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1909
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A conspiração republicana e monárquicos discutindo o sexo dos anjos
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·Alfonso XII visita Vila Viçosa (13 de Fevereiro)
·Motim dos vinicultores do Douro (Março)
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Terramoto em Benavente (23 de Abril)
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·Artur Montenegro substitui Francisco de Medeiros na pasta da justiça, depois do governo ter entrado em conflito com o bispo de Beja (28 de Outubro)
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Escândalos do Hinton e da Companhia de Crédito Predial.
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Catástrofe ou libertação? –Sampaio
Bruno em A Dictadura. Subsídios Moraes para seu Juízo Crítico, Porto,
1909, onde replica aos elementos conservantistas que, durante o
franquismo proclamavam que caminhávamos para a catástrofe, refere que tinham
razão; somente ao que eles chamavam a catástrofe, chamávamos nós a libertação,
porque era o encerramento enfim do vasto período de tiranias e de embustes, de
desperdícios e de favoritismos, de desigualdade e de caciquismo de que a nação
vem sofrendo, tão só com gáudio e aprazimento da minoria prevalecente dos que
têm prosperado ilegitimamente à custa dos alheios direitos, postergados e
escarnecidos.
Todos conspiram –João Chagas
salienta que todos coxixam, tramam, conspiram,
espreitam, espionam, recebem ordens, partem para aqui, para ali, em expedição,
cosem-se com as esquinas, andam de gatas por baixo da terra.
Estamos perdidos – António Lino
Neto, numa conferência realizada na Real Associação Central da Agricultura
Português em 2 de Maio, considera que se ouve a
cada passo dizer a este, que estamos irremedivelmente perdidos como estado
político, àquele que só com uma administração estrangeira poderemos salvar-nos
duma bancarrota iminente, a estoutro que já não vale a pena trabalhar por um
povo liquidado.
A fatalidade e o acaso – A
Monarquia liberal acabou em Fevereiro do ano passado. O que lhe sobreviveu foi
um equívoco da fatalidade e do acaso, e a história não consente o predomínio de
equívocos. A história tem uma lógica (João Chagas).
Estudantes republicanos lançam em
Lisboa, em Fevereiro, o Centro Democrático Académico que decide não
filiar-se no Partido Republicano. Entre os fundadores, Fidelino de Figueiredo.
Divergências entre monárquicos –
Logo após a tomada de posse do novo governo, Júlio de Vilhena, que contava
ser chamado pelo rei, demite-se da chefia dos regeneradores, sucedendo-lhe
Teixeira de Sousa, em 16 de Janeiro, o que logo provoca nova dissidência,
liderada por Campos Henriques. Nesta senda, o vilhenista Caeiro da Mata, em
pleno parlamento, acusa Campos Henriques (um governo de camarilha e de
sacristia, presidido por um traidor) e Manuel Afonso Espregueira (chama-lhe
burlão, por causa de um empréstimo para os Caminhos-de-ferro do Estado)
(10 de Março). Segue-se o inevitável duelo entre Caeiro da Mata e o ministro da
fazenda (17 de Março).
A monarquia dos padres – D.
Manuel subiu ao trono e a monarquia foi dos padres (João Chagas). Também
Ferreira do Amaral, na própria Câmara dos Pares, há-de explicar a sua queda
argumentando com a intervenção de elementos clericais na vida do Paço.
Anticlericalismo – Em 2 de
Agosto, uma gigantesca manifestação anticlerical em Lisboa reúne cerca de cem
mil pessoas, exigindo-se o cumprimento da lei sobre associações religiosas. Em
Dezembro, outra, do mesmo teor, promovida pela Junta Liberal, de Miguel
Bombarda, Egas Moniz e do almirante Carlos Cândido dos Reis (1852-1910).
O mal está no Paço – O mal
de agora, como o mal de sempre, está no Paço. É à sua protecção indiscutível, à
simpatia que ele dispensa a todos os elementos de opressão e de obscurantismo,
que o clericalismo vai beber alentos, haurir audácia para as suas intoleráveis
provocações (Alexandre Braga)
A conspiração republicana – A
Carbonária Portuguesa, tendo no comando operacional Machado Santos e António
Maria da Silva, e já em ligação com o directório do PRP, vai disseminando a sua
organização no seio do Exército e na Marinha, duplicando os seus efectivos em
Lisboa e estendendo-se à província. Fazem também íntima ligação com as
estruturas do Grande Oriente Lusitano, através de José de Castro. Terão, então
cerca de 34 000 obreiros.
Procuradores de interesses
estrangeiros – Os braganças foram sempre em Portugal procuradores de
interesses estrangeiros... O liberalismo, pode dizer-se, é uma aventura inglesa
(João Chagas).
Tumultos em Valpaços (5 de
Março). Seguem-se os de Alijó e Murça, dos viticultores do Douro (13 de Março).
Pátria republicana – Em
Portugal já não há hoje interesses de género que possam associar monárquicos e
republicanos. A pátria de uns já não é a pátria de outros (João Chagas).
Governo nº 52 (11 de Abril)
Sebastião Telesö (34 dias). Com quatro
progressistas, dois henriquistas e um amaralista. Diz-se um ministério de
liberdade, de acalmação e de administração. Segundo os críticos, estão três
ministros que são da casa militar de el-rei e outros tantos que são a
casa civil de José Luciano.
Teles havia sido indicado por Veiga
Beirão, tendo em vista o controlo do Exército, bastante infiltrado pelos
republicanos.
Presidenteö
acumula a guerra. Alexandre Cabral, reitor da Universidade de Coimbra, no reino.
Amadeu Teles da Silva de Afonseca Mesquita de Carmo (n. 1875), conde de Castro e
Sola, magistrado e chefe dos regeneradores em Braga, na justiça. Major José
Soares Branco na fazenda. João de Azevedo Coutinho (1865-1944), governador civil
de Lisboa, na marinha e ultramar. D. João de Alarcão nos estrangeiros. D. Luís
de Castro nas obras públicas.
A demagogia liberal – Os
progressistas são a demagogia liberal. Vem hereditariamente da praça pública.
Sempre que não estão no poder, estão na bernarda (João Chagas)
Terramoto em Benavente. Morte
de meia centena de pessoas (23 de Abril). Os maçons e republicanos organizam
acções de solidariedade. D. Manuel II e o infante D. Afonso visitam a região
devastada.
Congresso do Partido Republicano
em Setúbal (dias 24 e 25 de Abril). Surge um novo directório, afecto aos
radicais, com elementos ligados à carbonária, com o mandato de fazerem a
revolução, contra a perspectiva legalista de Bernardino Machado. Dele, fazem
parte Teófilo Braga, Basílio Teles, José Relvas, Eusébio Leão (1864-1926)
e Cupertino Ribeiro. Os anteriores notáveis do partido são remetidos para uma
junta consultiva. Nomeada uma comissão financeira, presidida por Bernardino
Machado, visando angariar fundos para a revolução. Criado um comité
revolucionário, dito comissão executiva de Lisboa, composto por João Chagas,
Afonso Costa, António José de Almeida e Cândido dos Reis.
A
impossível revolução moral – A revolução urgente não é social nem
política, é moral. Nem havia a escolher entre monarquia e república, pois que,
para escolher entre duas coisas, é necessário existirem (Guerra Junqueiro)
O governo cai por causa de uma
questão estranha à governação. O ex-ministro Espregueira e o deputado Caeiro da
Mataö , depois de uma polémica, envolvem-se em
duelo. No dia 25, a maioria abandona os trabalhos parlamentares, invocando a
circunstância de Caeiro da Mata, ao regressar à Câmara dos Deputados, não
apresentar desculpas. Segue-se novo duelo protagonizado por Caeiro da Mata,
agora com Moreira Júnior, líder de uma maioria parlamentar que, no entanto,
continua a retirar-se da Câmara quando aquele deputado pede a palavra e o
governo é obrigado a demitir-se. Os regeneradores não henriquistas colocam-se ao
lado dele. Dizia-se que a rigidez da maioria é inspirada por José Luciano, a fim
de obter uma dissolução. Mas o próprio Sebastião Teles se desvincula da atitude
do respectivo chefe e aconselha o rei a não dar a dissolução, para assim não
ceder à pressão do chamado Paço dos Navegantes, nome dado à residência
lisboeta do velha raposa que tem então como delfim António
Cabral..
Republicanos avançam – O
partido republicano avança a passos rápidos, e prepara-se para uma aventura
revolucionária… Se não me engano, a revolução ameaça-nos de perto (José
Luciano). Como assinala Raul Brandão, sentado na cadeira de rodas, o velho
osbtinado, numa sociedade a liquefazer-se, resistiu até à última, e adquiriu
relevo e grandeza como se os alicerces fossem de pedra.
Governo
nº 53 (14 de Maio) Wenceslau de Lima (223 dias). Governo dito da
Politécnica do Porto, chefiado por aquele a quem Júlio de Vilhena chama
depreciativamente o valido do rei. De marca extrapartidária, não tem, na
respectiva constituição, a influência de José Luciano.
Presidenteö
(regenerador dissidente) acumula o reino. Francisco José de Medeiros,
magistrado, ex-progressista que chegou a acompanhar a dissidência de Alpoim, na
justiça. O oficial de engenharia Francisco de Paula de Azeredo (n. 1859), filho
do conde de Samodães, lente da politécnica do Porto e amigo pessoal de Wenceslau,
na fazenda. General Elvas Cardeira na guerra. Comandante Manuel Terra Pereira
Viana, lente da politécnica do Porto e amigo pessoal de Wenceslau, na marinha e
ultramar. Coronel Carlos Roma do Bocage nos (1850-1918) nos estrangeiros –
Coronel Alfredo Barjona de Freitas, ex-governador de Cabo Verde, nas obras
públicas. Em 28 de Outubro de 1909: Artur Pinto Miranda Montenegro na justiça
Propaganda republicana:
Republicanos começam uma campanha de comícios contra o convénio do Transvaal (23
de Maio). A propaganda passa também pela Junta Liberal criada por Miguel
Bombarda, com Egas Moniz, António Aurélio da Costa Ferreira (1879-1922) e
Cândido dos Reis, que vai percorrendo o país, secundada pela campanha
anticlerical levada a cabo pelo novo jornal, A Lanterna, liderado por
Avelino de Almeida. No mesmo sentido, os artigos de Tomás da Fonseca
(1877-1968) em O Mundo, que são reproduzidos em folhas avulsas. Este
escritor, de marca anarquista, antigo seminarista, será deputado em 1911. Maçon
desde 1906 e militante democrático, assume a chefia do gabinete de Teófilo Braga
em 1910-1911.
O rei e os socialistas – D.
Manuel escreve a Wenceslau de Lima, salientando que é da máxima utilidade
chamar a nós o partido socialista, quando este está prestes a realizar um
congresso que iria unir as várias facções em que estava dividido desde 1891, até
porque o partido republicano tem-lhe feito uma guerra de morte. Os
contactos são feitos entre Carneiro Pacheco, do lado do Paço, e Alfredo Aquiles
Monteverde, na banda dos socialistas.
Consiglieri Pedroso vence as eleições
para a presidência da Sociedade de Geografia, derrotando a lista
monárquica liderada pelo cronista de política internacional, Carlos Roma du
Bocage (1850-1918).
Começa a greve dos eléctricos
do Porto (8 de Julho), até ao dia 17. Segue-se a dos carreiros do Porto (14 de
Agosto).
Partido Republicano organiza uma
Comissão Militar para organizar a revolução (Julho). Um grupo de marinheiros
do cruzador D. Carlos apresenta-se na sede do PRP, dizendo que querem
bombardear o Paço Real (14 de Setembro).
Crime da Boca do Inferno – O
juiz de instrução Almeida Azevedo (antigo Hoche da ordem maçónica), com o
secretário Abílio Marques investigam as ligações entre carbonários,
principalmente o crime da Boca do Inferno, ocorrido em 10 de Outubro, quando o
carbonário Domingos Guimarães assassina Manuel Nunes Pedro, um cúmplice que
desviara armas das Alfândegas, onde era empregado.
Conflito entre o ministro da
justiça, e o bispo de Beja, D. Sebastião de Vasconcelos (9 de
Outubro). Medeiros havia reintegrado como professores do seminário de Beja,
reaberto em 1908, depois de encerrado em 1906, os irmãos Ançã, sacerdotes que o
bispo não aceita. Com a saída de Medeiros, Teixeira de Sousa deixa de apoiar o
governo.
Explosão de bomba junto à
Igreja de S. Luís dos Franceses (18 de Outubro).
Neste mês, um agente duplo leva a
inúmeras prisões de carbonários, pelo que acabou executado pela
organização que já tem suficiente força e disciplina para se assumir como um
Estado contra o Estado, antes de se transformar num autêntico Estado dentro do
Estado. Comité Executivo de Lisboa encarrega três oficiais de organizar e
dirigir um levantamento em nome do PRP, surgindo a chamada Comissão Militar.
Directório do Partido Republicano
emite um comunicado onde declara que o partido já não pode separar a reacção
religiosa da reacção política (13 de Novembro).
Republicanos vencem as eleições para
122 juntas de paróquia (29 de Novembro)
O povo não está feito –
Fazer vingar a causa do povo em Portugal é operar uma obra de prodígio. É por
assim dizer- criar. O povo não está feito. É fazê-lo. Não é ressuscitá-lo. Ele
nunca existiu. Na realidade, é dar-lhe nascimento e mostrá-lo à própria nação
assombrada, como um homem novo e sem precedentes (João Chagas)
Governo nº 54 (22 de Dezembro
1909) Veiga Beirão (187 dias). Seis meses de governo progressista,
novamente sob a batuta de José Luciano, dizendo querer recuperar o programa
da Granja de 1876, mas logo derrapando com os escândalos do caso William
Hinton e do Crédito Predial, habilmente aproveitados pelos republicanos.
Artur Montenegro na justiça. José
Matias Nunes na guerra (numa das suas primeiras medidas há-de punir Dantas
Baracho). João António de Azevedo Coutinho na marinha e ultramar. António
Eduardo Augusto Vilaça nos estrangeiros (que há-de requisitar Baracho para o
respectivo ministério). José António Moreira Júnior nas obras públicas.
Francisco Felisberto Dias Costa, lente da Escola do Exército, na fazenda.
Vilhena demite-se – A
constituição deste novo governo leva a que Júlio de Vilhena, em 23 de Dezembro
de 1909, abandone a chefia dos regeneradores, onde lhe sucede, em 16 de Janeiro
de 1910, Teixeira de Sousa. Contudo, o grupo fica, a partir de então,
insanavelmente dividido, com uma importante facção a funcionar autonomamente,
sob a chefia de Campos Henriques.
Já ninguém salva isto –
Estamos sobre um vulcão. Prendi vários homens das associações secretas, podia
prender mil. Já ninguém salva isto, a não ser uma forte ditadura militar. E eu
vou-me embora, porque não quero incorrer nas iras populares. Ou vamos para a
frente ou os senhores metam-se em casa à espera que os chacinem... (palavras
do juiz de instrução António Emílio, o antigo maçon Hoche, a Veiga
Beirão, segundo Raul Brandão).
Açúcar da Madeira – William
Hinton queria uma espécie de monopólio das plantações de açúcar da ilha da
Madeira. O processo é denunciado por Afonso Costa na Câmara dos Deputados,
acusando-o de amizades com o rei, principalmente através de cartas trocadas com
D. Fernando Serpa Pimentel, comandante do iate Amélia.
Escândalo do Crédito Predial,
onde há um importante desvio de fundos praticado pelo guarda-livros Augusto
Quintela, numa instituição que tinha como presidente José Luciano e a que também
estava ligado Hintze Ribeiro. Também se suicida outro empregado da casa.
& Almeida, Fortunato de (VI): 554-565; Cabral, António (1949): 133; Chagas, João (1908, 1ª série, Cartas Políticas): 89, 118, 135, 184, 225, 291; Oliveira, Lopes: 355, 362, 363, 370, 371, 373, 374, 376, 377, 378; Pabón, Jesus: 95, 96, 97; Peres, Damião /Guedes, Marques (VII): 448-452; Serrão, Joaquim Veríssimo (X): 135, 136, 138, 140, 142; Sousa, António Teixeira de (1911, I): 19, 20, 21, 86; Valente, Vasco Pulido (1976): 95, 96, 97, 99; Vilhena, Júlio de (I): 16, 234, 261; (II): 57, 216, 217, 228, 247, 254.