Respublica           Repertório Português de Ciência Política            Total: C/Ci
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                © José Adelino Maltez. Última revisão em: 03-01-2004
 

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Lista de artigos

Artigos em grosso

Cigler, Allan J.
Cybernetics, 1948
Cícero, Marco Túlio 106-43 a. C.
Ciclo Ciclópicas tarefas

Cid, José de Matos Sobral

Cid, José de Vale Matos 

Cidadania

Cidadania (Arendt).

Cidadania
Cidadão

Cidadão Politai

Cives

Cidade
Cidade antiga

Cidade de Deus

Cidade Pluralista
Cidade, Hernâni

Cidade-Estado

Cidade do Sol [1602] 

Campanella, Thomasio

Ciência Ciência

Ciência, cristianismo, democracia, 1967

Ciência livre de valores ()

Ciência natural do Estado

Civilidade
Ciência política e direito

Ciência política e ciências da vida

Ciência política e estratégia

Ciência política e filosofia

Ciência política e história

Ciência política e marxismo
Ciência política e nação

Ciência política e sociologia
Ciência política e teologia
Ciência política em Espanha

Ciência política em França

Ciência política em Portugal

Ciência política na Bélgica
Ciência política na Irlanda
Ciência política no Brasil
Ciência política no Reino Unido
Ciência política norte-americana
Ciência política nos Países Baixos

Ciências do espírito Geisteswissenschaften
Ciências finais ou teleológicas
Ciências políticas e administrativas
Ciências, Classificação das

Cientificismo
Cientismo 

Ciência e opinião

Cientismo

Cientismo newtoniano

Cientismo de Comte

Cimeira Europeia de Copenhaga (1973)

Cimeira da Terra

Cipião, O Sonho de

Circulação, Liberdade de

Círculo de Viena

Círculos Católicos Operários 1898

Cisalpina, República 1797

Cisleithania 1867-1918

Cisma do Ocidente

Cisma do Oriente
Cisneros, José Maria Hernandez Rubio
Cispadana, República 1796

Cister, OrdemCitadelle, 1948

Citizens, Elections, Parties (1970)

Civic Culture (1963)

Civil Society
Civilis scientia
Civilização

Civilização

Civilizations e Estado

Civilization on Trial [1948] Toynbee, Arnold

Civismo

Civilismo
Civitas Civitas Humana (1946)

Cive, De [1642] Hobbes, Thomas

Clã

Clandestinidade

Clapmar, Arnold (1574-1611)

Clark, George

CIA (Central Intelligence Agency) Criada em 1947 pelo National Security Act.
 
Ciano, Galeazo. Conde de (1903-1944) Ministro fascista da propaganda (1935) e dos estrangeiros (1936 a 1943). Destacado membro do partido fascista, casa com a filha mais velha de Mussolini. Assassinado pelos alemães em Janeiro de 1944.
 
Cibernantropos Segundo Henri Lefebvre, o Estado Tecnocrático faz dos cidadãos meros c., devido ao funcionamento automático da sociedade. O autor dá este título em 1971 à segunda versão da sua obra de 1967, Contre les Technocrates.
 
Cibernética. A ciência constituída pelo conjunto das teorias relativas às comunicações e à regulação no ser vivo e na máquina. Utiliza-se uma palavra que vem do grego Kybernetes (o piloto ou timoneiro de um barco), expressão essa donde, aliás, derivou a palavra latina gubernare Ciência criada por Norbert Wiener em 1948 entendida como a ciência da comunicação e o controlo nos animais e nas máquinas. A expressão, do grego Kubernetike, já havia sido usada por Platão, no sentido de governo. Kubernesis significava direcção e Kubernetes, piloto. Foi, depois, retomada por Ampère, no seu Essai sur la Philosophie des Sciences. James Watt, nos finais do século XVIII deu o nome de governor a um regulador centrífugo e Clerk Maxwell, em 1868 fez um ensaio sobre este instrumento. Em 1956 chegou mesmo a fundar-se uma Sociedade para o Desenvolvimento da Integração dos Sistemas Gerais, editora da revista General Systems.
 
Cigler, Allan J., Loomis, Burdett A., eds., Interest Groups Politics, Washington D. C., CQ Press, 1991.
 
Cybernetics, 1948 Obra de Wiener, onde se considera a cibernética como a ciência da comunicação e o controlo nos animais e nas máquinas, salientando que o ser vivo é uma máquina entre cujas funções, uma é a de montar a própria máquina. E isto porque os organismos só actuam graças à aquisição, ao uso, à conservação e à transmissão da informação. Nas sociedades que são grandes demais, para se tornar possível o contacto directo, este meios são a imprensa, o rádio, o telefone, etc. A partir de então, começa a falar-se numa causalidade sistémica que seria bem diferente da causalidade linear, e de uma lógica concreta e racional, já distante da lógica cartesiana. Wiener, na edição alemã da mesma obra, publicada em 1963, deu um novo título à obra, Cibernética. Regulação (Regelung) e Transmissão da Informação (Nachrichtenubertraguung).
 
 
 
Cícero, Marco Túlio 106-43 a. C. originário de uma família da classe média, apesar de não ser patrício nem plebeu, pôde seguir todo um brilhante cursus honorum no âmbito das magistraturas republicanas. Com vinte e cinco anos de política activa, aparece em 63 a. C. como cônsul a derrotar a conjura de Catilina, obtendo então o título de pater patriae. Assume, então, a liderança do terceiro partido, dos homens de negócios, distante dos populares, liderados por Catilina, e dos nobiles, propondo uma terceira via, a da concordia ordinum, a aliança da classe média com os nobiles moderados. Já depois do assassinato de Júlio César em 44 a. C., assume a chefia do partido senatorial que advogava o regresso ao pluralismo e às liberdades republicanas, mas vai ser derrotado na sequência do advento do segundo triunvirato, onde o seu aliado, Octávio, não consegue impedir o respectivo assassinato, às ordens de Marco António e de Fúlvia. Este manda até atravessar-lhe a língua com um estilete. Entre as suas obras políticas, destacam-se De Republica, escrita entre 54 a. C. e 51 a. C, e De Legibus, trabalho que deixou incompleto e que começou em 52 a. C. Estas duas obras que retomam, respectivamente, Politeia e Nomoi de Platão, se não primam pela originalidade, demonstram como o republicanismo romano tentou retomar as sementes lançadas pelos gregos. Aliás, o próprio Cícero recebeu a sua formação na Grécia, inserindo-se como discípulo da primeira fase da escola estóica de Zenão e como herdeiro das concepções de Políbio (201-120 a. C. ), servindo de ponte para o posterior estoicismo romano de Séneca, Epicteto e Marco Aurélio. São estas bases estóicas que o levam a conceber a política como um reflexo da ordem cósmica e a res publica, como uma espécie de participação do homem na cadeia universal. A história política é, assim, perspectivada como um encadeamento de ciclos onde as mudanças podem ser regressos, numa espécie de anaciclose. O estoicismo também o faz ultrapassar um certo etnocentrismo dos escritores atenienses, abrindo-se tanto para a humanitas como para o próprio mundo, nomeadamente quando faz a defesa do omnium gentium consensus. Se, em Platão e Aristóteles ainda permanece aquilo que alguns qualificam como uma racionalização da natureza, já em Cícero emerge uma espécie de naturalização da razão. Este republicanismo estóico, onde também se defende uma moralização da política, vai ser, depois, desenvolvido pelos autores cristãos que também utilizam algumas das pistas de reflexão semeadas por Cícero. Uma secção de De Republica, o sonho de Cipião, depois de ser antologiada por Lactâncio, vai ser utilizada por Santo Agostinho que, assim, lança alguns dos conceitos deste cidadão romano em pleno debate medieval. Refira-se, contudo, que as restantes partes de tal obra continuaram desconhecidas até à descoberta de um palimpsesto da biblioteca do Vaticano, em 1822. Com ele dá-se a emergência do conceito de povo (populus), entendido, não como uma multidão unida de qualquer maneira (coetus multitudinis quoque modo congregatus), mas antes como uma multidão unida pelo consenso do direito e pela utilidade comum (coetus multitudinis juris consensus et utilitatis communione sociatus). Porque, para haver res publica, são necessárias três condições: uma multitudo (um número razoável de pessoas), uma communio (uma comunidade de interesses e de fins, aquilo que Santo Agostinho vai qualificar como as coisas que se amam e que, mais recentemente, pode dizer-se das coisas pelas quais se está disposto a dar a vida) e um juris consensus. Assim se introduz o direito na noção de polis, numa antecipação daquilo que é hoje o nosso Estado de Direito. Só que não se invoca primordialmente o direito positivo, mas, antes, a lei inscrita no coração dos homens, que manda dar a cada um aquilo que lhe pertence. É que para Cícero, o direito não resulta do arbitrio, mas é dado pela natureza: naturis juris ab hominibus repetenda est natura. Coloca assim, em primeiro lugar, um direito natural, estabelecido por uma razão natural, a razão que está na natureza das coisas, o tal que semper bonum et aequum est.
Abaixo desse direito superior, surgiria um jus gentium, um direito já positivo, mas ainda superior, que, como reflexo imediato da lei natural, teria de ser comum a todos os povos.
Em terceiro lugar é que surgiria o jus civile, o direito positivo aplicado exclusivamente aos cidadãos, a lei particular de uma determinada comunidade. Tal como os estóicos, vai pois defender a existência de uma lei eterna, de um justo natural, imutável e necessário, expressão da razão universal, que se manifestaria na consciência do homem. Conforme pode ler-se em De Republica, a lei da natureza é uma lei verdadeira, a recta razão conforme a natureza, universal, inimitável, eterna, onde as coisas convidam ao dever, onde as proibiçöes afastam do mal. Neste sentido não é legítimo alterá‑la, derrogá‑la ou repeli‑la. Nem provavelmente poderemos ser isentos dessa lei, seja pelo Senado ou pelo Povo; nem arranjar um outro padrão para a explicar ou interpretar. Não pode haver uma lei para Roma e outra para Atenas; o que se afirma hoje tem de ser respeitado amanhã; é uma lei eterna e imutável para os povos de todas as eras; como se fosse dona e senhora, a única deusa, autora de si mesma, promulgadora e compulsória. Quem não partilha este sentimento foge a si próprio e à natureza como um homem desprezado. Noutro lugar, na inacabada obra De Legibus, considera que a lei nem é imaginada pelo génio de um homem nem estabelecida por qualquer decreto popular, mas um determinado princípio eterno que governa todo o universo, dirigindo sabiamente o que está certo e proibindo o que está errado. Por outro lado, Cícero quando proclama que coisa pública tem de ser coisa do povo corrige alguns dos excessos totalistas da anterior noção de polis, negando que o todo esteja antes das partes. É, aliás, a partir desta perspectiva quase societária de povo que emerge a abstracção da res publica, a quem se atribui o fim da justiça. Uma república que constituiria uma harmonia entre a liberdade, a autoridade e o poder, onde a libertas estaria na participação directa do povo na decisão política, a auctoritas estaria no órgão que conserva a memória da fundação da cidade e detém o poder legislativo, o senado, e a potestas, no poder executivo dos magistrados. Para ele, se numa sociedade não se repartem equitativamente os direitos, os cargos e as obrigações, de tal maneira que os magistrados tenham bastante poder, os grandes bastante autoridade e o povo bastante liberdade, não pode esperar-se permanência na ordem estabelecida. Contudo, a libertas do povo atingia as culminâncias de majestas, um poder de plenitude, de dignidade. De qualquer maniera, considera que a república é verdadeiramente coisa do povo quando está governada equitativa e sabiamente por um rei, por alguns cidadãos ou pelo próprio povo.
 
[55 a.C.] De re publica Obra redescoberta em 1819 num palimpsesto da Biblioteca do Vaticano. Cfr. trad. fr. La Republique, Paris, Chambry, 1975.
[52 a.C.] De legibus Ver trad. cast. de Francisco Navarro y Calvo e de Juan Bautista Calvo, Tratado de la Republica. Tratado de las Leyes. Catilinarias, Mexico, Porrúa, 1981.
De officiis.
 
èCowell, F. R., Cícero e a República Romana [1948], trad. port. de Maria Helena Albarran de Carvalho, Lisboa, Ulisseia, s. d.. : Assoun, Paul-Laurent, «Cicéron», in Dictionnaire des Oeuvres Politiques, pp. 137-142. Boutet, Didier, Vers l'État de Droit, pp. 50-53. Gettell, Raymond G., História das Ideias Políticas, trad. port. de Eduardo Salgueiro, Lisboa, Editorial Inquérito, 1936, pp. 92 segs.. Maltez, José Adelino, Ensaio sobre o Problema do Estado, Lisboa, Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1991, II, pp. 248 segs.. Moncada, Luís Cabral, Filosofia do Direito e do Estado, I, pp. 38 segs.. Pereira, Maria Helena Rocha, «Cícero», in Logos, 2, cols. 961-963. Theimer, Walter, História das Ideias Políticas, trad. port., pp. 56 segs..
 
Ciclo Do grego kyklos, círculo. Série de fenómenos que se produzem numa determinada ordem. Diz-se também da concepção circular da história, segundo a qual há uma fase onde se reproduz uma fase anterior. Dá-se a esta concepção o nome de anaciclose.
 
Ciclópicas tarefas Desafio com que Marcello Caetenao qualificou o respectivo governo, depois da saída de Salazar. Disse então que, depois de um homem de génio, ele seria um mero homem comum.
 
Cicuta. Veneno com que foi morto Sócrates, por ordem da polis, acusado de corromper a juventude.
 
Cid, José de Matos Sobral Professor de Medicina. Ministro da instrução pública do governo de Bernardino Machado, de 9 de Fevereiro a 12 de Dezembro de 1914, na qualidade de independente.
 
Cid, José de Vale Matos Ministro da justiça de 23 de Maio a 30 de Agosto de 1921, no governo de Tomé de Barros Queirós.
 
Cidadania Cidadania (citizenship em inglês e Staatsburgerschaft, em alemão), quer dizer pertença de um indivíduo a um determinado Estado, do ponto de vista jurídico interno, distinguindo-se da nacionalidade (nationality em inglês e Staatsangehorigkeit em alemão), a pertença de um indivíduo a um Estado do ponto de vista jurídico-internacional, abrangendo tanto os cidadãos propriamente ditos como os meros súbditos que não gozam da plenitude dos seus direitos.
 
}Beiner, Ronald,, ed., Theorizing Citizenship, Albany, State University of New York Press, 1995. } Bendix, Reinhard, Nation-Building and Citizenship. Studies of Our Changing Social Order, Nova York, John Wiley & Sons, 1964. } Colas, Dominique, Emeri, Claude, eds., Citoyenneté et Nationalité, Paris, Presses Universitaires de France, 1991. } Déloye, Yves, La Citoyenneté au Miroir de l’École Républicaine (dissertação de doutoramento), Université de Paris I, 1992. }Idem, École et Citoyenneté. L’Individualisme de Jules Ferry à Vichy. Controverses, Paris, Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1994. } Centre de Philosophie Politique et Juridique de L’Université de Caen, Souverainité et Citoyenneté, Caen, 1983 } Kymlicka, Will, Multicultural Citizenship. A Liberal Theory of Minority Rights, Oxford, Oxford University Press, 1995. } Macedo, Stephen, Liberal Virtues. Citizenship, Virtue and Community in Liberal Constitutionalism, Oxford, Clarendon Press, 1990. } Trend, David, ed., Radical Democracy. Identity, Citizenship and the State, Londres, Routledge & Kegan Paul, 1995. } Walzer, Michael, Obligation. Essays on Disobedience, War and Citizenship, Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1970.
 
Cidadania (Arendt). A cidadania, enquanto participação nos assuntos públicos, impõe necessariamente um espaço público, um espaço onde a liberdade aparece e se torna visível a todos, não havendo instauração da liberdade  sem que um corpo político garanta o espaço onde a liberdade pode surgir, onde a liberdade pode existir em público, transformando-se numa realidade mundana, tangível, qualquer coisa criada pelos homens para ser gozada pelos homens. Neste sentido, em política o que parece é também o que aparece e, logo, o que é. Porque sem esta cidadania do agir em público, na praça pública, o domínio público transforma-se numa obscuridade, em algo de invisível, no segredo de Estado. Da mesma forma, a cidadania impõe uma felicidade pública e não apenas o bem-estar privado, que a própria tirania pode permitir. Como salienta a mesma Arendthá o perigo de confundir felicidade pública e bem-estar privado, dado que aquela consiste no direito de acesso do cidadão ao domínio público, da sua participação no poder público e os homens sabem que não podem ser totalmente felizes se a sua felicidade estiver situada e for apenas usufruída na vida privada. Além disso, a cidadania não se confunde apenas com a protecção dos indivíduos contra os abusos do poder. A liberdade política implica a felicidade política 
 
Cidadania (Kant). O mesmo que autonomia. Uma terceira via que permite conciliar a ordem com a liberdade e só possível através do direito. É a submissão à autoridade que cada um dá a si mesmo. Assim, é possível rejeitar a liberdade sem ordem, a anarquia, bem como a ordem sem liberdade, o despotismo.
 
Cidadão. No sentido etimológico e segundo a definição de Aristóteles, cidadãos (politai) são aqueles que participam nas decisões da polis, exercendo um cargo político ou tendo direito de voto nas assembleias públicas ou nos júris. Difere do escravo e do súbdito.
 
Cidadão activo
Cidadão passivo
 
Cidadão Politai Cives Segundo as concepções aristotélicas, cidadão é aquele que participa nas decisões da comunidade política. Nesta base o cidadão é aquele que ora governa ora é governado. Neste sentido, difere do escravo (esse que é instrumento do senhor e tem um dono) e do súbdito (aquele dependente de um soberano ou de um patriarca, à imagem e semelhança da relação pai/filho, onde o poder, é um poder-dever, porque é para bem do súbdito que não é considerado instrumento). Aristóteles refere que o cidadão é aquele que tem a possibilidade de aceder à assembleia dos cidadãos e de desempenhar funções judiciárias. Não é apenas aquele que habita num determinado território. Sem a participação dos cidadãos na governação não há política, até porque a polis não passa de uma colectividade de cidadãos.
 
Cidade antiga Fustel de Coulanges consagrou com este nome a polis grega. A Cidade-Estado ou Cidade-Igreja, marcada por um totalismo holístico, onde não havia distinção entre o sagrado e o profano: a cidade foi fundada sobre uma religião e instituída como uma Igreja, tendo omnipotência e poder absoluto. A polis era entendida e assumida como unidade substancial. — Evolução real da polis grega (a polis como mistura da acropolis — a alta da cidade onde estava instalado o palácio do rei e o santuário — e da campina, asty, formada por várias aldeias destinadas à produção agrícola. — O conceito romano de civitas ou res publica, como entidade não distinta dos cidadãos. O processo histórico de Roma (família extensa, gens — conjunto de várias famílias sujeitas a uma autoridade comum, em nome de uma pretensa descendência comum — curia — conjunto de várias gentes que abandonaram os respectivos cultos domésticos e passaram a fazer celebrações a uma divindade superior —, tribo — unidade mais vasta, ainda de origens religiosas — e civitas). — A formação do Imperium Romanum.
 
Cidade de Deus Santo Agostinho distingue entre a civitas terrena e a civitas diaboli. As duas cidades que têm, em Adão, uma origem comum, mas que se separaram quando Caim matou Abel. Duas cidades de homens, aliás, dado que a civitas Dei constitui algo que circula na civitas diaboli ou cidade terrena. A primeira fundada pelo amor do homem sobre si mesmo, com desprezo de Deus; a segunda, pelo amor de Deus, levado até ao desprezo de si mesmo. Uma distinção paralela à que faz entre uma civitas imperans, uma cidade que comanda segundo as leis, e uma civitas imperiosa, uma cidade tirânica que é reflexo de paixões desenfreadas.
 
Cidade da obediência e cidade do comando JOUVENEL, B.,
 
Cidade Pluralista. Conceito de Jacques Maritain onde procura conciliar-se a perspectiva orgânica do tomismo, nomeadamente a ideia de unidade de ordem, com as concepções democráticas pluralistas. A cidade pluralista não se reduz à existência da autonomia administrativa e política das unidades regionais do Estado, impondo a admissão da heterogeneidade orgânica da estrutura da sociedade civil, enquanto sinónimo de sociedade política. A unidade de ordem ou de orientação resulta do bem comum, de uma aspiração comum. A unidade da cidade pluralista é uma unidade mínima que garante as fraternidades cívicas, as formações independentes do Estado e apenas submetidas às disposições genéricas sobre a liberdade de associação.
 
 
 
 
Cidade, Hernâni António (1887-1975). Professor português. Começa a estudar no Seminário de Évora, passando depois para o Curso Superior de Letras. Professor de liceu em Lisboa e Leiria. Alferes durante a Grande Guerra de 1914-1918, preso em 9 de Abril de 1918. Recebe a Cruz de Guerra, por feitos em combate. Um dos primeiros professores da Faculdade de Letras do Porto em 1919. Colabora em A Águia e alinha no movimento da Renascença Portuguesa. Passa em 1930 para a Faculdade de Letras de Lisboa, sucedendo a Teófilo Braga. Membro do directório da Aliança Republicano-Socialista de 1931 a 1935, ligado ao grupo da Seara Nova, mas sem deixar de cultivar amizades com Fidelino de Figueiredo e o Padre Joaquim Alves Correia. Em 1934 chega a fazer parte dos quadros directivo do Diário Liberal. Estava para ser demitido de professor em 1935, mas Gustavo Cordeiro Ramos, intercedeu junto de Salazar, que evitou o agravo. Director da revista Colóquio. Como professor tinha como lema: primeiro está a aula e depois o capítulo. Da Academia Internacional da Cultura Portuguesa.
 
O romantismo nacionalista
Analisando o processo de passagem do individualismo romântico ao nacionalismo, salienta que a exaltação do indivíduo dentro da sociedade amplia-se à exaltação da nação no conjunto dos Estados. Luta-se por sua autonomia quando um Estado estranho a domina, oprimindo-a; empenha-se diligências no sentido de reconstituir a sua personalidade autêntica, quando uma cultura alheia espiritualmente a deforma. Eis o significado das colheitas folclóricas, do relevo do herói nacional, do quadro histórico e etnográfico, moral e social que pela ficção nos restitua à vida nacional. Assim, também às chamadas personalidades colectivas chamadas nações a mesma chama as agitava; as oprimidas, para reivindicar a própria autonomia, mais uma vez heroicamente lutando por ela; as independentes esforçando-se, em luta contra os representantes das formas consideradas inautênticas, para avivar os vincos da própria fisionomia espiritual colectiva. A Idade Média, durante a qual, em geral, as nações se haviam formado, fornecia a historiadores e novelistas, dramaturgos e poetas, filólogos e etnografos, os costumes e tradições, a literatura e a arte, de anónima espontaneidade - ou como tal julgada - e, de tudo isto, o que se preferia era o que tivesse carácter popular. E esta tendência não é pura determinação do espírito, senão caloroso impulso da alma. Daí os excessos da ideia absorvente e do dinamismo irradiante. O homem preferia a realidade ou a fantasia que dessem comoções à sensibilidade, àquela que apenas suscitasse análise à inteligência
Definição de nação
Define a nação como algo que tanto é um corpo geográfico como uma alma espiritual. Porque os agrupamentos sociais, já unidos ou em processo de se unir pela comunidade do sangue e da língua, vivem durante transcursos, que podem ser de séculos ou de milénios, sob idênticas forças de modelação física e espiritual - o mesmo ambiente geográfico, o mesmo clima, a mesma alimentação, as mesmas condições de actividade, os mesmos estímulos de pensamento e de imaginação. A esta situação chama o autor vago e instintivo impulso de convergência a que se pode seguir um intencional esforço de concórdia de vontades lúcidas, o que acontece sob o incitamento de um chefe e na oposição a outro grupo.
Corpo geográfico e alma espiritual
E a Nação forma-se com o seu corpo geográfico e a sua alma espiritual, quando às colectivas determinações do presente começam a dar apoio as memórias colectivas do passado, começam a determinar objectivo as aspirações colectivas do futuro.
Noção de pátria
Por seu lado, a Pátria é algo de dferente: da Nação emerge a Pátria, quando, à luz da cultura clássica, que ensina a palavra e aviva o orgulho que ela suscita, se exalta o sentimento de suas singularidades reais e supostas, de seus triunfos no esforço por que as vai afirmando. E estamos em face duma nova realidade espiritual, duma nova personalidade colectiva
 
[1929] Ensaio sobre a Crise Mental do Século XVIII, Coimbra, Imprensa da Universidade.
[1929] A Marquesa de Alorna. Sua Vida e Obra com Algumas Cartas Inéditas, Porto, Companhia Portuguesa Editora.
[1933] Lições de Cultura e Literatura Portuguesas, Coimbra, Coimbra Editora.
[1948] A Literatura Autonomista sob os Filipes, Lisboa, Livraria Sá da Costa.
 
Cidade-Estado Designação habitual dada à polis grega. Mas a utilização retroactiva do conceito de Estado pode levar a algumas confusões. Com efeito, a polis tanto era uma Cidade-Estado como uma Cidade-Igreja, dado que a religião era, então, uma parcela da política. Por outro lado, a polis, ao contrário do Estado Moderno era uma entidade construída de cima para baixo, sendo quase um sinónimo de democracia, segundo os conceitos actuais, onde, em vez do L'État c'est moi, o político é de tout le monde., 71, 477
 
Cidade do Sol [1602] Campanella, Thomasio A Città del Sole, ou Civitas Solis Poetica Ideal Republicae Philosophicae é escrita em 1602 e publicada na sua versão latina em Utrecht em 1643. Aí se descreve uma república filosófica, onde os habitantes são guerreiros, mareantes e agricultores, mas não comericantes. A obra assume a forma de diálogo entre um comandante genovês e o grão-mestre da ordem dos hospitalários, onde se narra uma viagem até à ilha da Taprobana onde se descreve a visita a uma cidade ideal, com sete milhas, dividida em sete parte, constituídas por sete zonas circulares concêntricas. A cidade é governada por um príncipe-sacerdote, dito Sol (Hoh) ou Metafísico, eleito com base na sabedoria. Cabel-lhe um poder absoluto tanto no aspecto temporal como no espiritual, sendo assistido por três grandes chefes: Pon, o poder, com funções militares; Sin, sabedoria, controlador das a rtes liberais e mecânicas e Mor, o amor, controlador da pedagogia e com funções de vigilância de costumes, nomeadamente quanto ao controlo sexual. O chefe é considerado como um grande pedagogo, ou grande edcador Proclama-se que o amor deve combater e vencer todas as formas de divisão, de dispersão, de oposição e defende-se a necessidade da humanidade (... ) formar uma monarquia universal, governada por um chefe único, simultaneamente rei e sacerdote, assim se reencontrando o estado primitivo, natural e divino. Os solários vivem em regime de ditadura da virtude, com comunhão geral de bens, onde também vigoram leis que impõem uniformidade tanto no vestuário como na própria alimentação. O cuidado com as normas higiénicas tem em vista o aumento da duração da vida e são estritamente controladas as próprias actividades sexuais. Com efeito, a utopia política imagina sempre uma sociedade totalitária onde se impõem comportamentos uniformizados pela repressão em nome da virtude, num terror salvífico que há-de ser tentado tanto por Robespierre como pela revolução cultural de Mao Tse Tung e que tem certas coincidências com modelos inquisitoriais e com a república dos santos de Cromwell. Demonstra-se assim o perigo dos preservadores da virtude se imiscuirem nas regras do quaotidiano, do vestuário ao sexo, da higiene à alimentação, como parece ocorrer actualmente com os puritanos do politically correct das actuais democracias.
 
Ciência Do latim scientia, tradução do nome grego mathêma. Esta, segundo Pinharanda Gomes, corresponde a um triângulo cujos lados equivalem à dianóia (as ciências preparatórias da mathêma), a epistêmé (a teoria das ciências) e a téknê (ciências práticas ou aplicadas, tendo em vista fins concretos, que se subordinam a uma pragmática). Trata-se de um conceito anterior à noção platónica de epistêmé, conceito integrado, envolvendo a teoria e a prática das ciências. Aquela intenção de rigor e de objectividade que implica um esforço racional para substituir a opinião (dóxa) pelo conhecimento (episteme). Essa perspectiva que pretende libertar-se do contingente da opinião, procurando o verdadeiro, através da elaboração de um relato (logos) que, neste sentido, contrasta como o mítico (mythos). Um esforço que, contudo, não parte de uns quaisquer primeiros princípios, para atingir a conclusão. Bem pelo contrário, a investigação deve partir da opinião, pesquisando os topoi, os lugares comuns, a partir da linguagem e das opiniões dos homens comuns. Deve partir da realidade, das circunstâncias históricas, do contingente. Assim se simbolizava o ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado. Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Voegelin, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências. Acresce que, neste nosso tempo de aldeia global da comunicação, onde o de quod libet se processa através da recepção quase passiva dos mass media, a universidade tem de assumir tanto a função de ensinar a dar voz activa ao auditório como também a de ajudar a transformar as opiniões dispersas num conhecimento científico, desse que, segundo Jürgen Habermas, é capaz de ajustar a alma ao movimento ordenado do cosmos às proporções do universo, através daquilo que Ortega y Gasset referia como o ensimesmamento.
 
Ciência. Esforço racional para substituir a opinião (doxa) pelo conhecimento (episteme). Impõe: distância e objectividade; observação e experimentação; formalização e sistematização.
 
Ciência, cristianismo, democracia, 1967 Golbery do Couto e Silva, em Geopolítica do Brasil, 1967, considerando que os objectivos nacionais  do Brasil são integração nacional, autodeterminação, ou soberania, bem-estar, progresso, salienta que os mesmos se integram naquilo que qualifica como essência do Ocidente, a tríade ciência, cristianismo, democracia.
 
 
Ciência livre de valores (Wertfreiheit) Proposta de Max Weber, segundo a qual a ciência só pode dizer o que nós queremos e o que podemos, mas nunca o que devemos. A objectividade implica a não valoração, apesar dos valores poderem ser objecto da ciência. A proposta tem, na base, a radical distinção kantiana entre ser e dever-ser, considerando-se que os valores são múltiplos e estão em conflito insanável, pelo que julgar a validade dos valores é uma questão de fé. ESPE I, p. 184.

Ciência natural do Estado. Proposta de autores como Constantin Frantz, quando consideravam o Estado como uma entidade naturall com uma estrutura essencialmente orgânica.
 
Civilidade O mesmo que politicidade, segundo Hegel. O colectivo pensdo como uma produção espiritual.
 
Ciência política e direito A visão juridicizante do político. O Estado como juristenmonopol. A ideia arquitectónica da teoria geral do Estado, de Jellinek a Marcello Caetano. A defesa do direito constitucional como scientia scientiarum do político enquanto desviacionismo ideológico de uma metodologia científica. A perspectiva do jurista como o novo legista. — Reflexos da ideologia em Portugal. A Escola de Direito Público de Lisboa e os constitucionalistas políticos. — A necessidade da abordagem politológica das ordens normativas, nomeadamente do direito. Ciência
 
 
Ciência política e ciências da vida Outra área de interesse indiscutível está na relação entre a política e as ciências da vida, abrangendo toda a área da biopolítica, isto é, das relações entre as ciência da vida e a ciência política, o que inclui as pesquisas na etologia, na neurofisiologia e na psicologia social, bem como nos domínios da chamada engenharia genética. Se é imprescindível o estudo dos pioneiros da etologia e da sociobiologia, na linha dos estudos de Edward Osborne Wilson [1975 e 1978], Eibl-Eibesfeld [1975] e Barash [1977], importa reconhecer que hoje não bastam os esquemas de Lorenz, Wilson e Ardrey, dado que, principalmente a partir da publicação, por Roger Masters, de The Nature of Politics, em 1989, houve uma espécie de reconciliação entre a democracia e as ciências naturais. Afinal, os paralelismos entre a biologia, a etologia e a política parecem não dar apenas razão a Maquiavel, a Hobbes e aos elitistas contemporâneos. Também Masters considera que o behaviorismo está morto e que se torna possível uma aliança metodológica entre as ciências ditas naturais e as ciências ditas humanas, actualizando-se o esforço de Ludwig von Bertalanffy. O novo naturalismo da biopolítica também permite que se transcenda o dualismo factos/valores e que se justifique a própria democracia com as novas descobertas da biologia; e o pré-romantismo de Rousseau também pode ter razão, ao contrário daquilo que continuam a proclamar algumas caricaturas etologistas.
 
Ciência política e estratégia As teorias do Estado Força e a antropogeografia. Estratégia, realismo político e guerra fria. Ciência política e estratégia depois do fim do comunismo.
 
Ciência política e filosofia A filosofia política como génese do estudo da política. A procura da boa sociedade e do melhor regime em Aristóteles e a concepção da política como ciência arquitectónica, onde até se integrava a religião. — As três ondas da modernidade e a decadência da filosofia política. O Maquiavelismo e a Razão de Estado. O Iluminismo. O Cientismo. A decadência da filosofia política. — O processo contemporâneo de renovação da filosofia política, com o regresso à problemática neoclássica. A influência de Eric Voegelin, Leo Strauss e Hannah Arendt. — O movimento contemporâneo de regresso à filosofia prática e à hermenêutica. Da Escola de Friburgo às teses neoescolásticas (Vittorio Possenti). Heidegger, Gadamer e a teoria crítica da Escola de Francoforte (Adorno, Horkheimer, Marcuse e Habermas). — Os actuais defensores da ciência política como ciência arquitectónica. — A teoria política como um dos ramos da ciência política.
 
 
Ciência política e história A história das ideias políticas. A sociologia histórica do político. Os modelos neomarxistas (Barrington More, Immanuel Wallerstein, Charles Tilly, Theda Skockpol) e neodesen-volvimentistas (Shmuel Eisenstadt, Stein Rokkan, Reinhard Bendix). A arqueologia do Estado em Portugal.
 
Ciência política e marxismo
Assinale-se, em primeiro lugar, o movimento de return to the State protagonizado pelo neomarxismo à procura de uma teoria do Estado, o chamado neostatist movement, em que se destacam nomes como Theda Skocpol, Ralph Miliband, Martin Carnoy, Stephen Skowronek e Perry Anderson. Aliás, depois de Theda Skocpol ter proclamado a necessidade de Bringing the State Back In, o próprio David Easton, na American Political Science Review de 1988, criticou duramente tal return to the State, qualificando-o como uma tentativa de invasão do universo cultural norte-americano por uma corrente onde Marx reaparecia através de Gramsci, Althusser, Poulantzas ou Claus Offe, embora compensado com algumas pitadas de Max Weber e de Otto Hintze. A este respeito, importa assinalar que o neomarxismo constitui ainda um dos mais importantes subsolos filosóficos do pensamento político ocidental. Há os neomarxistas críticos, herdeiros da Escola de Frankfurt, como Habermas, os existencialistas, na linha de Sartre, os freudomarxistas, desenvolvendo Marcuse, os fenomenologistas, seguindo Merleau-Ponty, não faltando os que invocam um regresso a Hegel, como Lukács, e à práxis, na senda de Gramsci, ou estruturalistas, nos moldes de Althusser. Não faltam sequer os marxistas ditos liberais, como Michael Harrington. A heterodoxia nascida desse subsolo filosófico, principalmente no universo anglo-saxónico, atingiu tais níveis que até deu origem a um marxismo não-sovietista e mesmo anti-sovietista. De qualquer maneira, esse lastro foi constante desde os anos quarenta, ao ler Paul Sweezy ou a bibliografia editada pelo clube da New Left. Nas décadas de sessenta e setenta, foram eles que invocaram o Estado e, atacando o pluralismo, elaboraram inúmeros estudos sobre a estrutura do poder, utilizando todo um manancial de categorias marxistas em ciências sociais em vários estudos empíricos. Outra foi a perspectiva da Escola Crítica de Frankfurt, emigrada nos Estados Unidos, em que se destacaram Theodor Adorno e Marx Horkheimer, seus pais-fundadores, bem como a geração de Franz Neumann, Erich Fromm e Otto Kirchheimer. Com o regresso da Escola à Alemanha, a geração de Claus Offe, Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas, principalmente depois da morte de Adorno, em 1969, entrou em conflito com o marxismo ortodoxo e foi hostilizada pelos movimentos equivalentes à contra-cultura e à New Left dos anglo-saxónicos, nomeadamente pelos movimentos da contestação estudantil, aproximando-se de muitas das posições de Hannah Arendt.
 
Ciência política e nação As viagens sobre o passado e o futuro da entidade estadual são também acompanhadas pelas interrogações sobre a nação e a própria identidade política, muito especialmente num tempo de globalização da política. Aliás, depois do ano 1989, tornou-se patente a crise do Estado Soberano e assistiu-se, ao invés, ao regresso da nação. Um dos principais manuais de relações internacionais, o de Jean-Baptiste Duroselle, assume mesmo o título principal de Toute Empire Périra [1992], acompanhando o ritmo da mais recente teorização e reflexão sobre o nacionalismo. Neste domínio, são de referir os estudos de Barbara Ward [1966], E. H. Carr [1968], Mario Albertini [1969], Jean-René Suratteau [1972], E. Kamenka [1973], Louis Snyder [1976], Setton-Watson [1977], H. A. Winkler [1978], J. -M. Leclercq [1979], Jean Plumyène [1979], Roger Martelli [1979], Jacob-Leib Talmon [1980], C. R. Foster [1980], John A. Armstrong [1982], John Breully [1982], Bennedict Anderson [1983], Ernest Gellner [1983 e 1994], Anthony Smith [1981, 1983, 1986, 1991 e 1995], Elie Kedourie [1985 e 1993], Jean-Luc Chabot [1986], J. M. Blaut [1987], Pierre Caps [1987], Pierre Fougeyrollas [1987], John Hutchinson [1987 e 1995], Immanuel Wallerstein e Étienne Balibar [1988], P. Alter [1989], Jean-Yves Guiomar [1990], Pierre-André Taguieff [1990 e 1991], Bernard Crick [1991], Gil Delannoi [1991], H. Goulbourne [1991], J. G. Kellas [1991], Alain Minc [1991], Dominique Schnapper [1991 e 1994], Paul Brass [1992], Alan Milward [1992 e 1995], Pierre Birnbaum [1993], Gidon Gottlieb [1993], Michel Wievorka [1993], Liah Greenfeld [1993], Eric Philippart [1993], Walker Connor [1994], Samir Amin e Joseph Vansy [1994], Paul Sabourin [1994], David Hooson [1994], Noelle Burgi [1994], Berch Berberoglu [1995], Geoffrey Howe [1995], Yael Tamir [1995], Frederico Romero [1995], Michael Lind [1995], Frances Lynch [1995], David Miller [1995], Geoffrey Eley [1996], Kathryn Manzo [1996].
 
Ciência política e sociologia
Diferença entre a ciência política e a sociologia política, apesar da coincidência no objecto. A sociologia política como o estudo dos fenómenos políticos enquanto fenómenos sociais, preocupando-se fundamentalmente com os micropoderes; a ciência política como o estudo dos fenómenos políticos superiores, preocupando-se, sobretudo, em integrar os poderes no Poder. — A ciência política contemporânea nascendo do impulso do sociologismo, e como reacção contra o normativismo e contra a análise formal das instituições políticas. — As escolas elitistas e as escolas pluralistas de sociologia política. Da teoria da classe política, por oposição à teoria da divisão de poderes, ao estudo da poliarquia.
 
Ciência política e teologia
A homologia do sagrado e do profano. Dos reis taumaturgos e vigários de Deus às religiões civis ou seculares. Do Estado Igreja à laicização. A tensão entre o Estado Tradicional e o Estado Moderno (a tese de Julius Evola). A tensão entre o centro (o puro) e a periferia (o impuro). O sagrado como aquilo que não é discutido, mas que forma o plano de toda a discussão. A dessacralização contemporânea provocada pelo deicídio iluminista. A ligação entre a politicidade e a religião Sem cairmos no categórico da afirmação de Luc de Heusch, para quem a ciência política provém da história comparada das religiões (Pour une Dialectique de la Scralité du Pouvoir, 1962), temos de assinalar a íntima ligação entre a politicidade e a religião, desde a Cidade‑Estado que, na Grécia antiga, era também uma Cidade‑Igreja aos reis taumaturgos da Idade Média. Pensando particularmente na caso português, temos de recordar a lenda do milagre de Ourique, verdadeiro mito fundacional da portugalidade que ainda hoje se inscreve no escudo nacional português. Como diz Georges Balandier a homologia do sagrado e do político só o é na medida em que estes dois conceitos são regidos por uma terceira noção que os domina: a de ordem ou de ordo rerum (Antropologia Política, p. 114)A relação entre o Estado e a IgrejaNão há dúvida que no contexto ocidental europeu o Estado nasceu como uma entidade ligada à Igreja, de certa maneira, legitimado pela Igreja, embora potencialmente autónomo relativamente à mesma entidade e, por vezes, em conflito com ela. A independência portuguesa, por exemplo, teve que ser reconhecida ou legitimada pela Santa Sé, mas a monarquia donde resultou, a monarquia asturo‑leonesa, herdeira da monarquia visigótica, estava intimamente ligada à Igreja. Com efeito, pelo menos desde a conversão de Recaredo ao catolicismo, em 589, a referida monarquia dos visigodos se não se assumiu como teocrática estava eclesialmente condicionada tanto a nível da doutrina ‑ basta recordar a influência marcante das posições de S. Isidoro de Sevilha ‑ como a nível prático ‑ principalmente pelo papel institucional dos Concílios de Toledo, concilios nacionais da Igreja Católica, participados pela nobreza, onde eram eleitos os reis. O Estado como um substituto monoteístaCompreende‑se, assim, que Pierre Legendre considere o Estado como entidade centralista que surgiu na Idade Média, mais precisamente, no século XII, como um presente da Igreja Católica e do direito canónico, sob o influxo do renascimento do direito romano. O mesmo Legendre refere, aliás, que o Estado Centralista seria um substituto monoteísta. Com efeito o poder político dos reis foi moldado à imagem e semelhança do Imperador romano, enquanto pontifice único, dando‑se, deste modo uma transferência para o Estado dos signos sagrados da omnipotência.
 
Do vigário de Deus à lei como Texto
O rei é o vigário de Deus. Isto é, está no lugar do Outro, re‑presenta‑o, faz o discurso do Outro é uma simples voz da instituição. Também o Imperador detinha o oráculo; do mesmo modo como o o Pontifice era um simples mestre que apenas transmitia. A isto acresceria o facto de, com a centralização do poder real, se ter transformado a lei no seu principal instrumento. O rei passou a ser a lei viva e a lei transformou‑se no substituto do anterior Texto. Deu‑se, deste modo, a laicização do poder e a lei passou a ocupar um lugar eminente, verdadeiramente soberano [... ] tornou‑se a categoria fundamental, substitutivo daquela onde se justificava a Palavra do Pontifice. Como diz o mesmo autor, visou induzir‑se o amor da subordinação no coração do povo, através do amor da lei e a lei laica tende a substituir‑se a toda a religião.
 
Os soberanos como parentes dos deuses
Temos, assim, como assinala Balandier, que os soberanos são os parentes ou os mediadores dos deuses. Mais: se o Estado e a Igreja são um só na origem, quando a sociedade civil é instaurada [... ] o Estado conserva sempre parcialmente um carácter de Igreja, mesmo quando se situa no termo de um longo processo de laicização. É da natureza do poder alimentar, sob uma forma manifesta ou oculta, uma verdadeira religião política (Antropologia Política, p. 106) E, como refere o já citado Luc de Heusch, qualquer governo, qualquer soberano, é, em graus diversos [... ] ao mesmo tempo, depositário da força fisíca coerciva e sacerdote de um culto da Força. Para Roger Caillois, por seu lado, o soberano representa a harmonia cósmica e a coesão contra a dissolução e a transgressão, como é o caso do feiticeiro; é que o puro tem a ver com o centro, enquanto o impuro se situa na periferia (L'Homme et le Sacré, Paris, 1939). Também Marcel Gauchet salienta que a religião foi historicamente a condição de possibilidade do Estado e que o fundamento do Estado é o mesmo que a religião (Le Désenchantement du Monde, Paris, Gallimard, 1985). Julius Evola, por seu lado, considera que o Estado, segundo a tradição, é uma aparição do supra‑mundo e uma via para o supra‑mundo, isto é, uma ordem dirigida para a participação hierárquica na estabilidade espiritual em oposição ao carácter contingente, caduco, mutável, caótico e particularista próprio da existência materialista (op. cit., p. 51). Importa, neste contexto, destacar as influências religiosas na Revolução Francesa, matriz do nosso Estado contemporâneo. Para Albert Mathiez existe uma religião revolucionária, cujo objecto é a própria instituição social. Essa religião tem os seus dogmas obrigatórios (a Declaração dos Direitos, a constituição), os seus símbolos rodeados de uma veneração mística (as três cores, as árvores da liberdade, o altar da Pátria), as suas cerimónias (as festas cívicas), as suas orações e os seus cantos (Les Origines des Cultes Révolutionnaires, Paris, 1904). Também Rousseau fala em uma profissão de fé puramente civil, cujos artigos compete ao soberano fixar, não precisamente como dogma de religião, mas como sentimentos de sociabilidade sem os quais é impossível ser bom cidadão ou súbdito fiel. Considera, além disso, que os dogmas da religião civil devem ser simples, em pequeno número, enunciados com precisão sem explicações nem comentários. Carl Schmitt refere, por seu lado, que a Igreja Católica e o Estado do jus publicum europeum são os dois organismos mais evoluídos e mais estruturados do racionalismo ocidental. E isto porque a ideia de Estado de Direito Moderno impõe‑se com o deísmo, com uma teologia e uma metafísica que rejeitam o milagre fora do mundo e recusam a ruptura das leis da natureza, ruptura contida na noção de milagre e implicando uma excepção devida a uma intervenção directa do soberano na ordem jurídica existente. O racionalismo do Aufklãrung condenava a excepção sobre todas as formas. A convicção teísta dos autores conservadores da contra‑revolução pode, desde então, tentar apioar ideologicamente a soberania pessoal do monarca com analogias tiradas da teologia teísta (Théologie Politique, pp. 168 e 46). Também Eric Weil salienta que a sociedade moderna define‑se, como todas as sociedades modernas, pelo seu sagrado, no sentido formal do termo, por aquilo que não é discutido, mas forma o plano de toda a discussão (Philosophie Politique, p. 96). Com efeito, quando se considera que o poder está acima da sociedade tende a aceitar‑se não só o fatalismo das causas naturais dos caprichos do céu, do mar, da crosta terrestre, segundo a expressão de Paul Valéry. Como a este respeito salienta Balandier manifestam o poder enquanto força, associada às forças que regem o universo e nele alimentam a vida, e enquanto potência de dominação. Associam a ordem do mundo, imposta pelos deuses, e a ordem da sociedade, instaurada pelos antepassados do princípio ou pelos fundadores do Estado. O ritual garante a manutenção do segundo [... ] Esta solidariedade do sagrado e do político, que faz com que os actos que lesam o poder ( mas não os seus detentores) sejam sacrílegos, apresenta formas diversas consoante os regimes políticos; deixa o sagrado em primeiro plano no caso das sociedades sem Estado, faz prevalecer a dominação exercida sobre os homens e as coisas no caso das sociedades estatais (op. cit., p. 112). Outro autor como Leslie White refere mesmo que o Estado e a Igreja não passam de dois aspectos do mecanismo político do Estado tradicional. O Estado tem como missão garantir a integridade do sistema sócio‑cultural de que é uma parte e quer conservar o sistema como um todo (The Evolution of Culture). Muitos outros campos são objecto de trabalho da ciência política. Estudam-se as relações entre a religião e a política, retomando-se, por vezes, a própria teologia política. Com efeito, as mudanças da cena internacional subsequentes ao fim da guerra fria manifestaram, de forma inequívoca, a permanência do chamado teológico-político, demonstrando a força transnacional das religiões e o seu imediato impacto no domínio das coisas políticas. Sobre a matéria, importa peregrinar por Ernst Bloch [1923, 1954-1956, e 1973], Mircea Eliade [1957], Norman Cohn [1957 e 1970], Karl Barth [1958], Jürgen Moltmann [1964], Henri Desroche [1968, 1969 e 1973], Johann Baptist Metz [1970, 1972 e 1977], Joseph Comblin [1970], Dorothy Soelle [1972], François Biot [1972], Gustavo Gutierrez [1972], X. Xhaufflaire [1972], Alain Birou [1974], e Alfredo Fierro [1982]. Afinal, as boas intenções de certo racionalismo e de quase todo o positivismo fizeram com que muitos sectores ocidentais padecessem de um paroquialismo gnóstico que parece continuar a acreditar na superação do teológico e do metafísico. Mesmo quando, na intimidade, se mantinha a crença no transcendente e a humildade perante o mistério, os nome de Deus e dos deuses foram banidos do espaço público e do próprio esforço da racionalização e da ciência, criando dualismos pouco sadios, dado que o homem inteiro só pode decepar-se através da sublimação poética dos heterónimos. E aí estão, de novo, os fundamentalismos e os libertacionismos de matriz religiosa. O colosso soviético foi abalado a partir dessa reacção contra a escravatura na consciência de cada um que os cristianismos  ortodoxo, católico e protestante  reavivaram, e o ano 1989 demonstrou que as brasas se reacenderam quando se soprou a cinza do doutrinarismo oficioso. Se o mundo islâmico continua estremunhado pela revolta fundamentalista  aí estão os taliban do Afeganistão e muitos outros advogados de guerras santas  eis que noutras zonas do mundo, como nas Américas e em África, algumas das religiões que parecem decadentes no mundo ocidental assumem a força da esperança. A ciência política não pode alhear-se desta exigência da realidade. E alguma importante bibliografia vai assomando. Mesmo entre nós, a recente Teoria das Relações Internacionais do Professor Adriano Moreira aparece marcada por este desafio, com a retomada das teses de Teilhard de Chardin, o diálogo com os teóricos do poder dos sem poder e a esperança nos encontros de Assis, protagonizados por João Paulo II. Em França, P. Michel, em Politique et Religion, de 1994, e o crescente regresso às análises do fenómeno islâmico abalaram certos preconceitos positivistas e laicistas. A retomada de Espinosa e a releitura de Donoso-Cortés e de Carl Schmitt impõem-se. Do mesmo modo, o estudo de obras como as de Moltmann e Metz podem ajudar-nos à estruturação de um modelo mais aberto à totalidade. Outras obras importa compulsar, como Michael Oakeshott, Religion, Politics and the Moral Life [1993], Marcel Gauchet, Le Désenchantement du Monde. Une Histoire Politique de la Réligion [1985], John W. Gruchy, Christianity and Democracy. A Theology for a Just World Order [1995], e Michel Novak, principalmente em Will It Liberate? Questions about Theology [1987] e The Catholic Ethic and the Spirit of Capitalism [1993].
 
 
Ciência política em Espanha A criação da Faculdade de Ciências Políticas e Económicas de Madrid (1944). A acção de Carlos Ollero, Tierno Galvan, Fraga Iribarne, Elias Diaz e Raul Morodo, bem como de professores de direito político noutras universidades, como Murillo Ferrol, Sanchez Agesta, Jimenez de Praga. A criação do Ilustre Colegio Nacional de Doctores y Licenciados en Ciencias Políticas y Sociología em 1953. A criação de Faculdades de Ciências Políticas y Sociologia na Universidade Autónoma de Barcelona, na Universidade de Granada e na UNED (1985). O Centro de Estudios Constitucionales, o Instituto de Investigaciones Sociológicas e o Departamento de Estudios Internacionales y Ciencia Política da Universidad del País Vasco. Começando por nuestros hermanos, direi que me impressiona a circunstância do actual pensamento espanhol nestes domínios ser marcado por inúmeras teorias do Estado, talvez um reflexo de alguns dos principais cultores da ciência serem provenientes do universo jurídico. Nomes como Luis Legaz y Lacambra, com El Estado de Derecho en la Actualidade [1934], Filosofia del Derecho [1953], Humanismo, Estado y Derecho [1960], Problemas y Tendencias de Filosofia del Derecho Contemporaneo [1971] e El Pactismo en la Historia de España [1980]; Luís Sanchez Agesta, com Lecciones de Derecho Politico [1943], Principios de Teoria Politica [1955], El Concepto del Estado en el Pensamiento Español del Siglo XVI [1959], Los Principios Cristianos del Orden Politico [1962], Los Campos de Investigación de la Ciencia Politica [1969], Direcciones de la Ciencia Politica Contemporanea [1973] e Elementos de Ciencia Politica [1986], Pablo Lucas Verdú, com Estado Liberal de Derecho y Estado Social de Derecho [1955], Introducción al Derecho Político. Transformaciones Sociales del Derecho Político Actual, Barcelona, J. M. Bosch, [1958], Curso de Ciencia Política [1969], Principios de Ciencia Política [1969-1973], La Luta por el Estado de Derecho [1975], Jose Maria Robles, com Por un Estado de Derecho [1964], e Eliaz Días, com Estado de Derecho y Sociedad Democratica [1966], De la Maldad Estatal y la Soberanía Popular [1984] e Sociologia y Filosofia del Derecho [1984], consequentes militantes da ideia de Estado de Direito, marcaram um notável ponto de encontro entre o direito político e a ciência política, enraizado numa profunda investigação histórica sobre a matéria, com realce para os trabalhos do anterior Instituto de Estudios Políticos e do actual Centro de Estudios Constitucionales, criado em 1977. Juan Beneyto recolhe os textos políticos espanhóis da Idade Média [1944] e procura fazer uma história das doutrinas políticas [1947 e 1964], e das origens da ciência política em Espanha [1949], para além de realizar uma análise da obra de Carl Schmitt, em Teologia Política como Teoría Política [1983]. José Antonio Maraval destaca-se, sobretudo, com Estado Moderno y Mentalidad Social [1972], bem como F. Elías de Tejada, em Historia de Filosofia del Derecho y del Estado [1946], para além de Antonio Truyol e Serra, sobretudo na monumental Historia de la Filosofia del Derecho y del Estado [1954-1982]. Mas outros autores são de salientar, como Luis Diez del Corral [1945], Francisco Javier Conde [1974], Manuel Fraga Iribarne, Tierno Galvan e Raul Morodo. Manuel Garcia-Pelayo analisa os mitos e os símbolos políticos [1959 e 1964], consagrando-se com Las Transformaciones del Estado Contemporáneo [1985, 2ª edição] e El Estado de Partidos [1986]. Manuel Jiménez de Parga salienta-se com Los Regimes Politicos Contemporaneos [1960 e 1987] e La Ilusion Politica. Hay que Inventar la Democracia? [1993]. Juan Ferrando Badiá teoriza a democracia perante a autarcia [1980] e o autoritarismo [1987], os vários modelos de Estado [1986] e os regimes políticos actuais [1987], sendo também autor de Estudios de Ciencia Política y Teoria Constitucional [1988]. Mais recentemente, nota-se o esforço de Ramón Garcia Cotarello, tanto no domínio da teoria do Estado [1981, 1986 e 1988], como na teoria dos sistemas [1979], dos partidos políticos [1985], para além de uma visão geral da democracia [1990]. Destaque-se a Introducción a la Ciencia Politica [1987, com J. L. Paniagua Soto] e um balanço sobre a ciência política em Espanha [1991]. Javier Pérez Royo é também outro dos teóricos do Estado [1980, 1987 e 1988], tal como J. Picó [1987]. Remedio Sánchez-Ferriz, com Introducción al Estado Constitucional [1993]; A Torres del Moral, em Estado de Derecho y Democracia de Partidos [1991]; José Rubio Carracedo, em Paradigmas de la Política. Del Estado Justo al Estado Legítimo [1990]; Ferrán Requejo Coll, Las Democracias. Democracia Antigua, Democracia Liberal y Estado de Bienestar [1990] e Teoria Crítica y Estado Social [1991]; Blas Guerrero, Nacionalismos e Ideologias Políticas Contemporáneas [1985]; C. de Cabo, Crisis del Estado Social [1986] e Teoría del Estado y Derecho Constitucional [1988]. Nestas encruzilhadas, destaca-se, sem dúvida, o Departamento de Ciencia Política y de la Administración da Universidade Complutense de Madrid, criado em 1944, onde actualmente laboram Manuel Pastor [1975, 1977 e 1981], Paniagua e Santa Maria, e donde emergiu o primeiro manual colectivo espanhol de ciência política [1ª edição de 1988]. Também em Madrid, importa referir o recente Departamento homónimo da Universidade Autónoma, dirigido por Fernando Vallespín, bem como a Facultad de Ciencias Políticas y Sociologia da Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED), com Blas Guerrero, e a Facultad de Ciencias Políticas y Sociologia Leon XIII da Universidade Pontificia de Salamanca, estabelecida na capital de Espanha desde 1950. Em Barcelona, refira-se o Departament de Ciencia Politica i de Dret da Universitat Autonoma de Barcelona, bem como o Departamento de ciência política da Universitat Pompeu Fabra, dirigido por Ferran Requejo. Aliás, em 1988 a Universidade Autónoma, num acordo com o governo catalão, criou o Institut de Ciences Politiques i Socials. Na Facultad de Ciencias Politicas y Sociologia da Universidade de Granada, há um departamento de ciência política, herdeiro do anterior departamento de direito político. Na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Salamanca funciona uma área de ciência política. Na Faculdade de Direito da Universidade de Málaga existe também um departamento de Ciência Política, tal como na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do País Basco, em Bilbau. Mas, para além do mundo universitário, funcionam entidades com grande fulgor, como a Fundación Balmes, dirigida por Fernandez de la Mora, a Fundación Sistema, ligada ao PSOE, e a Fundación Canovas del Castillo. Refira-se também a Real Academia de Ciencias Morales y Politicas. Todo este esforço talvez seja explicável, em primeiro lugar, pela estreita relação que a cultura jurídico-política espanhola sempre manteve com a especulação germânica, reavivando um krausismo que, com Ortega y Gasset, aprofundou as relações com a filosofia dos valores e a sociologia da Verstehen. Acresce que se foram traduzindo em castelhano as grandes obras da politologia norte-americana. E quando Madrid o não podia, ou não queria, fazer, eis que o promoviam outros centros culturais de língua castelhana, como o México e a Argentina. Basta recordar a linha de publicações de ciência política e sociologia política do Fondo de Cultura Económica do México, onde podemos encontrar traduzidas quase todas as grande obras da politologia anglo-saxónica. Mesmo na América de língua castelhana não são de esquecer recentes obras de reflexão política, simbolizadas nos trabalhos do chileno Manuel António Garretón, Reconstruir la Politica [1987] e do argentino Carlos Strasser, Para una Teoría de la Democracia Posible. Idealización y Teoría Política [1990] e Para una Teoría de la Democracia Posible. La Democracia y lo Democrático [1991], sendo também de salientar outros autores como Atilio Borón, M. Cavarozzi e B. Martinez Vazquez.
 
Ciência política em França A criação da École Libre des Sciences Politiques (1872), escola das ciências políticas e não de ciência política, onde pontificaram juristas, historiadores e geógrafos. O magistério de Funck-Brentano e Charles Benoist. Os grandes professores de direito público, nomeadamente Léon Duguit e Maurice Hauriou, e a respectiva assunção do sociologismo de Tarde e Durkheim. A criação da Fondation Nationale des Sciences Politiques e do Institut d'Études Politiques da Universidade de Paris. O ensino do direito constitucional no pós-guerra, com destaque para Georges Burdeau e Maurice Duverger. A passagem do direito constitucional à ciência política e a criação de um doctorat de science politique nas Faculdades de Direito. Os estudos metodológicos dos anos cinquenta. A criação em 1973 de uma agrégation de science politique, autonomizando a disciplina do direito público. A recepção do funcionalismo e do sistemismo norte-americanos e a sociologie de la politique. A descoberta da antropologia política. O tratamento politológico do tema do Estado: Bertrand Badie e Pierre Birnbaum e a Sociologie de l'Etat, 1979; Blandine Barret-Kriegel, L'Etat et les Esclaves, 1979, Les Chemins de l'Etat, 1986. O regresso da filosofia política, na senda de Tocqueville e Aron: Simone Goyard Fabre, Luc Ferry e Alain Renaut (Universidade de Caen); Philippe Bénéton (Universidade de Rennes). De França, impõem-se-nos, sobretudo, os novos rumos de um pensamento autónomo sobre o político, de que destacaremos Simone Goyard-Fabre, professora nas universidades de Caen e Paris II, principalmente em Philosophie Politique. XVIème-XXème Siècles. Modernité et Humanisme [1987], mas também nas mais recentes obras Qu’est ce que la Politique? Bodin, Rousseau et Aron [1992], e Éléments de Philosophie Politique [1996]. Outra teorização magnífica deve-se à professora de Paris X, Blandine Barret-Kriegel, em L'État et les Esclaves, de 1979, Les Chemins de l'État [1986], e La Politique de la Raison e Propos sur la Démocratie. Essais sur un Idéal Politique [1994]. Há, no entanto que referir novas procuras de radicação, principalmente as de Luc Ferry e Alain Renaut, em Philosophie Politique [três tomos de 1984-1985] e La Pensée 68. Essai sur l'Anti-Humanisme Contemporain [1985]. Nessa linhagem se inscrevem autores mais recentes, como Olivier Beaud, em La Puissance de l’État [1994], Pierre Brunel, com L’État et le Souverain [1978], e, sobretudo, Nicolas Tenzer, do Institut d’Études Politiques de Paris, tanto em La Societé Dépolitisée. Essai sur les Fondements de la Politique [1990], como em Philosophie Politique [1994]. Também Chantal Millon-Delsol, da Universidade de Paris XII, em Les Idées Politiques au XXème Siècle [1991], retoma o grande e perene modelo da reflexão francesa sobre a política, dedicando largas páginas à originalidade do corporativismo salazarista. Com efeito, a cultura francesa é um pouco mais vasta do que aquilo que certos intelectuais portugueses, inspirados pelo gauchisme, pela nouvelle droite ou pelos neoliberais, nos continuam a semear com algum atraso. A França não é apenas o grupo de amigos que aplaudem Jacques Lang, que se pautam pelo enciclopedismo de Alain de Bénoist ou que continuam a repisar o propagandismo de Guy Sorman. Há um território bem mais vasto, tanto na reflexão sobre a política como nas várias áreas científicas da ciência política, nomeadamente o exemplo do espectador comprometido que foi Raymond Aron (1905-1983). No caso francês, importa salientar que o nome e o estilo da chamada sociologia política continuam a predominar. Aliás, segundo um inquérito levado a cabo pelo Institut d’Études Politiques de Paris, cerca de 42% das obras politológicas publicadas em França dizem respeito à sociologia política (isto é, à sociologia eleitoral, ao estudo das atitudes e dos comportamentos políticos, ao estudo dos partidos e da vida política), 23% à administração pública e às políticas públicas, 9% à história das ideias políticas, 7% à política comparada e 6% à teoria política, ficando os restantes 13% para a análise da política de outros países. Apesar de tudo, só a partir de 1985, com a publicação do Traité de Science Politique, dirigido por Jean Leca e Madeleine Grawitz, se estabilizou a consensualização de uma autonomia da disciplina, desencadeada a partir do gigantesco Traité homónimo de Georges Burdeau que foi sendo construído, durante vinte anos, a partir do pós-guerra. Entre as obras mais recentes de sociologia política, destaca-se Dominique Colas, da Universidade de Paris-Dauphine, com Sociologie Politique [1994], para além do já clássico manual de Philippe Braud [1992]. Nesta senda incluem-se tanto os manuais dos anos setenta, de Maurice Duverger, R. G. Schwartzenberg, Jean-Pierre Cot/Jean-Pierre Mounier [1974], François Cazel/Pierre Birnbaum [1971], e Chemillier-Gendreau/C. Courvoisier [1971], como alguns outros desta década de noventa, com destaque para os de Jacques Lagroye [1991], Claude Leclercq [1994] e Catherine Rouvier [1995]. O modelo da Introduction à la Politique, em que continua a pontificar o manual de Charles Debbasch e Jean-Marie Pontier, ambos da Universidade de Aix-Marseille, reaparece, em 1996, com Dominique Chagnollaud, da Universidade de Paris II. Numa perspectiva neoliberal importa também referenciar Philippe Bénétton que introduz no universo francês de ciência política as reflexões de Voegelin, Strauss e Hayek, enquanto que, com Pierre Birnbaum e Jean Leca, se assiste a uma superação do sociologismo sistemista norte-americano que ainda preponderava em Maurice Duverger, Jean-William Lapierre e R. G. Schwartzenberg. Bertrand Badie, marcado por Max Weber e Stein Rokkan, introduz um novo estilo culturalista na política comparada, acrescentando alguma mais valia às análises de Almond, Powell e Verba. Pelo menos, supera-se o etnocentrismo da matriz norte-americana, acentuando-se a circunstância do factor religioso ter moldado os processos de diferenciação política no Ocidente, distinguindo-se os modelos marcados pelo Catolicismo romano, com Estado forte, dos marcados pela Reforma protestante, com Estado fraco. Se regressa o estudo da questão nacional e da identidade política  aliás, a nation par excellence não podia deixar de aprofundar o estudo da questão nacional neste tempo de pandemónio , dá-se também um retour de l’État, para utilizarmos o título de uma obra de Yves Cannac, e surgem inovadoras teorizações sobre o Estado de Direito, cultivando-se a tradição das grandes reflexões sobre o fenómeno político superior. Os principais centros de investigação em ciência política continuam a ser as entidades herdeiras da École Libre de Sciences Politiques. Em primeiro lugar, temos a Fondation Nationale des Sciences Politiques, com destaque para o Centre d'Études et des Recherches Internacionales (CERI), com Bertrand Badie, Olivier Carré, Helene Carrère D'Encausse, Alfred Grosser, Jean Leca, Guy Hermet e Alain Rouquié, e para o Centre d'Études de la Vie Politique Française (CEVIPOF), com Jean Charlot, Pierre Favre, Jean-Luc Parodi, para além do Institut d’Études Politiques de Paris, gerido directamente pela mesma Fundação. Vem depois a a velha Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne, onde actualmente se destacam Pierre Birnbaum, Philippe Braud, Noelle Burgi, Jean-Marie Cotteret, Yves Déloye, Marcel Merle, Dominique Pélassy, Evelyne Pisier e Charles Zorgbibe. Em Paris refiram-se também os departamentos de ciência política em Paris II e Paris IX-Dauphine, bem como o Institut d'Études Économiques et Sociales do Institut Catholique de Paris. Inúmeros outros centros são de assinalar, com destaque para os Instituts d'Études Politiques, fundados em 1945, como os de Estrasburgo, Bordéus, Grenoble, Lyon, Lille, Rennes, Aix-en-Provence e Toulouse, bem como para as Facultés de Droit et Science Politique de Caen, Reims e Rennes. A politologia francesa da actualidade, na sequência dos esforços de refundação de Maurice Duverger, Georges Burdeau e Marcel Prélot, e após o tratado organizado por Jean Leca e Madeleine Grawitz, assumiu uma espécie de autodeterminação face às influências anglo-saxónicas e tratou de retomar as grandes perspectivas da tradição cultural reflexiva, constituindo hoje uma fonte de inspiração para todos os espaços culturais que, como o português, devem aprofundar as raízes da respectiva autonomia sem se desenquadrarem do ritmo dos grandes líderes da investigação politológica mundial que, sem dúvida, continuam a ser os norte-americanos e os britânicos.
 
Ciência política em Portugal Os estudos políticos nas Faculdades de Direito. A perspectiva do positivismo organicista (o papel de Manuel Emídio Garcia). A recepção do sociologismo jurídico francês de Léon Duguit, na senda de Durkheim. Domingos Fezas Vital e a introdução do institucionalismo jusnaturalista e da filosofia dos valores. A importância da filosofia do Estado de Luís Cabral de Moncada e a recepção das escolas neokantianas, neo-hegelianas e fenomenológicas. O magistério de Marcello Caetano e o aparecimento da Escola de Direito Público de Lisboa. A perspectiva da ciência política como ciência auxiliar do direito político e do direito constitucional. A influência dos modelos organicistas franceses e a recepção tardia do modelo da teoria geral do Estado. — A recepção da ciência política contemporânea nas Faculdades de Direito. O papel da escola de Rogério Soares em Coimbra. O ensino de ciência política na Faculdade de Direito de Lisboa: das vulgatas marxistas às tentativas pós-revolucionárias posteriores a 1977 — Rui Machete, Jorge Miranda e Marcelo Rebelo de Sousa. A influência dos constitucionalistas da Escola de Lisboa na génese e nas revisões da Constituição de 1976. — A politologia no ISCSPU e no ISCSP. O papel de Adriano Moreira na docência das cadeiras de Política Ultramarina (anos cinquenta), História das Teorias Políticas e Sociais e Política Internacional (anos sessenta). A edição dos manuais Ideologias Políticas. Introdução à História das Teorias Políticas (1964) e Ciência Política (1979). As reformas de 1980 e a criação do Mestrado em Ciência Política. Os doutoramentos em ciência política. Os núcleos universitários de história das ideias políticas e de sociologia do político. Os estudos políticos no ISCTE e na Universidade de Évora. O regresso à filosofia política em núcleos católicos de reflexão e de ensino. As revistas Análise Social, Estudos Políticos e Futuro Presente. A edição da Polis a politologia extra-universitária. Ciência -Sentimento religioso, 11, 90
 
 
Ciência política na Bélgica
Na Bélgica, o modelo dominante continua a ser o dos departamentos de ciências sociais e políticas, nas duas universidades de Antuérpia  Saint-Ignatius (UFSIA) e Instelling (UIA) , na Universidade Católica de Bruxelas (ramo valão) e na Université Catholique de Louvain, onde, no Collège Jacques Leclercq, permanece o Département de Sciences Politiques et Sociales, fundado em 1892, com as suas três secções de antropologia, ciência política e sociologia. Mais vaga é a filiação da ciência política na Faculdade de Ciências Económicas, Sociais e Políticas das Facultés Universitaires de Saint-Louis de Bruxelas. Existem, contudo, departamentos autónomos de ciência política tanto na secção flamenga da Universidade Católica de Bruxelas como na Universidade Livre da mesma cidade, esta de tradicional influência maçónica
 
Ciência política na Irlanda
Na República da Irlanda destacam-se quatro centros universitários com departamentos especializados em ciência política: no University College de Dublin há um Department of Politics; no Trinity College, também de Dublin, existe um Department of Political Science, criado em 1994; na Universidade de Limerick a ciência política está incluída no Department of Government and Society; e na Universidade de Galway, no Department of Political Science and Sociology, surgido em 1964. Em 1982 foi fundada a Irish Political Science Association, sita em Limerick. Conta actualmente com cerca de duas centenas de membros e edita a revista Irish Political Studies.
 
Ciência política no Brasil
Do Brasil, se admiramos o esforço editorial tanto da Fundação Getúlio Vargas como da Editora da Universidade de Brasília, e se temos de reconhecer que o manual de Ciência Política do Professor Adriano Moreira muito deve ao desafio de uma experiência docente em terras brasileiras, onde também foi um dos coordenadores da edição d’O Legado Político do Ocidente, não podemos deixar de lamentar que grande parte do aparelho universitário da maior potência da língua portuguesa se tenha enredado nos cantos de sereia das ideologias, onde prepondera um neomarxismo que, apesar de adoçado pela filosofia do desejo à francesa, é fundamentalmente marcado pela importação da sociologia histórica da New Left anglo-saxónica para uso no Terceiro Mundo, apesar de, aqui e além, ser tingido pelas cores locais da chamada teologia da libertação. É evidente que no nosso vizinho do oceano moreno, há brilhantes excepções de pequenas ilhas de grande reflexão, com autores de dimensão internacional e um ritmo de publicações e traduções que nos causam inveja. Contudo, a média geral continua a pautar-se pela difusão de doutrinarismos e vulgatas que impedem a maior potência da língua portuguesa de encetar um movimento de recuperação que poderia abranger toda a lusofonia. Merecem destaque os arendtianos e heideggerianos como Celso Lafer [1979, 1980 e 1988], Djacir Menezes [1975], José Eduardo Faria [1978], Aloysio Ferraz Pereira [1980] e Leitão Adeodato, com os seus estudos sobre a legitimidade [1978 e 1989]. Fernando Henrique Cardoso é um clássico da escola sociológica desenvolvimentista [1967, 1971, 1975 e 1984], e nesta família de pensamento inserem-se autores como Álvaro Vieira Pinto [1956 e 1960] e Hélio Jaguaribe [1958 e 1962], em torno do Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Alguns nomes com dimensão mundial ainda marcam a cultura brasileira, com destaque para Miguel Reale [1934, 1940, 1960, 1963 e 1965] e Gilberto Freyre, e talvez valha a pena continuar a estudar Pedro Calmon [1952] e atender às recentes obras de Roberto Campos [1996] e Meira Penna [1988].
 
 
Ciência política no Reino Unido
No Reino Unido é criada a primeira cátedra de ciência política em Oxford, no ano de 1912, a que se segue, em 1914, outra, na London School of Economics and Political Science, escola que havia sido organizada em 1895, e em Cambridge, em 1928.
 
Antecedentes
O movimento funda-se numa anterior literatura, marcada pelos trabalhos de Herbert Spencer e em que importa referir Walter Bagehot (1826-1877), em Physics and Politics [1873], livro cujo subtítulo é explícito: reflexões sobre a aplicação dos princípios da herança e da selecção natural à sociedade política. Bagehot, também autor de The English Constitution [1865], é um dos principais responsáveis pela circunstância da darwiana struggle for life ter atingido a dimensão de teoria sócio-política. Outros autores que marcaram o nascimento da ciência política britânica foram o professor de direito em Oxford, Frederick Pollock (1845-1937), em An Introduction to the History of the Science of Politics [1890], e o professor de história moderna em Cambridge, John Robert Seeley (1834-1895), com An Introduction to Political Science [1896]. Ambos mantêm a ideia de ligação da ciência política à história, numa posição paralela à de Ahrens e numa perspectiva próxima da que fora adoptada pelo francês Paul Janet (1823-1899), em Histoire de la Science Politique, dans ses Rapports avec la Morale, obra publicada em 1887 que constitui uma reedição da Histoire de la Philosophie Morale et Politique dans l’Antiquité et dans les Temps Modernes [1858]. Contudo, importa salientar o papel de Lorde John Acton (1834-1902), cujo magistério inventariou os grandes temas da política, nomeadamente as relações entre a liberdade e o poder, as relações entre o Estado e a Igreja e a teorização do princípio da nacionalidade.
Oxford
A primeira cátedra em causa, designada por Gladstone Professorship of Political Theory, teve como responsáveis, primeiro, W. G. Adams (1874-1966), de 1912 a 1933, e, depois Arthur Salter (1881-1971), de 1933 a 1944. Na primeira fase, a cadeira esteve no grupo de História Moderna e, na segunda, no âmbito da economia, Philosophy, Politics and Economics. Entretanto, em 1940, a cátedra era dividida, destacando-se uma de Administration and Government e outra de ciência política propriamente dita, a Gladstone Professorship of Social and Political Theory, onde se manteve Salter. Esta, entre 1944 e 1957, será regida por G. D. H. Cole (1889-1959), a que se seguirão Isaiah Berlin (de 1957 a 1967) e John Plamenatz (1912-1975)
London School of Economics
Na London School of Economics and Political Science, os regentes da cadeira de Political Science serão Graham Wallas (1858-1932), de 1914 a 1923; Harold Laski (1893-1950), de 1926 a 1950, Michael Oakeshott, de 1951 a 1969, e Maurice Cranston.
Cambridge
Já em Cambridge teremos Ernest Barker (1874-1960), de 1928 a 1939, Denis Brogan (1900-1974), de 1939 a 1967, e W. B. Gallie.
Outros pioneiros
Do mesmo modo, o médico Wilfred Trotter, em artigos publicados na Sociological Review, em 1908-1909, precede Freud, ao falar no subconsciente e no instinto gregário. Neste contexto, importa também assinalar Robert Morrison MacIver (1882-1970), em Community, a Sociological Heritage [1917], e The Elements of Social Science [1921], e William Halse Rivers Rivers (1864-1922), Psychology and Politics [1923].
Centros actuais
No Reino Unido situam-se algumas das principais instituições universitárias especializadas em ciência política, com destaque para a Universidade de Essex, no Department of Government, para a Universidade de Cambridge, no Department of Social and Political Studies  onde ensinam John Barber, John Dunn e Anthony Giddens , para a Universidade de Oxford, no Center for European Politics, Economics and Society do Nuffield College  onde ensinam David Miller e Byron Shafer  e no St. Anthony's College  com Graham Lock e Hermínio Martins , bem como para a London School of Economics and Political Science, no Department of Government  com Brian Barry, Maurice Cranston e Kenneth Minogue , no Department of International Relations e no European Institute. Muitas outras universidades há que referir, com destaque para os departamentos de Politics existentes nas universidades de Bristol, Buckingham, Durham, Edimburgo, Exeter, Glasgow, Greenwich, Huddersfield, Keele, Leeds, Londres - no Queen Mary and Westfield College -, Newcastle, Nottinghan, Belfast - Queen's University -, Reading, Sheffield, Southampton, Stirling, Sussex, York, para além dos de Government, em Brunel-Uxbridge e Manchester  onde ensinam David Farrell e Geraint Parry  e de Political Theory and Government, nomeadamente na Universidade de Gales-Swansea. A ciência política também se estuda em conjunto com as relações internacionais (universidades de Aberdeen, Birminghan, Hull, Kent, Lancaster, Warwick e no King's College, departamento de War Studies da Universidade de Londres), em departamentos de estudos sociais e políticos (Universidade de East Anglia-Norfolk, Birkbeck College da Universidade de Londres e School of Politics and Communication da Universidade de Liverpool) e até em departamentos de história e política (Universidade de Middlesex), ou de política e filosofia (Manchester Metropolitan University). É pujante a Political Studies Association of United Kingdom, com sede na Queen’s University de Belfast. Reúne cerca de mil membros e edita vários periódicos, como Politics, Political Studies e PSA News.
 
Ciência política norte-americana
e o estudo do comportamento político, como reacção contra o normativismo, pela análise da dinâmica das instituições públicas. Do estudo do political process (Bentley) estudo das instituições públicas como elas são, na sua dinâmica - ao estudo do comportamento político dos indivíduos integrados num determinado sistema social — a political action(Lasswell); do estudo do poder em geral ao estudo do political power e do process of making decisions, considerado como um political system (David Easton). A passagem de um estudo histórico, comparativo e evolucionista, à maneira de Comte e Spencer, a uma perspectiva analítica, descritiva e explicativa, à maneira behaviorista. A emergência da revolução pós-behaviorista. Sociologismo. Behaviorismo e sistemismo. — A vertente neoclássica, neo-romântica e neojusnaturalista da ciência política norte-americana (Leo Strauss, Eric Voegelin e Hannah Arendt), cujos cultores preferem chamar-lhe outra coisa: political philosophy (Leo Strauss); política pura e simplesmente (Arendt) ou science of politics (Voegelin). Apesar do esforço intelectual das universidades europeias, continua a preponderar a politologia norte-americana. Não apenas pela abundância quantitativa dos respectivos cultores, como também pela própria abundância de qualidade. Aliás, o pioneirismo norte-americano nos domínios da ciência política, logo acompanhado pelo esforço britânico, levaram o mundo anglo-saxónico a assumir uma preponderância dificilmente destronável. Ainda hoje, cerca de 90 % da produção bibliográfica mundial em ciência política provém do universo norte-americano. O atraso dos franceses quanto a uma consensualização sobre a ciência política impediu também que a própria cultura latina pudesse concorrer em termos quantitivos neste desafio da globalização. Um certo chauvinismo parisiense pode amargurar-se com a circunstância injusta de não ser citado nos manuais norte-americanos, e até verificar que outras politologias europeias não anglo-saxónicas, como a alemã e a italiana, são mais depressa acolhidas no seio da American Political Science. É a diferença que vai do minitel à internet e do logiciel ao software. Mas mais razões de queixa têm autores de língua castelhana, e nem sequer vale a pena medir a visibilidade do mundo da lusofonia nesse contexto, onde, infelizmente, abundam as próprias culpas intestinas. Mas a influência da actual ciência política norte-americana não significa necessariamente um corpo estranho aos modelos europeus do pensar e estudar a política. Essa preponderância é quase equivalente à influência que as correntes europeias tiveram na génese e no desenvolvimento da politologia norte-americana. Basta recordar as marcas da teoria geral do Estado germânica, do darwinismo e do psicologismo entre os pais-fundadores da disciplina de ciência política ou assinalar a importância dos emigrantes germânicos dos anos trinta e quarenta, com destaque para Hannah Arendt (1906-1975), Eric Voegelin (1901-1985), Leo Strauss (1899-1973), Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-1973), Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-1980), Ludwig Von Mises (1881-1973), Joseph Schumpeter (1883-1950), Carl J. Friedrich, Hans J. Morgenthau e o próprio Hans Kelsen (1881-1973). Kelsen, o professor e jusfilósofo austríaco, autor das teorias puras do direito e do Estado, responsável por fundamentais aprofundamentos do pensamento jurídico a partir dos anos trinta, é também um dos mais eminentes teóricos da democracia, principalmente durante o exílio norte-americano, destacando-se a obra Foundations of Democracy [1955-1956], onde recolheu esquecidos trabalhos publicados em 1920, 1925 e 1929. Austríaco é também Ludwig Von Mises, um dos patriarcas do neoliberalismo que, depois da Segunda Guerra Mundial, publica algumas das suas principais obras no exílio anglo-saxónico, com destaque para Omnipotent Government. The Rise of Total State and the Total War [1944], e Liberalism in the Classic Tradition [1962]. Da Europa também vêm os checoslovacos Joseph Schumpeter, autor de Capitalism, Socialism and Democracy [1942], e Hans Kohn, um dos precursores do entendimento dos fenómenos nacionalistas como actualmente vão explodindo em etnonacionalismos e pan-nacionalismos. Mesmo nos nossos dias, um italiano como Giovanni Sartori, que ensina e publica tanto em New York como em Florença, é o exemplo de alguns outros demonstradores da essencial unidade mental das formas políticas ocidentais. Aliás, a própria revolução norte-americana, como tão bem o demonstrou Hannah Arendt, enraíza-se nas profundidades de um pensamento e de uma prática consensualistas da Europa: não foi por acaso que Montesquieu serviu de guia para os constituintes norte-americanos. A tradicional perspectiva de certo dogmatismo francês que isola os anglo-saxons da restante Europa, só porque estes não aderiram aos modelos de Estado Moderno provenientes do absolutismo e da Revolução Francesa, ditados pelos compêndios únicos das universidades estadualizadas dependentes do aparelho de poder central, muitas surpresas terá quando verificar que as concepções do político que acabaram por conformar o Reino Unido e os Estados Unidos da América também poderiam ter vencido no restante mundo ocidental se este não tivesse adoptado o jusconceitualismo da soberania una, indivisível, inalienável e imprescritível, iniciado pelo absolutismo da monarquia de direito divino e não desabsolutizado pelo não menos absoluto democratismo jacobino. O que impressiona na politologia norte-americana é um lastro de fidelidade face a uma concepção pluralista da democracia, bem diversa da perspectiva estadualista e jacobina que acabou por ser dominante no restante mundo ocidental. Daquela democracia concreta e existencial que atravessa o quotidiano do seu povo e o funcionamento das suas instituições, dessa filosofia democrática de vida que gerou um corpo político que é o único que nasceu plena e explicitamente da liberdade, da livre determinação dos homens em viver em conjunto e como tal trabalharem para um fim comum para utilizarmos palavras de Jacques Maritain. Contudo, é da ciência política norte-americana que também nos tem chegado a tragédia da ciência política, para utilizarmos uma expressão de David M. Ricci, isto é, o conflito entre a aceitação das técnicas científicas, herdadas do darwinismo social, do funcionalismo e do behaviorismo, e alguns dos pressupostos fundamentais dos ideais democráticos, nomeadamente o princípio da racionalidade dos cidadãos comuns. Um conflito que atingiu os níveis do paradoxal em plena guerra fria, quando os teóricos do neo-empirismo e do behaviorismo anglo-saxónicos que, no plano científico, clamavam pela neutralidade axiológica, acabaram por ser mobilizados por uma cruzada anti-sovietista, em nome da democracia, do pluralismo, da sociedade aberta e da ideologia dos direitos do homem. Vejam-se algumas das mais recentes contribuições para a recuperação do pensamento democrático, segundo a perspectiva pluralista, provindas das fileiras da politologia. Robert Dahl, por exemplo, o autor que cunhou o termo poliarquia, produziu nos anos oitenta três profundas obras de reflexão sobre a matéria: Dilemmas of Pluralist Democracy [1982], A Preface to Economic Democracy [1985] e o monumental Democracy and Its Critics [1989]. Samuel Huntington, consagrado especialista na mudança política e nas relações entre políticos e militares, elaborou, em 1993, uma curiosa tese sobre The Third Wave da democracia, que começa precisamente pelo nosso 25 de Abril e coloca a luta dos anticomunistas portugueses do Verão Quente de 1975 como ponto de partida para a eliminação dos regimes autoritários na Europa e para as posteriores revoluções de veludo que conduzirão ao colapso do sovietismo. Giovanni Sartori, em 1977, edita a sua Theory of Democracy Revisited, em dois volumes, onde tanto refere o debate contemporâneo como os problemas clássicos, retomando uma senda, iniciada em 1957, com Democrazia e Definizione. Mais recentemente [1993], estuda a democracia depois do comunismo e faz uma revisão crítica do conceito de totalitarismo.
 
 
Ciência política nos Países Baixos Nos Países Baixos, refiram-se as universidades de Leyden, Vrije e Amsterdão. Na Suíça, destacam-se os departamentos de ciência política de Berna, Sankt Gallen, Genebra e Lausanne.
 
Ciência Política. Manuais.
 
Ciências do espírito
Geisteswissenschaften
Wilhelm Dilthey, contrariando as teses de Durkheim, opõe esta categoria à de ciências da natureza (Naturwissenschaft). Porque os factos do espírito, ao contrário dos factos naturais, não são dados e só podem ser apreendidos através de uma espécie de autognose (Erlebnis). Cada parcela tem, assim, que ser referida ao todo, pelo que importa descobrir as conexões de sentido, só sendo possível compreender as estruturas por meio da referência ao sentido. Segundo a terminologia inglesa, é sinónimo de ciências sociais. Dilthey. Geisteswissenschaften.
 
 
Ciências finais ou teleológicas
Categoria utilizada pelos neo-kantianos da Escola de Marburgo, principalmente pelo jurista Rudolf Stammler. Nas ciências finais, por oposição às ciências da natureza, o temporalmente ulterior, o fim, seria condicionante do temporalmente anterior, o meio. Já nas ciências da natureza, os fenómenos seriam ordenados pela causa/ efeito, onde o efeito, enquanto temporalmente ulterior, surge condicionado pela cuasa, o temporalmente anterior.
 
 
Ciências políticas e administrativas
Com a reforma de Costa Cabral, constante da portaria de 10 de Março de 1843, quando o curso de direito passou a ter cinco anos, surgiu uma nova cadeira de Direito Administrativo e Direito Criminal (no 5º ano), a fim de não se aumentarem as disciplinas curriculares (treze), eis que o Direito Público Português vai juntar-se ao Direito Público Universal e das Gentes, surgindo a cadeira de Direito público universal, direito público português, princípios de política e direito dos tratados de Portugal com os outros povos; e ciência da legislação (3ª cadeira, do 2º ano). Aceitava-se então a diferenciação entre um direito político ou direito público interno, aplicado às relações internas duma nação entre governantes e governados, para utilizarmos palavras de Vicente Ferrer, e um direito público universal, direito público externo ou direito das gentes, aplicado às relações das Nações entre si. No tocante ao direito administrativo, importa salientar que só pela Carta de Lei de 13 de Agosto de 1853 surgiu uma cadeira autónoma de Direito Administrativo Português e Princípios de Administração separada do Direito Criminal, ao mesmo tempo que se instituía um Curso Administrativo, de três anos, anexo à Faculdade de Direito, em substituição de uma anterior ideia, aventada pelo Conselho Superior de Instrução Pública, em 1845, que visava a instituição de uma Faculdade de Ciências Económicas e Administrativas. Contudo, a Faculdade de Direito desde logo rejeitou a hipótese de uma instituição de ensino especial para tal matéria, como acontecia em Tubinga ou na Baviera, preferindo o exemplo espanhol de secções especializadas das escolas jurídicas, modelo que gerara, em 1842, uma Escuela de Administración. O Curso Administrativo português, regulamentado por Decreto de 6 de Junho de 1854, depois de uma boa aceitação inicial, depressa entrou em decadência, sendo abandonado. Aliás, esse curso chegou a ter a designação de curso especial de ciências políticas e administrativas e, caso tivesse tido êxito, dele podia ter nascido uma espécie de École Libre des Sciences Politiques à portuguesa. Neste domínio, só com a instituição da Escola Colonial, em 1906, é que teremos um domínio específico de estudos de administração independente das Faculdades de Direito, depois da Sociedade Geografia de Lisboa, num relatório de Março de 1878, subscrito por Luciano Cordeiro, o ter proposto. Acrescente-se que esta necessidade da procura de um direito administrativo, provocada pelo crescimento do aparelho estadual, principalmente pelo aumento do número dos funcionários administrativos, foi paralela à própria necessidade de um pensar globalista sobre a matéria, como virá a exprimir-se pelo surgimento de uma ciência política. Mas, entre nós, não nos foi possível ir muito além da simples exegese dos textos regulamentares. A figura híbrida do administrativista-politólogo não resulta do mero acaso. Tal como na cameralística alemã, também entre nós, o administrativista vestido de politólogo, ou o inverso, isto é, o modelo daquele que pretende ser politólogo, mas fica condenado ao mero administrativismo, constituem uma espécie que, sendo iniciada por Manuel Emídio Garcia, passa por J. T. Lobo de Ávila, Fezas Vital e Martinho Nobre de Melo e chega ao próprio Marcello Caetano.
 
Ciências, Classificação das Breve referência à classificação das ciências em Aristóteles: poein, as ciências do criar (lógica, retórica e poética); theorein, as ciências do saber (matemática, física e metafísica); e prattein, as ciências práticas ou do fazer (política, ética e economia). A política como ciência dos actos do homem enquanto membro da polis, incluindo no seu seio a própria religião. A política como ciência arquitectónica, com várias ciências subordinadas. — A perspectiva tomista. A política, a ética e a economia, consideradas como servas da teologia (ancillae teologiae), passam a ciências subordinadas. A teologia como a nova ciência arquitectónica. corte renascentista. A política libertando-se da teologia e distanciando-se da ética (maquiavelismo) e do direito (Razão de Estado e Absolutismo). A ideia moderna de ciência. Os fundamentos do Iluminismo. Do homem como dono e senhor da natureza ao homem como dono e senhor da sociedade. A descoberta da ideia de revolução.
 
Cientificismo O afã de poder de uma comunidade que actua em nome da ciência (Louis Pauwells). Diz-se no Brasil da recepção das teses de Spencer, Darwin e Comte, onde se cria um movimento sociológico de elites que esteve na base da instauração da República em 15 de Novembro de 1889.
 
Cientismo O método axiomático-dedutivo de Descartes (1596-1659). A regra da evidência, a regra da análise e a regra da verificação, como fundamento do esprit geométrique. A morte de Deus e a solidão da razão individual. A matematização do universo, na sequência da descoberta da lei da inércia e da gravitação de Isaac Newton (1642-1727):  tudo o que não é deduzido dos fenómenos é uma hipótese. O empirismo de Francis Bacon (1561-1626). O poder e o conhecimento como sinónimos O método axiomático-dedutivo. A consideração de que o único método possível para a ciência é o da matemática e da geometria. A emergência de Kant, como síntese entre o racionalismo e o empirismo. O nascimento, a partir de Kant, do idealismo, na linha de Hegel, e do positivismo, na linha de Comte. — A física social de Auguste Comte e o triunfo do cientismo empírico-analítico ou físico-matemático. A procura de uma nova ciência arquitectónica ou ciência de cúpula, onde o método é que determinaria o objecto. A invenção do neologismo sociologia (1838), qualificação que foi precedida pelas designações de ciência política (1822) e de física social, tendo, mais tarde, como alternativas, as expressões sociocratia e sociololatria. A ideia de ciência política como uma física particular, fundada sobre a observação directa dos fenómenos relativamente ao desenvolvimento da espécie humana — Século XIX. Ligação do positivismo, ao empirismo e ao darwinismo social. A emergência do organicismo. A política desaparecendo como substantivo, passando apenas a haver ciências políticas. — Ligação da questão do método cientificista à perspectiva economicista da extinção do político e do Estado. Proudhon e a defesa da dissolução do governo no organismo económico. Marx e a proposta de superação do governo das pessoas pela administração das coisas. — O culturalismo neo-kantiano e a descoberta dos valores. Heinrich Rickert, a Escola de Baden e as ciências da cultura. Wilhelm Dilthey, as ciências do espírito e o método da compreensão. A sociologia compreensiva de Max Weber e o individualismo metodológico. — A metodologia de Karl Popper e o racionalismo crítico. O método da verificação a contrario e o critério da falsificação. O contributo de Friedrich Hayek e a teoria dos sistemas complexos. — A encruzilhada do nosso tempo. Neo-empirismos e neopositivismos. Funcionalismos e sistemismos. Regressos à filosofia prática e à hermenêutica. As discronias ou de como em certos espaços se continuam a viver outros tempos.
 
Ciência e opinião A distinção entre o conhecimento àcerca do contingente (a opinião ou dóxa) e o conhecimento das causas que são necessariamente verdadeiras. A ciência como esforço racional para substituir a opinião pelo conhecimento. A noção de Wissenschaft como conhecimento rigoroso e objectivo e as regras da metodologia científica. Distância e objectividade. Observação e experimentação. Formalização e sistematização. As propostas de Raymond Aron para a deontologia de uma actividade científica (não seleccionar arbitrariamente os elementos da realidade e não os deformar; não seleccionar arbitrariamente as palavras e as suas definições; não apresentar como certos e precisos fenómenos cuja própria natureza exlui precisamente a precisão; não determinar arbitrariamente o que é importante ou essencial; respeitar a liberdade de discussão e de crítica; praticar o bom uso dos juízos de valor). — As tentativas terceiristas. A classificação de Jean Piaget sobre as ciências sociais e humanas: ciências históricas, ciências jurídicas, disciplinas filosóficas e ciências nomotéticas, as quais procurariam enunciar leis científicas e recorrer ao método de verificação que sujeitam os esquemas teóricos ao controlo dos factos da experiência.

Cientismo Segundo Popper, é o movimnto que concebe os métodos das ciências sociais como os mesmos das ciências físicas., 24, 156
 
Cientismo newtoniano Aquele que admite "partição da vida em elementos", contra esse racionalismo, segundo o qual "passou a ser culturalmente aceite que, por muito complexo que seja um sistema, inclusive os sistemas económicos e sociais, seria sempre possível definir e separar as partes ditas elementares, e dado algum tempo de experimentação e reflexão seria possível encontrar a lei (ou leis) que, resumindo ao essencial as relações entre as partes, recriassem o todo do sistema para todo o sempre", ver FERNANDO CARVALHO RODRIGUES, A Nova Aliança, in Futuro, Ano IV, nº 32, Abril de 1990.
 
 
Cientismo de Comte Do mesmo modo, se aplicássemos à ciência política as regras da cientificidade do positivismo cientista, tanto na versão de Augusto Comte, como na de Emile Durkheim, a ciência política seria sempre uma não ciência. Assim sucederia se apenas procurássemos, na senda de Comte, as relações genéricas, verdadeiras que ligam todas as realidades sociais, se quiséssemos ser mera física dos corpos organizados, se tentássemos encontrar as relações constantes de sucessão e de semelhança dos diversos fenómenos observáveis, visando prevê-los uns após os outros, se procurássemos explicar sempre como e nunca porquê. Por esta via, acabaríamos na restrita ciência experimental de que falava Charles Maurras, cujo objecto é a persecução de constantes regulares e de leis estáticas da sociedade, a procura das repetições insofismáveis. Cabe a Comte a estruturação do chamado cientismo, esse conjunto de superstições que pretendem explorar o legítimo prestígio dos métodos da ciência que, segundo Roger Garaudy, obedeceria aos seguintes postulados: 1-Se toda a verdade científica for a cópia exacta e definitiva de uma realidade da natureza, as verdades fundamentais da ciência não poderão ser postas em causa, pelo que o progresso do conhecimento deve fazer-se por acumulação contínua. 2- Toda a realidade, humana ou natural, é susceptível de ser explorada através do mesmo método, do qual a física matemática fornece o modelo ideal e único. 3-Por conseguinte, todos os problemas, incluindo os problemas morais, políticos e sociais, podem ser resolvidos através deste método. Assim, toda a realidade pode ser definida através de conceitos e a natureza inteira ser vista como um conjunto de factos que estão ligados entre si por leis, de tal maneira que a sensação, o conceito e as leis passam a ser os três pilares desta concepção do mundo e da vida. Porque, com o conceito, logo se reduz todo o sujeito e todo o projecto às leis, às medidas e aos limites do objecto.
 
 Cimeira Europeia de Copenhaga (1973). A Cimeira de Copenhaga de Dezembro de 1973 constitui um recuo, ficando-se por uma vaga Carta da Identidade Europeia, sem poder pôr em prática algumas propostas concretas como a criação de um fundo europeu de desenvolvimento regional, ou de uma organização ocidental para a energia, desejada pelos norte-americanos. Em 14-15 de Dezembro de 1973 tinha lugar a cimeira de Copenhaga. A proposta de Pompidou parecia ser superada pelas circunstâncias da crise energética, ficando-se a cimeira por algumas resoluções sobre a política regional, nem sequer decidindo sobre a criação de uma organização ocidental para a energia, proposta pelos norte-americanos. Surgiu então uma vaga Carta da Identidade Europeia, afirmando a vontade dos Nove Estados de ver a Europa falar a uma só voz nos grandes assuntos do mundo de, a partir da Comunidade, considerada elemento motor da construção europeia, de se tarnsformar, antes do fim da década em curso, o conjunto das suas relações numa União Europeia. Acrescenta-se que os membros da Comunidade desejosos de assegurar o respeito dos valores de ordem jurídica, política e moral a que estão vinculados... pretendem salvaguardar os princípios da democracia representativa, do império da lei, da justiça social - finalidade do progresso económico e do respeito pelos direitos do Homem, que constituem elementos fundamentais da identidade europeia. Quanto ao alargamento declara-se que a Comunidade está aberta a outras Nações Europeias que partilhem os mesmos ideais e dos mesmos objectivos.
 
Cimeira da Terra Reunião do Rio de Janeiro de 3 a 14 de Junho de 1992. Estabelece um novo conceito de desenvolvimento para o reequilíbrio das relações Norte-Sul, dito socialmente equitativo, ecologicamente viável e conscientemente eficaz
 
Cipião, O Sonho de  Fragmento do livro VI de De Republica de Cícero. Refere-se ao sonho de Cipião Emiliano, o segundo Africano, chefe do partido senatorial, filho de Paulo Emílio, o vencedor de Cartago, em 146 a.C..
 
CIP ÖConfederação da Indústria Portuguesa.
 
Circulação, Liberdade de  Francisco de Vitória em De potestate civili, de 1528, vem considerar que existe uma societas naturalis entre todos os povos, havendo necessidade de estabelecimento de um ius communicationis, de um direito que cada homem tem de estar, andar, ir de um lado para outro, ao redor da terra, de uma comunicação mútua entre os homens(hominum invicem communicationem)
 
Círculo do Humanismo Cristão (1963) ÖTempo (O) e o Modo
 
Círculo de Viena (Der Wiener Kreis) Movimento nascido em 1929, em torno da revista Erkenntnis e que teve em Rudolf Carnap o principal cultor. Cultores da nova lógica e da análise da linguagem. Contra o anterior positivismo, consideram que a ideia de causalidade não implica automaticamente a de necessidade. Defendem uma rígida separação entre a ciência e a metafísica, considerando que a ciência obedece ao princípio da verificabilidade, dado que toda a proposição tem de ser analida em eenunciados básicos, verificáveis pela experiência.
 
Círculos Católicos Operários 1898 Na sequência da encíclica Rerum Novarum de 1891, o catolicismo social incrementa-se em Portugal, surgindo vários círculos católicos operários, concorrendo com os movimentos socialistas. O primeiro surgiu no Porto em 1898, depois de em Lisboa ter sido criada em 1878 a Associação Protectora dos Operários. Estrutura-se também uma imprensa militante como os jornais O Grito do Povo, em 1899, e A Democracia Cristã, fundada em Lisboa no ano de 1903. Em 1906 realiza-se o I Congresso da Democracia Cristã.
 
Cisalpina, República 1797 República criada por Napoleão em Itália em 29 de Junho de 1797, pela junção das Repúblicas Cispadana e Transpadana (de Padus, o nome latino do rio Pó), integrando o Milanês, a Lombardia, o ducado de Modena e a Romanha; em 25 de Janeiro de 1802 passou a constituir-se como República Italiana e em 17 de Março de 1805 como Reino de Itália
 
CISC. Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos. Passa a Confederação Mundial do Trabalho em 1968.
 
 
Cisleithania 1867-1918 Nome dado à Áustria no contexto da monarquia dualista que durou de 1867 a 1918
 
Cisma do Ocidente (1378 a 1417) Período em que na Igreja Católica existem dois papas, em Roma e em Avinhão. Dura desde a morte de Gregório XI à eleição de Martinho V, no decorrer do Concílio de Constança, iniciado em 1414.
 
Cisma do Oriente Consuma-se em 1053, com a excomunhão do patriarca de Constantinopla.
 
 
Cisneros, José Maria Hernandez Rubio, La Ciencia Politica. Interpretaciones Históricas y Situación Actual, Facultad de Derecho de la Universidad de Laguna, 1970.
 
Cispadana, República 1796 República criada por Napoleão em Itália em Dezembro de 1796, compreendendo Módena, Ferrara e Bolonha; juntamente com a República Transpadana, foi com esta, integrada na República Cisalpina.
 
Cister, Ordem de Fundada em 1098 com o apoio do duque da Borgonha. Adopta a regra de S. Bento. Destaca-se a acção de S. Bernardi, abade de Claraval. Os cisterciences entram em Portugal com o conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques.
 
 
Citadelle, 1948 Obra póstuma de Antoine Saint-Exupéry, onde se reúnem trechos de reflexão política de grande originalidade. Aí se criticam os preconceitos dominantes do positivismo, contra essa ideia segundo a qual a ciência só abrange aquilo que se repete. Salienta também: Sei perfeitamente que o erro não é o contrário da verdade, mas sim um arranjo diferente, um outro templo construído com as mesmas pedras, nem mais verdadeiro nem mais falso, mas sim outro. Pela metáfora, retoma o conceito espiritual da polis: não se morre por carneiros, nem por cabras, nem por lares, nem por montanhas. Os objectos subsistem, sem necessidade de lhes sacrificar seja o que for. Mas já se morre para salvar o invisível laço que os liga uns aos outros e os transforma em propriedade, em império, em rosto conhecido e familiar. Por essa unidade já uma pessoa se troca, porque morrer também é construi‑la. A morte paga graças ao amor. Acrescenta: Eu vo‑lo afianço: a torre, a cidade ou o império crescem como a árvore. São manifestação da vida, porque precisam do homem para nascer. E o homem julga calcular. Julga que a razão governa a erecção das pedras quando a erecção dessas pedras nasceu, mas foi do desejo dele. E a cidade está contida nele, na imagem que ele leva no coração, da mesma forma que a árvore se contem na semente. Quanto às divisões intestinas da cidade, observa: as crenças opunham‑se todas umas às outras. Como só construíam igrejinhas, odiavam‑se umas às outras, por terem o costume de tudo dividirem em erro e verdade. O que não é verdade é erro e o que não é erro é verdade. Porque: Se andares em luta contra seja o que for, deves aniquilar‑te a ti próprio, porque sempre existe em ti ao menos uma pequena parte daquilo contra que lutas.
 
Citizens, Elections, Parties (1970) Obra de Stein Rokkan, com o subtítulo Approaches to the Comparative Study of the Processes of Developmnet, Nova York, McKay/ Oslo Universitets Forlaget, 1970. Considera que os partidos políticos nasceram no século XIX europeu, a partir de uma série de fracturas sociais: sobre a questão do Estado, em torno do antagonismo centralização /descentralização, segundo as marca dos jacobinos / girondinos; sobre a relações entre a religião e a política (partidos laicistas ou agnósticos contra partidos confessionais ou defensores das liberdades religiosas); sobre a revolução industrial (partidos industrialistas contra partidos agrários); sobre o modo de produção industrial (partidos burgueses ou conservadores, representantes da burguesia, contra partidos operários ou socialistas, mobilizadores do proletariado).
 
Civic Culture (1963) Obra de Gabriel Almond e Sidney Verba, subtitulada Political Attitudes and Democracy in Five Nations. Consideram a cultura como orientação psicológica relativamente aos objectos sociais, isto é, a interiorização, por cada um, do sistema político" e a congruência de uma cultura política com uma estrutura política, estabelecem trës modelos de cultura política ‑ a cultura paroquial, a cultura de sujeição e a cultura de participação. A estas três formas de cultura política corresponderiam três modelos de estrutura política: a tradicional, marcad pela descentralização; a autoritária, marcada pela centralização; e a democrática. salientam, no entanto, que qualquer cultura política efectivamente existente assume forma mista, equilibrando harmonicamente as três referidas componentes [reed., Boston, Little, Brown & Co., 1965].
 
Civil Society Utilizando a ideia de civil society como sinónimo de Political Society, Locke refere que a mesma acontece quando os homens estão unidos num só Corpo (Body), e têm um direito comum estabelecido e um aparelho judicial a que podem recorrer, com Autoridade para decidir controvérsias entre eles e punir as infractores.
 
Civilidade. O mesmo que politicidade, segundo Hegel. O colectivo pensdo como uma produção espiritual.
 
 
Civilização laços comunitários seriam laços de cultura, já os laços societários seriam laços de civilização
Confronto entre civilização e Cultura
Este confronto entre cultura e civilização vai, aliás, constituir um dos principais tópicos do pensamento alemão deste começo deste nosso século.
Thomas Mann
Thomas Mann, por exemplo, considera que a cultura tem a ver com a alma (seele) enquanto a civilização está mais relacionada com o intelecto ou o espírito (geist). Para ele "a cultura é o princípio arquitectónico da organização estética, que conserva, protege e transfigura a vida", enquanto "a civilização é o Espírito no seio da razão, afinamento dos costumes, dúvida, progresso das Luzes, dissolução, enfim. "
No plano da teoria do Estado esta distinção vai manifestar‑se em Paul von Sokolowski que na sua obra Politik und Rechtsphilosophie der Staat, de 1932, considera que o verdadeiro fim do Estado é "a realização de uma síntese perfeita da civilização e da cultura". Para ele, "civilização designa a função que o homem exerce lutando com as forças externas da natureza; cultura designa a função que o homem exerce lutando com as forças internas da natureza, os impulsos naturais". Se a civilização corresponde às divindades e ao dogma, a cultura tem a ver com uma exigência moral interior.
 
Lord Acton considera que " o Estado pode no decurso do tempo produzir uma nacionalidade; mas que a nacionalidade deva constituir um Estado é contrário à natureza da moderna civilização".
Este católico britânico referia mesmo que "os Estados substancialmente mais perfeitos são aqueles que... abrigam várias nacionalidades distintas sem oprimi‑las". Mais que "o processo de civilização depende de trancender‑se a nacionalidade... As influências que são acidentais cedem àquelas que são racionais... As nações almejam o poder, e o mundo a liberdade"
 
Pessoa: a nação é entendida como "um conceito puramente místico", como "um meio de criar uma civilização", como um "organismo capaz de progresso e de civilização"
Pessoa considerava que "toda a criatura que hoje luta com a Alemanha deve saber que está lutando pelos princípios seguintes:1. A Civilização está acima da Pátria. 2. O Indivíduo vale mais do que o Estado. 3. A Cultura vale mais do a Disciplina"
 
Maurice Hauriou considera expressamente que "o Estado não existiu sempre, é uma formação política de termo de civilização; as sociedades viveram muito mais tempo no regime de clã, tribo e suserania feudal que no regime de Estado"
Toynbee
Também Arnold Toynbee chegou a idêntica conclusão quando considerou o Estado Nação como incapaz de história, dado que esta apenas seria possível para aquilo que qualifica como "civilizações". Arnold Toynbee, "numa civilização em crescimento, a um desafio opõe‑se uma réplica vitoriosa que vai imediatamente gerar um outro desafio diferente ao encontro do qual se ergue uma outra réplica vitoriosa"
É evidente que o estatismo moderno nasceu à imagem e semelhança das reminiscências romanas. Daquela Roma cuja "engenharia política"(Agostinho da Silva) criou uma espécie de civilização de Estado.
 
Civilização
} Brugmans, Henri, Les Origines de la Civilization Européenne, Paris, 1958. } Service, Elman R., Origins of State and Civilization, Nova York, W. W. Norton, 1975. }
 
Civilização. Segundo Rousseau, foi a civilização ou sociedade civil, no sentido de sociedade política, que criou um regime artificial de desigualdades, colocando os homens em regime de mútua dependência: o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu. Isto é, depois das desigualdades naturais ou físicas, seguiram-se as desigualdades morais ou políticas. Além da diferença entre os fracos e os fortes, acresceram as diferenças entre os ricos e os pobres; os senhores e os escravos.
 
Civilizations e Estado Num conúbio entre Weber e Marx, Jürgen Habermas considera que o Estado Moderno, que se forma em conexão com o tráfico mercantil das economias territoriais e nacionais em formação a partir das necessidades de uma administração financeira central, viu-se sempre remetido para a competência profissional de funcionários com preparação jurídica. Isto é, para além de exércitos permanentes, surgiu uma administração permanente e tiveram de aplicar mais uma arte do que uma ciência. O Estado resultaria da emergência típicas das sociedades das chamadas culturas superiores (civilizations), em oposição às sociedades ditas mais primitivas, através de três elementos: — existência de um poder central ( organização estatal da dominação face à organização por parentesco); — divisão da sociedade em classes socio-económicas; — estar em vigor algum tipo de mundivivência central (mito, religião superior) que tem como fim uma legitimação eficaz da dominação. Acontece que o Estado parece ter de abandonar a substância da dominação em favor de uma inserção eficiente das técnicas disponíveis no enquadramento das estratégias impostas pelas próprias coisas — ele parece já não continuar a ser um aparelho para a imposição coactiva de interesses infundamentáveis por princípio e só sustentáveis em termos decisionistas, para se transformar num órgão de uma administração integralmente racional 
 
 
Civilization on Trial [1948] Toynbee, Arnold Considera que há uma contemporaneidade filosófica de todas as civilizações, pelo que o seu presente foi o meu futuro. Entre os antepassados de uma ou mais civilizações encontramos membros de quase todas as raças. Para um veículo avançar no caminho que o seu condutor determinou, tem que andar sobre rodas que monotonamente giram sempre em volta.
 
Civismo Atitude consciente e esclarecida de um cidadão, pelo cumprimento dos seus deveres políticos. } Botelho, Afonso, Origem e actualidade do civismo, Lisboa, Terra Livre, 1979. }
 
Civilismo Termo assumido pela candidatura de Rui Barbosa à presidência da República no Brasil, nos anos de 1909-1910, contra a do militar Hermes da Fonseca.
 
Civitas Humana (1946) Obra de Wilhelm Ropkeì.
 
Civitas superiorem non recognoscens es sibi princeps. Fórmula de Bártolo
 
Cive, De [1642] Hobbes, Thomas Segundo Hobbes, no estado de natureza (status naturalis) cada um pode fazer o que julgar útil para a respectiva conservação. Cada um tem tanto direito até onde chega o respectivo poder: a natureza deu, a cada um, o direito sobre todas as coisas, a natureza deu tudo a todos, pelo que, no estado natural, a medida do direito é a utilidade (cap. I, X). Porque o direito natural é o que nos dita a recta razão no tocante às coisas que nós temos que fazer ou não fazer, para a conservação da nossa vida (II, I). A força é entendida como um meio para um determinado fim, sendo natural que conceba o poder como um processo de acumulação, identificando boa sorte com honra e a má sorte com vergonha. Neste sentido, define a lei como a palavra de quem tem o direito de comandar os outros. Considera, muito simplesmente, que a tendência para o homem conservar essa força vital é que constitui o direito verdadeiramente natural. Concebe‑o, portanto, como um elemento perfeitamente a‑jurídico. É um conatus que, acompanhado por um impetus, produz uma força na máquina humana. É o direito à vida. Logo, se é um direito tem que ter os meios necessários para a sua realização. É uma força, uma energia vital, uma liberdade no sentido em que a ciência mecanicista adopta essa tese (I, VII).
Neste sentido, considera que a soberania, comando ou domínio supremo é este poder e direito de comandar e consiste no facto de cada um dos cidadãos transferir todas as suas forças e poder para aquele indivíduo ou aquela assembleia. Uma transmissão que não significa mais do que a renúncia ao direito próprio de opôr resistência (V, XI). Porque em cada Estado perfeito... existe um chefe que tem um poder soberano... apesar do soberano não fazer tudo o que quer nem tudo o que sabe útil ao Estado, isso não deriva, todavia, de uma falta de direito (VI, XIII). Cfr. trad. fr. de Samuel Sorbière, Le Citoyen ou les Fondements de la Politique, Paris, Éditions Flammarion, 1982; 1ª ed. em latim, 1642, e 1ª ed. em inglês, 1651.