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Conspiração da Shell, ocupação de Timor e publicação das obras de Fernando Pessoa
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Guerra
– No ano em que o Brasil entra na guerra, Humberto Delgado parte para
Londres para missão secreta junto do Quartel-General da RAF (29 de Janeiro).
Encontro entre Salazar e Franco, em Sevilha (12 de Fevereiro). Japoneses ocupam
Timor (20 de Fevereiro). Discurso de Salazar na Assembleia Nacional sobre a
matéria (21 de Fevereiro). Governo português protesta em Londres contra a
severidade com que os Aliados mantêm o bloqueio económico a Portugal, invocando
a circunstância de se manterem relações com ambos os lados do conflito (31 de
Marco). Elementos da oposição apoiam a posição de Salazar quanto à guerra.
Norton de Matos intervém sobre a questão ultramarina e Armando Marques Guedes
defende a cooperação entre patrões e operários em nome da devoção patriótica
(Março). Salazar discursa, na Emissora Nacional, sobre a política de defesa:
defesa económica, defesa moral, defesa política
(25 de Junho). Critica ambos os lados no conflito, nomeadamente os
regimes demo-liberais, por se terem aliado com a URSS. Brasil entra na guerra ao
lado dos Aliados (22 de Agosto).
Eleições
presidenciais (8 de Fevereiro). Reeleito Carmona, sem candidato alternativo.
Na véspera, através da Emissora Nacional, Salazar faz uma comunicação ao país
apelando ao voto no candidato único. 90,7% dos votantes.
Conspiração
da Shell. Em Março é desmantelada uma organização secreta de inspiração
britânica, que pretende a criação de um rede de anglófilos, ligada a quadros da
companhia Shell e aos serviços ingleses de propaganda. Visa enfrentar uma
eventual invasão alemã (Março). Entre os detidos, Cândido de Oliveira, fundador
de A Bola, e o médico oposicionista de Coimbra, Ferreira da Costa, que
serão presos no Tarrafal. Salazar protesta junto do embaixador britânico que
considera a estrutura limitada e modesta. A embaixada alemã espalha um boato
segundo o qual a mesma visar derrubar Salazar facilitando o desembarque dos
aliados nos Açores. Entre os elementos mobilizados pelos serviços secretos
britânicos, há um jovem engraxador no Terreiro do Paço que se há-de tornar,
depois da guerra, um dos maiores contrabandistas de tabaco na Europa e um dos
principais apoiantes de certas actividades do reviralho em Portugal nos anos
cinquenta, recuperando alguma da memória carbonária.
Comunistas
– O médico comunista Ferreira Soares é assassinado em sua casa por tiros de
metralhadora (4 de Julho). A PVDE é acusada de tal acção. No Tarrafal, morre
Bento Gonçalves, de biliose, em Setembro. São, entretanto, presos os dirigentes
comunistas Militão Ribeiro, Pires Jorge e Pedro Soares. Segundo Mário Soares,
caloiro de Letras, que, então, se iniciar no partido, dependente
hierarquicamente de Jorge Borges de Macedo, 1942 foi o
ano heróico em que a União Soviética, à custa de prodígios de tenacidade e
valentia, suportava quase só o peso da ofensiva nazi. O momento era de euforia,
da grande aliança das forças do progresso, com Staline transformado, graças à
confiança de Roosevelt, no "unbcle Joe" de patriarcal bonomia – o popular "Zé
dos bigodes". Era para mim um mundo harmonioso de fraternidade democrática e
antifascista que todos apontávamos.
Greves
– Em Outubro, greve trabalhadores da Carris, da construção naval (Companhia
Nacional de Navegação) e dos estivadores, numa acção que se estende até ao mês
de Novembro e alastra a outros sectores, nomeadamente à CUF do Barreiro. Terão
participado cerca de 20 000 trabalhadores. Protestos contra a carestia de vida e
a falta de liberdade sindical, bem como contra a corrupção dos organismos
corporativos. Reunião do Conselho de Ministros sobre a agitação grevista em 3 de
Novembro. Emitida nota oficiosa onde se invoca a necessidade de uma vida
ordeira e da disciplina social, criticando-se os agitadores
profissionais a soldo de Moscovo.
Realiza-se no Coliseu dos Recreios uma sessão dos sindicatos nacionais. Salazar
discursa sobre o corporativismo e os trabalhadores
(23 de Julho).
Eleição nº 55 da Assembleia
Nacional. 90 deputados. 772 578 eleitores. 668 785 votantes. 86,6% dos
votantes a favor da lista única (Novembro).
Núcleo
de Acção e Doutrinação Socialista Surge em Lisboa, visando a divulgação
dos ideais do socialismo (Dezembro).
Trata-se de um grupo de estudantes universitários que, em 1944, há-de
integrar-se na União Socialista. Entre os fundadores de 1942, José Magalhães
Godinho, Vitorino Magalhães Godinho, Afonso Costa Filho, Mário de Castro,
Gustavo Soromenho, António Macedo, Mário Cal Brandão, Artur Santos Silva, Paulo
Quintela, José Joaquim Teixeira Ribeiro e Fernandes Martins. De assinalar que
parte desse grupo é filho de anteriores dirigentes da esquerda republicana.
Católicos
– António Sousa Gomes, na revista Estudos do CADC, invoca as
perspectivas do personalismo de Emmanuel Mounier, Étienne Borne e Jean Lacroix e
começa a citar François Perroux e maritainistas.
Monárquicos
– A Nação é diversa, diversos corpos a formam; o Estado é uno, e a sua
função máxima consiste em unificar os vários corpos de que a Nação se compõe. E
não seria nunca o Estado esse necessário unificante se também ele fosse
colectivo, quer dizer, se também ele se encontrasse repartido, em si mesmo
acalentando um constante princípio de divisão. A Nação corporativa não é o
Estado... Confundindo corporativamente a Nação e o Estado, o interesse nacional
pronto se verá sacrificado à voracidade dos egoísmos profissionais. As
Corporações serão então o Estado. E ao abandonarem assim as suas funções
naturais de produtores da riqueza para exercer as de administradores políticos
da Cidade, esses Corpos ordenados lançam-se me preservante guerra uns com os
outros, na insofrida concorrência a que, à custa da Nação, todos se entregam
para a conquista dos maiores lucros (Luís de Almeida Braga).