Devorismo
O
novo status in statu – A partir da Convenção de Évora Monte
de 1834 começa verdadeiramente em Portugal a instalação do demo-liberalismo,
demonstrando-se como todas as revoluções portuguesas são sempre pós-revolucionárias.
O cartismo depois do vintismo, o fontismo depois da regeneração, os bonzos de Afonso
Costa depois do 5 de Outubro de Machado Santos, o situacionismo
salazarista depois do 28 de Maio de Gomes da Costa, e até o soarismo
e o cavaquismo depois dos cravos de Abril de Salgueiro Maia e Otelo
Saraiva de Carvalho. E no day after do novo regime, há sempre,
segundo as célebres palavras de Garrett, um barão usurariamente revolucionário
e revolucionariamente usurário, o tal barão que mordeu no frade,
devorou- ... e escouceou-nos a nós depois. Há sempre a criação de
uma nova aristocracia pós-revolucionária, de um novo estado dentro
do Estado que tende a assentar numa espécie de comunismo burocrático em
aliança com uma emergente oligarquia financeira. Como dizia o
mesmo Garrett, por mais teorias que se façam, por mais perfeitas constituições
com que se comece, o “status in statu” forma-se logo: ou com frades,
ou com barões, ou com pedreiros-livres se vai pouco a pouco organizando
uma influência distinta, quando não contrária, às influências manifestas
e aparentes do grande corpo social.
A
família dos políticos – Com efeito, todos os nossos impulsos revolucionários
geram sempre uma casta banco-burocrática pós-revolucionária aliada
a uma certa família de políticos, baseada numa gregação de
clientelas. Porque, como, depois, vai reconhecer Sá da
Bandeira, nunca pode haver ministros bons; e porquê? Porque os
ministros são seis e os pretendentes seis mil. E durante mais de
cem anos, os próprios partidos dependem de um batalhão, dado que
a tropa funciona como uma parte armada das clientelas, quase se
transformando em bandos armados apoiados por um periódico.
Na verdade, tais partidos demo-liberais formam-se, sobretudo, por influência
militar, mas sempre com o apoio das maçonarias, que actuam no subsolo
da política aparente. Só depois da estabilidade é que vêm as influências
cortesãs, parlamentares e jornalísticas, também apoiadas infra-estruturalmente
pelas várias lojas maçónicas que, transformadas em meros clubes políticos,
vão garantindo as fidelidades e as lideranças do poder oculto.
Aliás, as próprias mudanças políticas passam a assentar em pronunciamentos,
entendidos como verdadeiras empresas militares que transformam
o exército em mero instrumento partidário.
A
nova ciência da Administração – O ceptro era de ferro, os povos
eram escravos, mas a tirania e a escravidão ocultavam-se aos olhos da
Europa debaixo dos restos de um apregoado liberalismo...o exclusivismo
dos empregos, o patronato como principal qualidade da elegibilidade,
a perseguição, o suborno e a calúnia constituíram toda a ciência da Administração (palavras
do miguelista João de Lemos em 1847).
As
novidades do devorismo – O regime dito devorista introduz algumas
das novidades dos regimes portugueses demo-liberais. Em primeiro lugar
a cedência à pressão da tropa para as mudanças de governo, principalmente
com os militares a serem manipulados por facções. Em segundo lugar, a
política de empregadagem para o recrutamento de aliados, utilizando-se
os fundos orçamentais para alimentação dos jobs for the boys,
visando obsequiar amigos e pagar serviços, conforme as palavras
de Fronteira. Em terceiro lugar, a venda ao desbarato de bens públicos,
para se compensar a dívida externa. Em quarto lugar, a utilização dos
lugares universitários pelo favoritismo, como acontece em 17 de Novembro
de 1835, quando sai a lista dos lentes proprietários da Escola Politécnica,
onde sentam alguns dos principais membros da classe política, como Jervis
de Atouguia, Ferreira Pestana, João Fontes Pereira
de Melo e António de Oliveira Marreca (1805-1889) e onde até um estudante
da escola de Pontes e Calçadas de Paris é feito catedrático, apesar dos
imediatos protestos da Universidade de Coimbra.
Governos do Devorismo 1834-1836:
Governo de
Palmela/ Linhares Dura
246 dias. Entre 24 de Setembro de 1834 e 27
de Maio de 1835. Uma aliança entre os chamados conservadores, palmelistas,
e o grupo dos amigos de D. Pedro, mobilizados pelo Grande Oriente Lusitano
e liderados por Silva Carvalho e Agostinho José Freire. Dito o ministério
chamorro.
Governo da
fusão de Saldanha,
desde 27 de Maio de 1835 (176 dias). Dito
o ministério dos impossíveis, o pastel misto ou fusão.
Depois de 15 de Julho, com a entrada de Silva Carvalho e Rodrigo da Fonseca,
passa a ser conhecido como o ministério do
rei dos godos
Governo de
José Jorge Loureiro.
De 18 de Novembro de 1835 a 20
de Abril de 1836 (155 dias). Chama-lhe, então, o ministério dos
vândalos. Dominado por aquilo que até então era a chamada oposição
mercantil. Francisco António Campos na fazenda até 6 de Abril de
1836.
Governo de
Terceira De
20 de Abril de 1836 a 10 de Setembro de 1836 (144 dias). Regresso do situacionismo
chamorro, apoiado pelos palmelistas. Silva Carvalho volta à fazenda. Na pasta
do reino, Agostinho José Freire.Cai com a Revolução de 9 de Setembro de 1836
Chamorros
1833 Dominantes durante a regência
de D. Pedro, aliam-se aos palmelistas no governo presidido pelo próprio
Palmela, entre 24 de Setembro de 1834 e 27
de Maio de 1835. São então dirigidos pelo chamado quinteto chamorro,
constituído por Silva Carvalho, Agostinho José Freire, Rodrigo da Fonseca,
G. de Castro e pelo espanhol Mendizabal... É este quinteto que, com a cobertura
de Terceira, se alia a Palmela e consegue mobilizar para o governo o até então
oposicionista, conde de Vila Real.
Conservadores
1834 Em Setembro de 1834 são
qualificados como conservadores ou da direita os chamados palmelistas que
se entendem com os chamorros no chamado governo da coalição, da fusão, ou
do pastelão. No governo de Saldanha (de 27 de Maio a 18
de Novembro de 1835) ainda têm dois elementos: Palmela, nos estrangeiros,
e João de Sousa Pinto Magalhães, no reino.
·Ordeiros, 1836 Na sequência da eleição de 20 de Novembro de 1836, surge, entre os deputados eleitos, um grupo não afecto aos radicais nem aos novos governamentais e distinto dos cartistas. Provêm da antiga oposição moderada ao regime chamorro, sendo constituído por Lumiares, Taipa, sabrosa, Garrett, Fronteira, visconde da Fonte da Arcada, Manuel Castro pereira e Derramado, núcelo central a que, depois, aderem o general João Lacerda, António Fernandes Coelho e António Dias de Oliveira. A posterior revolta dos Marechais e as sucessivas revoltas radicais, bem como o abandono do governo por parte de Passos Manuel leva a que este grupo vá assumindo o poder, sendo conhecidos como os setembristas moderados. Consolida-se o modelo quando, em 4 de Abril de 1838 surge uma ampla amnistia, logo criticada por Passos Manuel e Vieira de castro, mas que obtém o apoio de Rodrigo da Fonseca, Silva Carvalho e António José de Ávila, chegando a falar-se no partido do 4 de Abril de 1838.