livre de valores (Wertfreiheit), na linha do utilitarismo.

Valores. Economia

O termo foi usado por Adam Smith quando quis distinguir a utilidade do preço, concebendo a primeira como o valor de uso (use-value) e o segundo como o valor de troca (exchange-value).

Valor de troca (exchange-value)

O mesmo que preço de uma coisa, segundo Adam Smith. Para Talcott Parsons, o poder político tem mais valor de troca do que valor de usa. Como a moeda, é uma simbolização da força física, assentando na troca baseada na confiança. Trata-se da apreciação social atribuída a uma coisa, num determinado momento e por um determinado grupo, apreciação essa que o grupo interpreta, oferecendo por esse bem um determinado preço.

Valor de uso (use-value)

O mesmo que utilidade de uma coisa, segundo Adam Smith. Quando uma coisa se mostra capaz de satisfazer uma determinada necessidade.

Valores (Rickert)

Desenvolvendo o método teleológico de construção dos conceitos, bem diverso do método das ciências matemático-naturais, dado que nestas o conhecer é apreender o geral, abstraindo do particular e do intuitivo, considera que este não pode ser o único método científico. Defende assim que a realidade deve ser encarada a partir de duas perspectivas. Pelo lado daquilo que na realidade se apresenta como geral, temos a natureza. Pelo lado daquilo que nela se nos apresenta como particular, temos a cultura. Se a conceitualização naturalista tem de ser mecânica – própria das ciências nomotéticas ou generalizantes –, já a conceitualização culturalista deve assumir-se como teleológica – própria das ciências do espírito, idiográficas ou individualizantes –, procurando estabelecer-se sempre a relação de cada fenómeno com um valor. Neste sentido, retoma o conceito kantiano de dedução transcendental, algo bem diverso da dedução lógica, daquela que procura fazer derivar um determinado efeito de uma determinada causa. Na primeira, pelo contrário, procura justificar-se uma pretensão pela sua condição. Porque se o efeito é uma consequência da causa, na dedução lógioca, eis que a condição comanda a possibilidade, na dedução transcendental. No pensamento de Rickert, os valores, apesar de serem um a priori teorético-cognitivo, não são considerados como puramente subjectivos nem como arbitrários. Os valores não estão para além da realidade, dado que penetram nela, atravessando-a, como a luz que passa através de certos corpos translúcidos. A cultura apresenta-se assim como uma região intermédia que vai da natureza para os valores, constituindo uma realidade referida a valores e não podendo confundir-se com a ideologia, que apenas manobra com elementos apriorísticos, subjectivos e arbitrários. Pelo contrário, a cultura, tratando dos valores ligados aos fenómenos, apenas os recolhe, não os inventa. Os valores, para a cultura, têm de ter um interesse geral, devendo ser reconhecidos e aceites pela comunidade. Aliás, os  valores é que permitem distinguir o essencial do acessório, chegar à individuação do fenómeno e dar significado e sentido ao objecto analisado, integrando-o no conjunto. A realidade empírica é assim transformada pela ciência através dos conceitos, torna-se histórica quando a consideramos nas relações com o individual e o particular e torna-se natureza quando a consideramos na sua relação com o geral. Deste modo, todo o fenómeno cultural, apesar de situado no tempo e no espaço, transforma-se num conjunto com uma estrutura horizontal (relações com o passado e o meio-ambiente) e uma estrutura vertical (nasce, cresce e morre). Os valores permitem assim uma construção teleológica de conceitos, pelo quer é possível reconstruir as ciências históricas e sociais através do método da referência a um valor (wertbeziehende Methode), isto é, pela construção de conceitos referida a valores, como forças culturais. Para Rickert os homens reconhecem determinados valores como valores e aspiram a produzir bens em que esses valores adiram. Deste modo, os valores não existem, valem (gelten), sem, no entanto, serem reais. São valores de verdade, morais, estéticos e religiosos. Conforme salienta Castanheira Neves, essas ideias, princípios e valores são pressupostos como objectividades, como algo independente das intenções meramente psicológicas do sujeito, como uma validade que reconhecemos impor-se-nos objectivamente. As teses de Rickert assumem assim a existência de uma relação objectiva entre o ser e o valor, entre a ontologia e a axiologia, ao contrário do que, depois, faz Max Weber, para quem a escolha dos valores é estabelecida pelo próprio pesquisador, subjectivamente, através de um individualismo metodológico.

© José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados. Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência: Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info). Última revisão em: 10-12-2003