Eu comum Para Rousseaum o Estado resultante do contrato social é visto como "um corpo moral e colectivo composto por tantos membros quantos os votos da assembleia", é uma pessoa pública e uma pessoa moral, assumindo-se como uma espécie de eu comum: "tomava noutros tempos o nome de cidade e toma agora o de república ou de corpo político, o qual é chamado pelos seus membros Estado, quando é passivo, Soberano, quando e activo, Potência, ao compará‑lo aos seus semelhantes"

 

Eucken, Walter (1891‑1950) Membro destacado do ordoliberalismo.

·Die Grundlagen der National Okonomie

·Die Wittbewerhsordnung und ihre Verwicklichung

 

Eugenia. Do grego eu (bem) genan (gerar). Técnica biológica que procura levar a melhoria das qualidades raciais das futuras gerações (eugenia positiva) bem como pela eliminação dos factores que deterioram essas qualidades (eugenia negativa). Fundada pelo biólogo inglês F. Galton (1822-1911), inspirado no darwinismo e na lei de selecção natural. O modelo chegou a ser aplicado pelo nazismo, mas também as democracias ocidentais, como a sueca, cederam as essas tentações cientistas.

 

Euben, J. Peter, The Tragedy of Political Theory. The Road not Taken, Princeton, Princeton University Press, 1990.

 

Eulau, Heinz

·Political Behavior

Glencoe Free Press, 1956. Com S. J. Eldersveld e M. Janowitz. Eds..

·The Behavioral Persuasion in Politics

Nova York, Random House Publishers, 1963.

·Micro-Macro Political Analysis

Chicago, Aldine de Gruyter, 1969.

·Politics, Self and Society. A Theme and Variations

Cambridge Massachussetts, Harvard University Press, 1986.

·Political Science

Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1969. Com James G. March. Eds.

·Labyrinths of Democracy. Adaptations, Linkages, Representation and Policies in Urban Politics

Nova York, Bobbs Merrill Publishing Co., 1973.  Com Kenneth Prewitt.

·Technology and Civility. The Skill Revolution in Politics

Hoover Institution Press, 1977.

·The Politics of Representation

Newbury Park, Sage Publications, 1978. Com J. G. Wahlke.

·Lawyers in Politics. A Study in Profissional Convergence

Greenwood, 1984. Com John Sprague.

·Economic Conditions and Electoral Outcames. The United States and Western Europe

Aghaton Press, 1985.

·Politics, Self and Society. A Theme and Variations

Harvard University Press, 1986.

·Crossroads of Social Science. The ICPSR 25th Anniversary Volume

Agathon Press, 1989. Ed. .

·The Politics of Academic Culture. Foibles, Fables and Facts

Seven Bridges Press, 1997.

 

EurásiaìSpykman

 

Eurocomunismo Atitude política assumida por três partidos comunistas da Europa ocidental entre 1974 e 1977. Qualificativo inicialmente assumido por jornalistas, foi depois adoptado oficialmente pelos grupos em causa. Na base está a via lançada pelo PCI, a partir da direcção de Palmiro Togliatti, na sequência da desestalinização, quando assumiu o chamado policentrismo. Esta perspectiva foi depois desenvolvida por Enrico Berlinguer na sua tentativa de compromisso histórico com a democracia-cristã. Também o PCF dirigidopor  Waldeck Rochet, quando se lança na união de esquerda com o PS de Mitterrand, começa a lançar críticas a Moscovo e trata de abandonar oficialmente o princípio da ditadura do proletariado. Já o PCE dirigido por Santiago Carrillo, na transição para a democracia em Espanha se assume nessa linha, subscrevendo os pactos de Moncloa.

 

Europa. Os limites geográficos Não há, geograficamente falando, limites consensualizados para a Europa. Com efeito, os próprios geógrafos parecem não subscrever a célebre diatribe de Bismarck, para quem a geografia é a única verdade da Europa. O único consenso que, neste domínio, consegue atingir-se é o da consideração da Europa como uma península, como uma presqu'île, que, vinda da Ásia, se perde no mar, de maneira que a terra europeia se assume como o mais marítimo e o menos continental, de todas aquelas grandes ilhas do mundo a que se dá o nome de continente. E o consenso científico dos geógrafos parece vir de longe. Já ém 1725, Noblot qualificava a Europa como uma grande península, coisa que será posteriormente repetida. Assim, em 1816, Brun utiliza a expressão prolongamento da Ásia. Blanchard, em 1936, a refere como  península do vasto continente asiático. Coincidem aliás com aquele golpe de asa poético de Paul Valéry que, na sua La Crise de l'Esprit, de 1919, salientava que a Europa não passaria de um petit cap du continent asiatique, de uma  étroite presqu'île que ne figure sur le globe que comme appendice de l'Asie. Essa parte ocidental, acidentada, da península asiática, a que chamamos Europa Contrariando esta perspectiva, têm vindo alguns autores recentes a decretar fronteiras para o Leste Europeu. É o caso de Otto Molden que afasta da Europa a Ucrânia, a Bielorrúsia e Rússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos e de Krzystof  Pomian que fala num limite que passa a leste da Finlândia, dos países bálticos e da Polónia, que atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas, a Sérvia de um lado, a Croácia de outro, isto é, que remete para o outro lado, a igreja ortodoxa.  Otto Molden, em Die europãische Nation. Die neue Supermacht vom Atlantik bis zur Ukraine, Munique, Herbig, 1990, estabelece o limite leste da Europa numa linha que começa no Lago Peipous e passa pelos rios Pripet e pelo Dniester, abandonando os Urales, isto é, afasta da Europa, não só a Rússia, como também a Ucrânia e a Bielorússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos. Isto é, reconhece a Rússia como uma ásia com apêndice europeu. Krzystof Pomian, em L'Europe et ses Nations, Paris, Gallimard, 1990, diz que o limite oriental da Europa passa a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas: a Sérvia de um lado, a Croácia do outro. A significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado a igreja latina , do outro a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países. Qualquer um deles toma uma atitude paralela àqueles ocidentalistas que como Gonzague de Reynold, nos anos trinta, passou a considerar que depois da revolução russa, a fronteira da Europa recuou de novo para o centro desta; a Rússia tornou-se asiátrica, mesmo mais do que asiática, ela é a anti-Europa. Contudo, tanto a Comissão Europeia como o próprio Conselho da Europa, rejeitando as fórmula simples, têm preferido adoptar uma definição aberta da Europa. Em 1992, num documento sob o título A Europa e o desafio do alargamento, a Comissão vem considerar que a noção de Europa associa elementos geográficos, históricos e culturais que, todos, contribuem para forjar a identidade europeia, acrescentando que  a experiência comum, ligada à proximidade, o fundo comum de ideias e de valores e a interdependência histórica não podem resumir-se numa fórmula simples e o respectivo conteúdo é susceptível de mudar au gré das sucessivas gerações. Conclui, assim, que não é possível nem pertinente  fixar na hora actual as fronteiras da União europeia, cujos limites serão traçados num decurso de um período à venir de vários anos. Por seu lado, a assembleia parlamentar do Conselho da Europa, em 22 de Abril de 1992, quando abordou a integração de anteriores territórios da URSS, estabeleceu uma hierarquia entre eles: num primeiro grupo, incluiu os incontestavelmente europeus, as repúblicas bálticas, a Bielorrússia, a Moldava, a Rússia e a Ucrânia; num segundo grupo, constituído pelos Estados do Cáucaso, como a Arménia, o Azerbeijão e a Geórgia, já fala que o carácter europeu dos mesmo é mais duvidoso, para não ter dúvidas em considerar que o Casaquistão, a Quirguízia, o Tadjiquistão, o Turquemenistão e o Usbequistão, têm um carácter europeu dificilmente aceitável

 

Europa sem limites As realidades permanecentes da Europa são insusceptíveis de definição através da emissão de uma qualquer oração que dê uma noção completa de tal objecto. Primeiro, porque é materialmente imposível  de+finire Europa, estabelecer-lhe os limites, dar-lhe fins ou confins, fixar-lhe fronteiras, em suma, fechá-la. Depois, porque se torna inglório fixar-lhe uma essência, um centro a partir do qual possa traçar-se a linha separadora da não Europa. Diremos, como salienta Theodore Zeldin, que  a originalidade da Europa é não haver fronteiras. Acrescentaremos até que, da essência da Europa, faz parte não poder conceber-se qualquer espécie de essência da Europa. Julgamos pois que todas as definições axiomáticas da Europa não passam de exercícios interessantes, mas infrutíferos, quando não perigosos. Até porque nestes domínios, omnis definitio periculosa esta, sobretudo quando, sob o disfarce da lógica, se constróem pretensos primeiros princípios donde depois se ousa descer ex genere et differentia, pela dedução, estabelecendo-se um sistema hierarquizado de conceitos, um pretenso saber de ciência certa, seja a do magister dixit, seja o do decreto do poder absoluto que eventualmente o normalize. Digamos, como François Perroux, que a Europa é, definitivamente, uma Europe sans rivages, um objecto não identificado e não identificável, mas que, apesar disso, não deixa de ser bem real, epecialmente quando a olhamos de fora, com um pedacinho de senso comum, mesmo que envolto num não sei quê de nostalgia metafísica. Paul Valéry, em Regards sur le Monde Actuel, Paris, 1931, diz ter descoberto uma espécie de ideia virtual da Europa quando enfrentou os problemas da guerra do Japão contra a Rússia e dos Estados Unidos contra Cuba. Então terá percebido confusamente a existência de qualquer coisa que podia ser atingida e inquietada por tais acontecimentos. Encontrei-me sensibilizado em conjecturas que afectavam uma espécie de ideia virtual de Europa que ignorava trazer dentro de mim até então. Nunca tinha sonhado que existisse verdadeiramente uma Europa. Não procuremos, pois, aceder à Europa pelo essencialismo, pela definição de um conceito entendido como essência, donde, depois, poderá descer-se, dedutivamente, do axioma para o concreto, através de um rendilhado de definições. Fazer isto, é aceitar o eventual primeiro princípio da autoria de um qualquer mestre pensador e reconhecer autoridade aos proclamados discípulos do mesmo, só porque, eventualmente, têm o controlo do dicionário ideológico do supremo hierarca. A Europa só pode ser inventada, só a podemos desvelar pela inventio, pelo descobrimento, por uma ars inveniendi que a reconheça como problema e que a procure captar como sistema aberto. Só assim a poderemos compreender, vislumbrá-la como um todo, vendo cada parcela da mesma como dotada de uma realidade de sentido, mesmo que seja através daquela intuição imediata, com que um observador, dotado de senso comum, a pode identificar. Só depois, a poderemos introspectivar e reflectir, representando-a no nosso próprio espírito. E quem ousar pensar  a Europa, depressa chegará à conclusão que ela só pode ser entendida como contradição, senão mesmo como paradoxo, dada que a respectiva complexidade, apesar de tudo, tem a harmonia dos conjuntos marcados pela coordenação de elementos dispersos e não semelhantes, como concórdia dos discordes. Digamos, muito categoricamente, que a Europa, em termos de homogeneidade, não é uma realidade geográfica, não é uma realidade étnica, não é uma realidade histórica, não é uma realidade política, não é uma realidade geográfica, não é uma realidade jurídica,  não é uma realidade psicológica, nem sequer uma realidade cultural. Que, encarando-a, através de qualquer uma destas facetas nunca a encontraremos unidimensional, como um bloco monolítico.

 

Europa das nações  1960 Foi em 5 de Setembro de 1960 que o general De Gaulle lançou a ideia de uma Europa das nações em nome das realidades dos Estados existentes.  Para o chefe de Estado francês  importava actuar, não de acordo com os sonhos, mas sim em conformidade com as realidades, no sentido de construir a Europa, isto é, unificá-la, considerado um objectivo essencial. Nestes termos dissertava: Ora, quais são as realidades da Europa? Quais são os alicerces sobre os quais queremos construi-la? Na verdade, são os Estados que, de certo, são muito diferentes uns dos outros, que têm cada um a sua alma para si, a sua história para si, a sua língua para si, os seus infortúnios, as suas glórias, as suas ambições para si, mas Estados que são as únicas entidades que têm o direito de ordenar e a autoridade para agir. Fingir-se que pode construir-se qualquer coisa que seja eficaz para a acção e que seja aprovado pelos povos por fora e por cima dos Estados, é uma quimera. Seguramente, esperando qu'on a pris corps à corps e no seu conjunto o problema da Europa, é verdade que se pôde  instituir certos organismos mais ou menos extranacionais. estes organismos têm o seu valor técnico mas não têm nem podem ter autoridade e por conseguinte eficácia política.[1]

Defesa da cooperação política

Assim, propõe que se ultrapasse o problema pela instituição daquilo que qualifica como a cooperação política: assegurar a cooperação regular da Europa ocidental, é o que a França considera como sendo desejável, como sendo possível e como sendo prático no domínio político, no domínio cultural e no da defesa. Isso implica um concerto organizado e regular dos governos responsáveis e em seguida o trabalho de organismos especializados em cada um dos domínios comuns  e subordinados aos governos; isso implica a deliberação periódica de uma Assembleia que seja formada  pelos delegados dos Parlamentos nacionais e, em meu entender, isso deve implicar a mais cedo possível, um solene referendo europeu de maneira a dar a tal ponto de partida da Europa o carácter de adesão e de intervenção popular que lhe é indispensável[1].Conclui, assim, que se enveredarmos por esse caminho ... forjar-se-ão elos, adquirir-se-ão hábitos e, com o tempo, é possível que venham a dar-se outros passos para a unidade europeia.

 

Europa como confederação de naçõesO mesmo De Gaulle, numa conferência de imprensa de 31 de Dezembro de 1960,  proclama: nós faremos, em 1961, o que temos de fazer: ajudar a construir a Europa que, confederando as suas Nações, pode e deve ser para o bem dos homens a maior potência política, económica, militar e cultural que jamais existiu.Este mesmo De Gaulle, considerava num artigo de 1948 que A Europa deverá ser uma federação de povos livres.  Em Abril de 1962 considerará: Se a União Política não for instituída, que ficará do Mercado Comum?Não deixava, no entanto, de salientar em privado:  A Europa é um meio para a França tornar a ser o que era antes de Waterloo: a primeira no Mundo (Agosto de 1962).também, em privado, salientava em Setembro de 1962: o interesse egoísta da França é que a Alemanha continue dividida o mais tempo possível. Mas nisto não será eterno. Adenauer pensa-o, engana-se. O futuro vai desmenti-lo. A natureza das coisas será a mais forte. A Alemanha há-de reunificar-se.  Na mesma altura salientava que As únicas realidades internacionais são as nações. A Rússia secará o comunismo como o mata borrão seca a tinta.

 

Europa Una num Mundo Único

 

Lema da União Europeia dos Federalistas, constituída em Dezembro de 1946.

 

Europa. A mitologia e os símbolos Os rigores científicos da geografia não andam longe dos relatos mitológicos  de onde nos vieram tanto o nome Europa  como a obsidiante nostalgia pelo ventre materno asiático  e da própria poesia recriadora dos mitos, confirmando-se assim que a poesia, como dizia Aristóteles, pode ser mais verdadeira que a história. Segundo os relatos da Ilíada e da Odisseia,  o chefe dos deuses, Zeus, é qualificado como o euruopé, como aquele que tem  olhar amplo ou que olha para longe ( eurus quer dizer amplo ou vasto  e ops quer dizer olhar).  A Europa aparece pois, etimologicamente, como a região do largo horizonte. Para uns, a Europa seria uma das três mil filhas de Oceano e de Tethis, as ninfas do mar ou oceânides, conforme a referência de Hesíodo, no verso 357 da Teogonia. Para outros,  uma princesa fenícia, filha de Agenor, rei de Tiro, que foi amada por Zeus, rei dos Deuses; este, disfarçado de touro, raptou a princesa, levando-a, das praias de Tiro, para a ilha de Creta, onde retomou a forma primitiva; depois, transformou o touro em constelação que colocou entre os signos do zodíaco. O português António Sardinha, retomando o episódio, escreveu o poema Roubo da Europa, onde coloca a princesa fenícia nos penhascos do Ocidente, dando à luz um moço a quem chamaste Portugal. Noutro poema, sobre a mesma temática, intitulado Cabo da Roca, diz-nos: Aqui acaba toda a terra antiga,/começa aqui a tentação do mar./ Europa - ainda era rapariga -,/ Sentou-se aqui um dia a descansar./ Vinha de longe, andando com fadiga,/ vinha de longe, andando sem parar.../ Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga,/ logo pensou Europa em se casar./ / Pediu-a p'ra mulher o Padre-Oceano./ Entre sereias, conchas e golfinhos,/ as ondas lhe bordaram o enxoval.// E quando o noivo a recebeu, ufano,/ nestes penhascos rústicos, sòzinhos,/ deram os dois o ser a Portugal.A este respeito, importa observar que todas estas lendas gregas eram geradas quando apenas se conheciam seguramente as bordas do Medirrâneo, mar onde se casavam os três continentes conhecidos, todos com o nome de mulher: a Ásia, considerada a esposa de Prometeu, a Líbia, nome que então se dava à África, e a Europa. Também a patrística cristã de São Jerónimo (346-420) e de Santo Ambrósio (n. 340), continuada por Paulo Orósio e Santo Isidoro de Sevilha, invocam o mito bíblico de Japhet, filho de Noé, a quem teria cabido, em partilha, a Europa, enquanto para Sem e Chgam, teriam ficado a Ásia e a África. O mar Eis, portanto, a Europa como aquele sítio onde a terra acaba e o mar começa, conforme dizia Camões, sobre Portugal. Onde acaba toda a terra antiga e começa ... a tentação do mar, utilizando agora António Sardinha. Eis uma Europa que nasceu e cresceu à volta do mar, como observa Bernard Voyenne. Segundo as palavras deste último autor, esta península das tormentas, ramificada até ao infinito, é na verdade o lugar mais banhado que há no mundo: um quilómetro de costa  para dois mil quatrocentos e vinte e nove quilómetros quadrados de terras. Por todo o lado, a água se insinua,  vai subindo em largos estuários e fiordes, bordeja ilhas e ilhéus litorais. Nenhuma distância face ao mar excede mil quilómetros e na maior parte dos casos essa distância é bem menos (mesmo a Suíça, um país que passa por continental, está a menos de seiscentos quilómetros do oceano e a trezemtos do Adriático). A Europa nasceu e cresceu à volta do mar; expandiu-se a bordo de um oceano...

 

Os símbolos europeus

Foi misturando o azul do mar, o futurismo romântico, resquícios da mitologia e algum cabalismo, que, neste nosso tempo de ciência e racionalidade, mas depois do apocalipse e à beira de um novo e mais doloroso apocalipse, se estabeleceram os panteístas e profetistas símbolos da Europa, desde a bandeira da Europa, em 1955, com um diadema de doze estrelas sobre um fundo azul, ao próprio hino, em 1972, retirado da Ode à Alegria de Ludwig van Beethoven. Hoje a Europa tem uma bandeira azul, com uma coroa de doze estrelas, não uma estrela por Estado, mas o emblemático número doze, considerado símbolo da plenitude e da perfeição, como doze eram os filhos de Jacob, os trabalhos de Hércules, os signos do zodíaco, os meses do ano, os apóstolos ou a  romana lei das doze tábuas. Doze estrelas, como as da auréola de uma Virgem que aparece no vitral da catedral de Estrasburgo, uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, tendo uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (et in capite eius corona stellarum duodecim)... Tudo muito conforme, aliás, com  o capítulo XII do Apocalipse de S. João. Compare-se o que a respeito escreve o nosso Padre António Vieira, onde se fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com ceptro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde acabará por assentar-se no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num cavalo branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa  rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os os falsos profetas que o seguem. Interpretando tal passagem,  António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da  Igreja do Quinto Império, onde se descreve  a maniera da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado. Tratar-se-ia da  procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo. Porque só então chegará o corpo místico de que fala São Paulo, com Cristo a nascer de novo. O tal Filho, que tem  o trono no Céu, tal como a Igreja tem uma coroa na terra.

Europa-hegemonia do mais forte e consentimento dos outros,70,464

Europa-integração política,70,465

Europa-transferência de lealdades,70,465

 

A Europa e os seus Fantasmas , 1945 Obra de João Ameal que reflecte as indecisões ideológicas de um dos pensadores do salazarismo que, partindo de bases neotomistas, citando personalistas e maritainistas, não dá o salto para a defesa da democracia. Criticando a heresia liberal ainda procura no corporativismo uma idade nova.

 

A Europa em Formação , 1977 Obra de Adriano Moreira (Lisboa, Sociedade de Geografia, 1977) (dissertação de doutoramento em Direito apresentada na Universidade Complutense de Madrid). A obra está assim dividida:

·Introdução (a plataforma ocidental, a formação do Euromundo, o processo de recuo, a descentralização e a separação);

·cap. I - Os critérios da unidade (as afinidades laicas; os critérios da reorganização);

·cap. II - O espaço europeu (história do presente, os modelos, o europeísmo);

·cap. III - A organização do espaço (os apelos, a Europa militar, a Europa política, a Europa económica);

·cap. IV - A Europa em formação (a política das fronteiras, a conjuntura internacional portuguesa).

 

Europeísmo

 

Europeísmo totalitário

A ideia da Europa nos anos trinta penetrou de tal maneira no limiar da política que os próprios totalitarismos de então não deixaram de a instrumentalizar. É conhecido o projecto de Lenine de uns Estados Unidos Operários da Europa, numa estratégia que pretendia encontrar para a revolução bolchevique imediatos aliados ocidentais, nomeadamente pelo projecto de apoio à revolta comunista na Alemanha e a consequente extensão do incêndio da revolução mundial a Paris coisa que apenas foi impedida pela vitória dos polacos na batalha do Vístula.

Da mesma forma, Adolfo Hitler quase conseguiu, pela repressão, pela propaganda e pela conquista, constituir uma unificação europeia. Para as teses nazis, o Grossesdeutsches Reich deveria constituir um grande espaço com um Estado director, reunindo todos os povos de língua alemã.

Em primeiro lugar, deveria adquirir espaço vital, estendendo as fronteiras para Leste, onde deveriam situar-se os limites de um novo império, onde soldados-colonos deteriam os bárbaros vindos das estepes. Em segundo lugar, viriam os aliados, como os escandinavos, os holandeses e os ingleses. Em terceiro lugar, os satélites, como os latinos, os húngaros e os gregos. Finalmente, os eslavos pertenceriam à categoria de escravos e os judeus teriam de ser exterminados.

Como dizia Goering, em 1943, nessa altura o continente estaria maduro para a união política, união que conservaria as autonomias regionais e adoptaria um plano comum de cooperação colonial em África. Chegava mesmo a acrescentar: mesmo se nós perdermos a guerra, na minha opinião, é este o futuro da Europa e nada impedirá que ele se cumpra.

Na prática, a expansão hitleriana quase correspondeu a essa teoria, chegando a construir-se um Império continental bem mais extenso que o de Napoleão.

Primeiro, começou por estender-se às zonas alemãs. Em 12 de março de 1938 é a Anschluss da Áustria. Na Conferência de Munique de 29 e 30 de Setembro seguintes, garante a integração dos Sudetas. E em Março de 1939, já é eliminada a Checoslováquia.

Segundo, estabeleceu um contrato de seguro com o estalinismo gestor da Rússia, o pacto germano-soviético de 24 de Agosto de 1939.

Finalmente, a guerra, que começa com a invasão da Polónia, no dia 1 de Setembro de 1939. A ocidente, vão caindo a Holanda, a Bélgica e a França; a norte, a Dinamarca e a Noruega; a sul, a Jugoslávia e a Grécia; em direcção ao centro, a Checoslováquia e a Áustria; a Leste, os países bálticos e a Polónia.

Tem como aliados a Hungria, a Roménia e a Bulgária. A Itália é um parceiro. A Espanha e a Finlândia são amigos. Portugal depende do que acontecer com Espanha. A Suécia e a Suíça assumem a neutralidade. A própria Rússia parecia subjugada e Hitler chega a ir mais longe do que Napoleão quando se lança no Cáucaso.

O modelo organizatório do Estado director divide a Checoslováquia entre um Estado eslovaco e um Protectorado da Boémia-Morávia. Na Jugoslávia, é criado um Estado croata, incluindo a Bósnia, que vai ser gerido por Ante Pavelitch.

O elemento mobilizador desse grande espaço político passou a ser a luta contra o comunismo: é preciso fazer a Europa contra o bolchevismo, foi o signo mobilizador que fez chamar à campanha da Rússia inúmeros voluntários de vários países europeus que se aliaram à ofensiva nazi. Passou então a falar-se numa Europa Nova e numa ordem nova. Goebbels, o principal expoente de toda esta propaganda, declarava então : não será a primeira vez na história que a Europa comungará das mesmas concepções políticas, morais, sociais e económicas. Um povo de senhores (Herrenvolk) está prestes a construir uma Europa de vassalos (Untermenschen).

Em Maio de 1943, Hitler confessava a Goebbels: qualquer desordem dos pequenos Estados que ainda existem na Europa deve ser liquidada tão depressa quanto possível. O objectivo da nossa luta deve ser criar uma Europa unificada. Os alemães, sozinhos, podem realmente organizar a Europa.

Aliás, foi reagindo contra esta mobilização que o grande escritor alemão Thomas Mann, numa comunicação aos europeus, feita na Rádio Nova Iorque, em Janeiro de 1943, considerou: o grande ideal da Europa foi pervertido e corrompido de maneira horrível; caiu nas mãos do nazismo que, há dez anos, conquistou a Alemanha e conseguiu, por causa da vossa desunião, subjugar todo o continente. Esta conquista do continente é apresentada pelos nazis como a unificação da Europa, como a "ordem nova", conforme as leis da história. De todas as mentiras de Hitler, a mais insolente é a mentira europeia, a perversão da ideia europeia... Ficai sabendo, ouvintes europeus ... a verdadeira Europa será criada por vocês mesmos, com a ajuda das potências livres.

O europeísmo constituía, aliás, um dos elementos estruturantes do romantismo fascista francês. Pierre Drieu La Rochelle advogava já em 1921, em Mesure de la France que a era das alianças está aberta sem que o papel das pátrias tenha terminado, preocupando-o a circunstância dos russos serem 150 milhões e dos americanos rondarem os 120 milhões. Assim, considerava que a Europa se federará ou então se devorará ou será devorada. E as gerações da guerra, que não parecem por aí caminharem, farão isso ou então será tarde demais.

Cerca de um lustro depois, em Genève ou Mouscou, de 1927, já propunha um patriotismo europeu contra o nacionalismo, proclamando a necessidade de se ultrapassar o esgotamento espiritual das pátrias, necessidade de se criar uma vasta autarquia económica à medida de um continente.

Em 1931 escreve Europe contre les Patries, temendo uma Europa central e oriental atormentada pelo inacabamento das suas formas temendo a guerra. Em 1934 chega mesmo a dizer: a minha fé na Sociedade das Nações, afirmava-se maior do que nunca. Hoje, en dépit des traverses, permanece. Espero as metamorfoses da ideia. Em 1940 que agora é preciso entrar no federalismo e pôr fim ao nacionalismo integral e ao autonomismo patriótico.

Alphonse de Chateaubriant numa carta de 28 de Novembro de 1918 dizia: o futuro da Europa é muito sombrio, mas, custe o que custar, caminhamos para uma "Europa una", cada vez mais "una".

Robert Brasillach, falando na Europa como o velho cabo da Europa, donde partiu, há três mil anos a civilização branca, defendia o colaboracionismo em nome da necessária aliança franco-alemã: sem a França indestrutível e a Alemanha indestrutível, nenhuma paz poderá jamais estabelecer-se na Europa. Se tentarem aniquilar uma ou outra, os germes da guerra renascerão sempre. Não apenas a Alemanha é as única potência no mundo que pode hoje barrar o caminho à revolução marxista, quer isto nos agrade ou não, mas, para além deste facto, a Alemanha está no centro da Europa e aí ficará sempre: sem a sua força nada é, portanto, possível.

Com efeito, entre os fascistas autênticos surgiu um europeísmo, entendido como um grande nacionalismo, numa Europa entendida como uma grande pátria. Como expressivamente referia Drieu, sempre fui um nacionalista que a ele renunciou em nome da Europa, um filósofo da força que acreditou cada vez mais na utilidade da força entre os europeus.

Esta perspectiva manteve-se no próprio neofascismo, destacando-se Jean Thiriart a teorizar uma Nação‑Europa que deveria ter direito a um Estado‑Europa. Este autor, reagindo contra a pátria‑hábito (v.g. a Bélgica), a pátria‑recordação (v.g. a Alemanha) e a pátria‑herança (v.g.a França), vem defender que a única verdadeira pátria é aquela que pensa no devir, isto é, uma pátria de expansão, chegando a definir-se como um nacional‑bolchevique pan‑europeu, ao serviço de um comunismo liberto de Marx, e propondo a necessária passagem dos Estados‑territoriais para os Estados‑continentais.

Criticando a ideia gaullista de Europa das Pátrias, considerada como uma junção momentânea e precária de rancores e fraquezas, proclamava um nacionalismo europeu que pudesse enfrentar os nacionalismos russo e americano, considerando que a Europa deve ser unitária: uma Europa confederada ou Europa das pátrias são concepções onde a imprecisão e a complicação escondem a custo a falta de sinceridade ou a senilidade dos que as defendem e dissimulam os seus propósitos e os seus cálculos.

Para o mesmo Thiriart, a Europa confederada é a forma das alianças clássicas e dos preconceitos tão clássicos como desonestos ... é a Europa aberta às influências estrangeiras.

Mas se considera que a fórmula federal constitui um grande progresso, ainda contém em germe a possibilidade de cisões ou, pelo menos, de crises internas. Teria de ser mero estádio preparatório da Europa unitária. É que a fórmula confederal é o cálculo e preconceito; a fórmula federal é a confusão; a forma unitária é o método, a ordem, a clareza, a diferença que faz a concubinagem, o noivado e o casamento.

 

 

 

 

 

Europeísmo da resistência e o nazi-fascismo invocou o europeísmo, eis que os movimentos de resistência não deixaram também de manifestar uma forte corrente de unidade europeia de cariz federalista, principalmente na França, na Bélgica e na Holanda.

Os precursores do movimento foram os antifascistas italianos Altiero Spinelli (1907-1986) e Ernesto Rossi, que, presos em Ventotene, nas ilhas Lipari, haviam fundado clandestinamente, em Junho de 1941, um movimento europeísta, autor do chamado Manifesto de Ventotene que reclamava uma constituição europeia elaborada por uma assembleia europeia a ser ratificada pelos parlamentos nacionais.

Este grupo, já depois da queda de Mussolini, vai criar em Milão, em Agosto de 1943, o Movimento Federalista Europeo, cujo programa propõe a criação de uma Federação europeia para a qual sejam transferidos poderes soberanos que digam respeito aos interesses comuns de todos os Europeus, salientando também que os habitantes dos diferentes Estados devem possuir a cidadania europeia, devem, portanto, ter o direito de escolher e de controlar os governantes federais e de controlar os governos federais e de ser submetidos directamente às leis federais.

A resistência francesa advogava também o europeísmo, chegando mesmo a reclamar uns Estados Unidos da Europa, ideia que era partilhada por vários jornais, dos quaisa se destaca Combat, fundado em 1941, onde vão colaborar vários europeístas, como Henri Frenay, Georges Bidault, Albert Camus, Pierre-Henri Teitgen, Edmond Michelet e François de Menthon. É este jornal que vem proclamar que os Estados Unidos da Europa serão em breve uma realidade viva, pela qual combatemos (Setembro de 1942), considerando a resistência, como a esperança da Europa, o cimento das uniões de amanhã (editorial de Dezembro de 1943).

Depois de várias reuniões de resistentes ocorridas desde Março de 1944, eis que em Julho desse mesmo ano surgia, a partir de Genebra, a Declaração das Resistências Europeias, sob o título A Europa de Amanhã, subscrita por delegados vindos da França, da Itália, da Alemanha, da Holanda, da Dinamarca, da Noruega, da Polónia e da Checoslováquia, onde se adoptavam os princípios da Carta do Atlântico.

 Aí se observava que os fins morais, sociais, económicos e políticos que os uniam na resistência ao nazismo não podem ser atingidos salvo se os diversos países do mundo aceitarem ultrapassar o dogma da soberania absoluta dos Estados integrando-se numa única organização federal. A paz europeia é a pedra angular da paz do mundo. Com efeito, no espaço de uma só geração, a Europa foi o epicentro de dois conflitos mundiais que tiveram, antes de mais, por origem a existência sobre este Continente de trinta Estados soberanos. É necessário remediar esta anarquia pela criação de uma União Federal entre os povos europeus.

Os signatários acrescentavam que a vida dos povos que representam deve ser fundada no respeito pela pessoa, a segurança, a justiça social, a utilização integral dos recursos económicos em benefício da colectividade globalmente considerada e no desabrochar autónomo da vida nacional. Estes fins não podem ser atingidos a não cerque os diversos países do mundo aceitem ultrapassar o dogma da soberania absoluta dos Estados, integrando-se numa única organização federal.

Dentro da própria Alemanha, a resistência ao nazismo também se alimentava do europeísmo. Carl Friedrich Gördeler, numa memória secreta, de Março de 1943, considerava: Unificação da Europa com base em Estados europeus independentes; esta unificação efectuar-se-á por etapas! Uma união económica europeia, com um conselho económico com sede permanente, será imediatamente criada. A unificação política não precederá, mas seguir-se-á à união económica. Também na universidade de Munique, sob o impulso do Professor Huber, surgia o movimento Rosa Branca, que propunha a estruturação federal da Alemanha e da Europa. Em Fevereiro de 1943 este movimento chegou a promover uma manifestação de estudantes. Serão executados os líderes desse movimento, os irmãos Hans e Sophie Scholl

 

Eusébio de Cesareia ~263-~340 Teólogo e apologeta cristão. O primeiro cronista ou arquivista da Igreja. Natural da Palestina, torna-se bispo de Cesareia.

 

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