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1888
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Da publicação de Os Maias à emergência dos Vencidos da Vida
(Ver Arquivo antigo do anuário CEPP
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Teófilo Braga – Em eleição
suplementar, surge em Lisboa um terceiro deputado republicano (25 de Fevereiro).
Oliveira Martins, instalado em
Lisboa, depois de aceitar, de Mariano de Carvalho, um tacho na
administração dos Tabacos, passa a dirigir O Repórter, onde escreve
diariamente, um comentário doutrinal (21 de Janeiro). Apresenta um projecto de
lei do fomento rural em 27 de Abril que, depois, editará autonomamente,
constituindo uma espécie de programa do frustrado ministério da agricultura que
Emídio Navarro bloqueara e que será mais um projecto por cumprir,
para usarmos o título do prefácio à reedição do mesmo, A Política Agrícola de
Oliveira Martins, Lisboa, Secretaria-Geral do Ministério da Agricultura,
Pescas e Alimentação, 1987, mas que não consta do que saiu dos prelos, porque um
hierarca, adjunto do ministro Álvaro Barreto, decidiu excluir o texto da nossa
autoria, talvez porque, pouco antes, tínhamos sido candidato a deputado contra o
mesmo ministro pelo círculo de Beja. Na altura, comemorando o centenário do
evento, procurávamos levar o ministério a compensar a fúria tecnocrática que
marcava a provinciana integração na CEE, com a instauração de um museu agrícola.
Uma nova Idade Média –
Parece que estamos num período análogo ao da dissolução do mundo romano, ao qual
se deve seguir uma nova Idade Média. Quem sabe o que sairá dela, quando lhe soar
a hora da sua Renascença? E talvez que só então valham e tenham utilidade de
aplicação as doutrinas dos filósofos e publicistas de hoje. Foi assim que muitas
ideias de Aristóteles e dos Estóicos só se vieram a realizar e a adquirir valor
social no século XV e XVII! (Antero de Quental, em carta dirigida a Fernando
Leal)
Portaria proíbe todas as
associações secretas. Nunca será aplicada e servirá para os católicos a
invocarem, sempre que os governos liberais vierem a insistir na faceta
anti-congreganista de outras leis (27 de Fevereiro).
Reformas e oposições – Em
Janeiro, o governo apresenta proposta para a resolução da questão dos tabacos e
para a reforma da Carta Constitucional. Esta última é fortemente contestada,
surgindo vários tumultos, com 16 mortos e 50 feridos, o que leva o governo a
recuar. Em Junho, há um acordo entre o governo e os regeneradores, depois de
alguns deputados desta força, agora oposicionista, terem promovido sucessivas
arruaças parlamentares contra José Luciano, com destaque para João Franco, José
de Azevedo Castelo Branco e João Arroio.
Arroio revoga decisão irevogável –
Assume particular virulência a sessão de 15 de Maio, numa cena onde João
Arroio é o figurante principal, com várias carteiras partidas, dentro do
habitual batuque. No dia seguinte, o líder parlamentar regenerador, Lopo Vaz,
chega a acordo com os lucianistas, desautorizando Arroio, que sai do parlamento
a chorar. No dia 18, pede a demissão do partido, considerando tal decisão
irrevogável. Menos de uma semana depois volta atrás, sendo alvo de chacota
generalizada.
Caudilhos a mais – Temos o
sr. Serpa e o sr. Lopo Vaz mikado e taikum do Japão regenerador; temos o sr.
Hintze Ribeiro mais ou menos rebelde, insurgindo-se contra o poder usurpado pelo
shogun; temos o sr. Barjona que forma um bando àparte, namorando com um sorriso
búdico os diversos lamas que pisam o templo sagrado: o sr. Manuel Vaz, o sr.
Marçal Pacheco, o sr. Tomás Ribeiro, no porto-franco, e o sr. Dias Ferreira no
seu voluntário isolamento. São pelo menos oito caudilhos, com ou sem milícia
mais ou menos japonesa (Oliveira Martins, em 21 de Março).
Futebol – Realiza-se a primeira
experiência de foot ball em Cascais (Outubro).
Remodelações – Em 13 de Julho:
Barros Gomes na marinha.
Em 15 de Novembro: José Joaquim Gomes
de Castro na guerra, em lugar do visconde de S. Januário.
Oportunismo político – Hoje
a política é essencialmente oportunista; há "questões", não há "programas"; e
portanto os indivíduos agregam-se e desagregam-se, para se agregarem e
desagregarem (Oliveira Martins, em 7 de Março).
O descrédito da política: a
vitória completa da democracia que, ampliando o exercício do governo ao comum
dos cidadãos, fez baixar necessariamente o nível individual dos governantes.
Assim, não há nas democracias homem menos respeitado, nem mais influente, do
que o político (19 de Janeiro).
Evolução do Parlamento. De Sala a
Café: com o sufrágio universal e o rebaixamento constante do nível
político, os parlamentos perderam o carácter se salas ou câmaras, onde se
discute cortesmente, embora violentamente por vezes, para tomarem o carácter de
clubes ou cafés onde se injuria e se troça (24 de Janeiro).
Partidos: os partidos nascem
espontaneamente das convicções dos povos: não se inventam (26 de Janeiro).
Intervenção da Coroa em nome da
salvação pública: quando os partidos constituídos se mostram impotentes,
por vezes o chefe de Estado cria um simulacro de partido, nomeando um governo
eclético. E não é raro também que esse governo, radicando-se, se torne a origem
de um verdadeiro partido. Mas este processo, para ser eficaz, requer duas
condições difíceis: uma é o acerto da escolha, outra que os escolhidos dêem, ou
possam dar, boa conta de si. Não correspondendo à expectativa, legítima ou
infundada, é indiferente para o caso, o povo lança a responsabilidade sobre a
coroa. Aí está o perigo (27 de Janeiro).
Ler nas entrelinhas:
a manifestação política mais compungente e desanimadoramente sintomática
desta monção achavascada em que há muito navegamos, é o prurido de encontrar em
tudo quanto se diz uma segunda intenção. Tanto queremos ler entre linhas, que
treslemos. Perdeu-se a noção comezinha de que também se pode falar para se dizer
o que se pensa, pacatamente, sinceramente, à boa-razão? (29 de Janeiro).
O Parlamentarismo é Aristocrático
e não convém à Democracia: desde que a democratização de um povo se
democratiza, ao parlamentarismo há-de suceder um tipo diverso de governo, tipo
de que os Estados-Unidos e a Alemanha propõem duas espécies de rudimentos (2
de Março).
O incidente, o precedente e o chinfrim:
amanhã haverá novos chinfrins, e de arruaça em arruaça, de degrau em degrau,
ir-se-á rolando, ir-se-á descendo, se porventura é possível descer mais baixo
ainda no conceito do país que não é político (16 de Março). No dia seguinte
proclama que a oposição desespera-se, o ministerialismo esfrega as mãos de
contente; mas o verdadeiro patriotismo lamenta.
Contra a verborreia parlamentar:
a palavra só é um instrumento abençoado quando esclarece. Quando chicaneia é
nefasta. Quando arrebata, domina. Reclama o fim deste sonolento reinado
da frase tão rotunda como vazia (2 de Maio). Porque o parlamentarismo
principiou por ser uma invenção de letrados, passou a ser uma mistificação de
políticos, e hoje é o que se vê (18 de Julho).
Da fraqueza à violência –
No dia 19, analisando em novo artigo A abstenção
forçada dos melhores, fala na caducidade as formas vigentes do governo
representativo, concluindo: Deus queira que por este caminho da fraqueza
não tenhamos de chegar à solução fatal da violência, ou à solução mais triste
ainda do estiolamento.
Reformas necessárias:
De 25 a 28, uma série de artigos sobre a Reforma das
instituições representativas, onde considera que chegando-se pelo cansaço
a um verdadeiro beco sem saída, o governo vê-se forçado a transformar-se também
numa ditadura em que o artifício substitui a franqueza; e desta dupla
mistificação do legislativo e do executivo resulta o descrédito universal das
instituições. E isto porque a nossa constituição é inglesa (de
ponderação de interesses e classes sociais), e todo o mal está em lhe
termos introduzido cunhas sobre cunhas de francesismo.
& Leite, José Guilherme Reis Leite (1995); Martins, Joaquim Pedro d'Oliveira Dispersos I (1924): 13, 24, 35, 39, 47, 69, 72, 73, 80, 81, 91, 93, 98, 137, 138, 148; Paixão, Braga (II, 1968): 89, 95; Quental, Antero de (Textos Doutrinários...): 319; Rego, Silva (1966): 280, 320, 346.