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11 de Março, Eleições, PREC, Verão Quente e 25 de Novembro
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Da via
socializante ao PREC. O último sinal de moderação dado pelo comando do
processo revolucionário está no chamado Plano Económico de Transição, elaborado
por uma equipa coordenada pelo major Melo Antunes e concluído em Janeiro de
1975, quando se desencadeia a questão da unidade sindical, isto é, da criação
por via legal de uma central sindical única (21 de Janeiro), com o óbvio apoio
dos comunistas e dos seus aliados. Só a partir de então é que o Partido
Socialista trata de abandonar o comboio da revolução, passando a assumir-se como
o partido das liberdades contra o avanço comunista. Assim, o partido de Mário
Soares e Salgado Zenha promove uma aliança com os militares anti-gonçalvistas do
MFA, depressa assumindo a ruptura com o que é designado por PREC, isto é, o
processo revolucionário em curso. Depois da chegada da Lisboa de um novo
embaixador norte-americano, Frank Carlucci (17 de Janeiro), os novos poderes
estabelecidos mostram a sua verdadeira face quando, por omissão, admitem que o
Congresso do CDS que, então, se realiza no Palácio de Cristal do Porto seja
boicotado por uma populaça aparentemente comandada por grupos da
extrema-esquerda, com destaque para Pedro Baptista, companheiro ideológico de
José Pacheco Pereira e que, depois de arrependido pela matura idade, se
há-de tornar deputado do PS (26 de Janeiro). O processo que até então se
considera meramente socializante, vai, em breve, assumir-se como inequivocamente
socialista. Conforme declara a Comissão coordenadora do programa do MFA numa
conferência de imprensa dada no último dia do ano de 1974, a via é
socializante, como transparece do próprio Programa do MFA, mas ou o
capital colabora nessa mesma via ou ela terá forçosamente de se transformar em
socialista.
Unicidade
sindical – Artigo de Francisco Salgado Zenha no Diário de Notícias
contra a programada unicidade sindical (7
de Janeiro). Conselho Superior do MFA manifesta-se pela unicidade
sindical, por unanimemente. PS assume-se formalmente contra a unicidade sindical
(13 de Janeiro). MES, MDP e PCP promovem manifestação a favor da proposta
comunista, diante do Ministério do Trabalho. O Ministro comparece e faz discurso
a favor da unicidade (14 de Janeiro). Comício do PS no Pavilhão dos Desportos de
Lisboa contra a unicidade sindical. Discurso de Francisco Salgado Zenha contra o
PCP e a Intersindical (16 de Janeiro). Aprovada a unicidade sindical em Conselho
de Ministros (20 de Janeiro). Nessa reunião há também uma decisão sobre a
expropriação das terras de regadio das grandes propriedades. Aprovada com votos
contrários dos ministros do PS e do PPD.
Esquerda
revolucionária – Realiza-se em Lisboa o I Encontro dos Cristãos pelo
Socialismo (4 de Janeiro).
Manuel Serra funda a Frente Socialista Popular, confirmando a saída do
Partido Socialista, pensando poder mobilizar os 44% de militantes
revolucionários, da classe trabalhadora (9 de Janeiro). A gota de água que
provoca a cisão é o artigo de Salgado Zenha contra a unicidade sindical (9 de
Janeiro). Criado o Partido Revolucionário dos Trabalhadores que passa a
editar o jornal Combate Socialista (31 de Janeiro)
Direita –
Fundação oficial do Exército de Libertação de Portugal em Espanha
(6 de Janeiro). José Miguel Júdiceö depois de estar preso em Caxias
durante três meses e meio é posto em liberdade, regressando a casa, à Quinta das
Lágrimas em Coimbra (9 de Janeiro). Congresso do PDC na Figueira da Foz elege
Sanches Osório como secretário-geral. O Congresso é interrompido, depois do
comandante região militar do Centro o solicitar, por se admitirem incidentes a
provocar pelo MRPP (1 de Fevereiro).
Começa a Operação
Nortada, que irá prolongar-se até ao dia 28. Campanha de Dinamização
Cultural levada a cabo pelo Regimento de Comandos no Nordeste, dirigido, então
por Matos Gomes. Colaboram Ramiro Correia, Faria Paulino e Dinis de Almeida (13
de Janeiro).
Democratas contra
a vontade popular – Orlando de Carvalho declara ao Expresso que
qualquer força se legitima sobretudo pela sua correspondência efectiva às
necessidades populares que não somente a vontades populares que a controlam
apenas no momento da eleição (25 de Janeiro).
O brilhante professor que, de militante católico, passara a instrumento dos
comunistas, manchará, depois, a sua magnífica criatividade retórica na defesa
dos direitos da personalidade, quando justifica e defende a restauração da pena
de morte em Angola, levada a cabo pelo regime pró-soviético do MPLA. Também não
consta que o mesmo se tenha insurgido contra a expulsão da universidade de
vários estudantes, acusados de militância de direita.
Assinatura do
Acordo de Alvor entre os partidos armados angolanos, FNLA, MPLA e UNITA, e
Governo Português. Marcada a data da independência para 11 de Novembro (15 de
Janeiro).
Frank Charles
Carluci. Chega a Lisboa o novo embaixador norte-americano, Frank Charles
Carluci, diplomata de carreira, até então sub-secretário da saúde de Nixon,
substituindo o anterior titular, Stuart Nash Scott (17 de Janeiro). O mandato
que traz para a contenção da onda comunista passa por transformar Mário Soares
no principal aliado e no pólo federador do grande partido anticomunista.
Mesquinhez, ódios
e vinganças – Artigo de Vitorino Magalhães Godinho na Vida Mundial,
critica a hipótese do MFA, ao institucionalizar-se, transformar-se em órgão de
soberania ou de governo. Fala num clima de mesquinhez, tinto de ódios, de
vinganças miudinhas... neste momento não existem em Portugal bases a sério, seja
em que sector for; existem maiorias impreparadas e perplexas, manejadas por
grupúsculos cujo cérebro está atafulhado de “slogans” decorados e não
acostumados a pensar por si próprios (30
de Janeiro).
Chile, Peru e
Checoslováquia – Jean-François Revel em L’Express, considera que
Portugal era um terço do Chile, um terço do Peru e um terço da
Checoslováquia...
I Congresso do
CDS Começa o I Congresso do CDS no Porto, no Palácio Cristal (22 de Janeiro)
Extrema-esquerda boicota o Congresso (25 de Janeiro). Apenas termina à porta
fechada em Lisboa no dia 21 de Fevereiro.
Um baldio
uníssono – Miguel Torga escreve artigo em A Capital criticando o
gonçalvismo: quando formos apenas suporte de figurinos alheios, não seremos
nós; quando a nossa voz não passar de um baldio uníssono, seremos escravos;
quando nos detestarmos mutuamente, em vez de sadios cidadãos discordantes,
seremos irmãos tragicamente divididos. É pois necessário interromper sem
demora esta corrida louca que nos leva à perdição
(6 de Março).
Plano Melo
Antunes Conselho de Ministros aprova o Plano Melo Antunes. Conselho de
Estado dá parecer favorável à lei constitucional provisória. Reforço dos poderes
legislativos da JSN (8 de Fevereiro)
Revisão da
Concordata Assinada no Vaticano a revisão da Concordata, permitindo-se a
alteração do Código Civil, com a consequente admissão do divórcio civil para
casamentos canónicos, que deixara de ser possível a partir de 1940 (13 de
Fevereiro).
Matança da Páscoa
– Exilados em Madrid, tomam conhecimento de uma lista dita da matança da
Páscoa, fornecida por serviços secretos estrangeiros (8 de Março)
Golpe em Portugal
– No dia 11 de Março, depois de uma movimentação de forças para-quedistas,
afectas aos sinolistas, que, vindas de Tancos, chegam a atacr o quartel do
RAL-1, de Moscavide, que também é atacado pela força aérea, dá-se um eficaz
contra-golpe, ao serviço do situacionismo revolucionário, que leva ao exílio os
militares da ala direita do MFA, lançando o país num processo já eficazmente
comandado pelos comunistas. Seguem-se nacionalizações revolucionárias da banca,
das seguradoras e dos grandes grupos económicos, numa assembleia selvagem do MFA,
a dita nave dos loucos, marcada pela chamada revolução dos homens sem
sono (11 de Março).
Mudanças
revolucionárias – Emitidos vários decretos revolucionários: instituição do
Conselho da Revolução, com extinção do Conselho de Estado e da Junta de Salvação
Nacional; criação da Assembleia do Movimento das Forças Armadas; nacionalização
da banca (14 de Março). Decreto sobre a nacionalização das companhias de seguros
(15 de Março). Tomada de posse do novo Conselho da Revolução (17 de Março).
Publicados vários diplomas sobre as nacionalizações: Sacor, Petrosul, Sonap,
Cidla, CP, CNN, CPTM, TAP. Siderurgia Nacional, empresas de electricidade (16 de
Abril).
Governo nº 107,
o IV Governo Provisório de Vasco Gonçalves ödesde 26 de Março de 1975,
135 dias. PS abandona este gabinete em 11 de Julho de 1975. Segue-se o PPD em 17
de Julho. Toma assim posse não só um novo governo, como também um governo novo.
O quadro institucional alterara-se radicalmente: em vez dos iniciais Junta de
Salvação Nacional e do Conselho de Estado, os órgãos de cúpula no novo sistema
são agora um Conselho da Revolução e uma Assembleia do MFA.
Entre os ministros:
Arnão Metelo, Oliveira Baptista, Sá Borges, Silva Lopes, Correia Jesuíno,
Almeida Santos, Silvano Ribeiro, José Emílio da Silva, José Augusto Fernandes,
José Joaquim Fragoso, João Cravinho, Francisco Salgado Zenha, Melo Antunes,
Mário Murteira, Álvaro Cunhal, Magalhães Mota, Mário Soares, Costa Martins e
Veiga de Oliveira.
Mais três partidos
são suspensos (o Partido da Democracia Cristã, então dirigido pelo antigo
ministro spinolista Sanches Osório e dois agressivos partidos maoístas que tanto
incomodam o PCP, o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado e
a Aliança Operário-Camponesa).
A banca é
nacionalizada e com ela quase todos os principais órgãos da comunicação social.
Finalmente, as
eleições são adiadas e desencadeiam-se novas campanhas de dinamização cultural
no país do Norte interior.
Vivam as amplas
liberdades – Álvaro Cunhal proclama: os partidos que conspiram contra a
liberdade devem ser proibidos e os seus dirigentes severamente punidos
(27 de Março).
Sá Carneiro
abandona Portugal Sá Carneiro abandona Portugal e vai para Londres, a fim de
receber tratamento: Apenas vem votar a Portugal no dia 25 de Abril, sendo
sujeito a nova intervenção cirúrgica nos princípios de Maio (29 de Março).
Pacto MFA/Partidos
Apresentado o projecto em 2 de Abril é assinado no dia 11. O comando militar
revolucionário condiciona a liberdade dos partidos na futura Assembleia
Constituinte e estes, coactos, têm que pagar este preço em troca da
realização de eleições.
Gonçalvismo sem
disfarce – Conferência de Imprensa de Vasco Gonçalves na Fundação Calouste
Gulbenkian em Lisboa: não podemos perder por via eleitoral aquilo que tanto
tem custado a ganhar ao povo português (8 de
Abril).
Voto em branco
MFA começa a defender o voto em branco (10 de Abril)
Jornal
Novo Sai o primeiro número do Jornal Novo, dirigido por
Artur Portela Filho e subsidiado pela CIP e que será um dos principais focos de
resistência cultural ao gonçalvismo e ao cunhalismo (17 de Abril).
Eleição nº 64
da Assembleia Constituinte (25 de Abril). 6 321 372 eleitores. 5 711 829
votantes. Decretos-lei de 15/11/1974. PS: 116 mandatos, 37, 87%. PPD: 81
mandatos, 26,39%. CDS: 16 mandatos, 7,61%. PCP: 30 mandatos, 12,46%. MDP: 5
mandatos, 4,14%. UDP: 1 mandato, 0,79%. ADIM: 1 mandato
Desunião no 1º de
Maio – Nas manifestações unitárias do 1º de Maio, Mário Soares é impedido de
aceder à tribuna do antigo estádio da FNAT em Lisboa. Discursos de Costa Gomes e
de Vasco Gonçalves. Incidentes entre o PS e o PCP. Grupos de extrema-esquerda
fazem comemoração independente.
O Jornal –
Surge o primeiro número do O Jornal, dirigido por Joaquim Letria. Há-de
ser o braço intelectual dos chamados oficiais moderados do MFA, liderados por
Melo Antunes (1 de Maio).
Constituído o
MDLP Constituído o MDLP, organização oposicionista no exílio, dominada pelos
spinolistas, tendo activo apoio de políticos da direita no exílio madrileno, com
destaque para José Miguel Júdice (5 de Maio). Na ala militar, destaque para
Alpoim Calvão, Almeida Bruno, Rebordão de Brito e Banjamim Abreu.
Guerra civil em
Angola – Começa a guerra civil em Angola, com confrontos entre o MPLA e a
FNLA (12 de Maio). E a guerra ia alastrar. A guerra mesmo guerra, esse ódio de
matar antes que te matem. As violações mais odientas, as torturas mais
inconcebíveis, as perseguições, os incêndios e as rapinas. E chegam notícias de
Luanda dando conta que a cidade nem sequer tem tempo para enterrar os próprios
cadáveres. Em Lisboa, os ecos vão lavrando através dos refugiados e espoliados,
a quem vamos dando a eufemística designação de retornados, mesmo que parte
significativa deles nunca cá tivesse estado, porque haviam nascido e crescido
naquela terra que, para eles, era tão pátria como para os que agora se matavam,
apenas divergindo quanto à maneira de a servir. Há entre muitos desses que
desembarcam inúmeras pessoas ditas de etnia africana, mas que infelizmente se
sentem tão portuguesas como os que agora os recebem. E brancos, negros e
mestiços vão espalhando-se por todo o país, levando as tristes novas do horror
que os seus olhos viram, que as suas mãos sentiram. Falam de crianças que
vagueiam pelas cidades chorando os pais mortos. De filhas violadas diante dos
próprios pais e irmãos. De cadáveres esquartejados, de muito sangue e até de
algum desespero canibal. E Luanda crioula, Luanda amada transforma-se em nome de
guerra. A guerra civil, uma das mais violentas formas de guerra, lá se vai
consumindo, em nome de ideais, por causa de ideais antigo, instrumentalizada por
não-ideais futuros.
Maniqueísmo –
Vasco Gonçalves visita à Sorefame: só há duas posições, ou estamos na
revolução ou estamos contra a revolução... Não há meio caminho
(17 de Maio). Confirma-se o que denunciara Eduardo Lourenço no
Expresso, em 3 de Maio, criticando os excessos do PREC: o maniqueísmo
cego que neste momento mutuamente nos cega e nos desnorteia
Caso República –
O jornal é fechado e passa
a ser publicado pelos trabalhadores não-jornalistas. Raúl Rego é afastado, sendo
substituído por Belo Marques. Acusam o jornal de ser órgão oficioso do PS.
Rosa Coutinho defende um MFA civil (19 de Maio)
Reaparece o jornal República sem Raúl Rego. O novo director é o coronel
Pereira de Carvalho. O PS retira os ministros do governo (10 de Julho).
Emídio
Guerreiro no PPD.
Emídio Guerreiro novo
secretário-geral do PPD. Sá Carneiro, que chega a Lisboa no dia 24, para
assistir ao Conselho Nacional, instalando-se em casa de Rui Machete, segue logo
depois para Londres e antes de regressar a Portugal, passa a residir em Espanha,
nos arredores de Torremolinos, onde vai recuperar. Guerreiro vence as
candidaturas de Magalhães Mota e Mota Pinto (25 de Maio).
Ofensiva contra o
MRPP – COPCON define o MRPP como seita religiosa e desencadeia
assalto a sedes deste partido (28 de Maio). Cerca de 400 prisões em Pinheiro da
Cruz e Caxias.
Semanário
Tempo – Inicia a publicação o semanário dirigido por Nuno Rocha e que
vai ser uma das vozes contrárias ao PREC (29 de Maio).
Primeiro
Congresso da JSD. Primeiro Congresso da JSD. Discurso final de Emídio
Guerreiro. Sobre a mesa da presidência, cartazes com Marx e Engels. O hino
aprovado para a organização é A Internacional
(1 de Junho).
Abertura da
Assembleia Constituinte – Abertura da Assembleia Constituinte.
(2 de Junho).
Violência de
direita – Atentados bombistas da direita, em Lisboa
(3 de Junho). Centro de trabalho do PCP em Fafe é alvejado com uma
granada (11 de Junho). Reunião
de Vítor Alves, Alpoim Calvão e do cónego Eduardo Melo em casa de Valentim
Loureiro (30 de Junho). Começa
a escalada de assalto a sedes de partidos de esquerda, com a destruição das do
PCP e da FSP em Rio Maior (12 de Julho). Nesta localidade é incendiada carrinha
que transporta os jornais Diário de Lisboa e Diário Popular
invocando-se o facto das notícias não serem correctas quanto aos acontecimentos
do dia anterior (14 de Julho)
Frente de
Libertação dos Açores Manifestação da Frente de Libertação dos Açores (FLA),
em Ponta Delgada, com a presença de membros do PPD e do CDS. Protesto contra os
preços do leite, sendo pedida a demissão do governador, Borges Coutinho,
militante do MDP. Grita-se a FLA basta para o MFA
(5 de Junho).
Manifestação
frente ao Patriarcado – UDP promove manifestação frente ao
Patriarcado contra a administração da Rádio Renascença
(18 de Junho).
Portugal nunca
terá uma democracia burguesa – Jornal do Caso República, emitido pelo
grupo afecto a Raul Rego, divulga entrevista de Álvaro Cunhal a Oriana
Falacci onde o chefe do PCP declara: as eleições não têm nada ou têm muito
pouco a ver com a dinâmica revolucionária... Portugal nunca terá uma democracia
burguesa (27 de Junho).
Criado um Tribunal
Revolucionário (27 de Junho).
Fuga de 88 agentes
da PIDE da cadeia de Alcoentre (30 de
Junho)
O Verão quente –
O PS é catapultado pelas circunstâncias para o próprio comando da
contra-revolução, anti-gonçalvista e anticomunista, abandonando-se as
últimas ilusões de restauração da mítica unidade antifascista. Depois de
abandonar o governo (10 de Julho), desencadeia uma manifestação histórica em
Lisboa, na Fonte Luminosa, onde o tom anti-gonçalvista e anticomunista é
predominante (19 de Julho). Esta luta pelo domínio da rua vai caber à
contra-revolução durante o chamado Verão Quente, culminando com a grande
manifestação dos católicos em Braga (10 de Agosto), ao mesmo tempo que surgem os
primeiros sinais de violência da direita, nomeadamente com uma sucessão de
assaltos a sedes do partido comunista e dos movimentos da extrema-esquerda no
centro e norte de Portugal. Vive-se todo um ambiente de pré-guerra civil,
destacando-se a actuação de forças clandestina de direita, desde o Movimento
Democrático de Libertação de Portugal, presidido por Spínola e comandado
operacionalmente por Alpoim Calvão, ao grupo da Maria da Fonte que actua
sobretudo na zona do Minho, tendo activa participação de Paradela de Abreu, o
editor de Portugal e o Futuro. Enquanto isto, o poder revolucionário
estabelecido dá cobertura legal aos latrocínios da chamada reforma agrária (4 de
Julho) e prossegue na euforia nacionalizadora, integrando no grupo Estado
a CUF (19 de Agosto), as cervejeiras (30 de Agosto), a Setenave e os Estaleiros
de Viana do Castelo (1 de Setembro). Em Angola, contra as perspectivas do Acordo
de Alvor, dá-se início a uma longa guerra civil (30 de Junho), enquanto ocorrem
as independências de Cabo Verde (5 de Julho) e de São Tomé e Príncipe (12 de
Julho). Mais longe, em Timor, o ambiente começa a degradar-se, com o golpe da
UDT em Dili (10 de Agosto), a que se segue o contra-golpe da FRETILIN. Não tarda
que, depois deste movimento proclamar a independência (28 de Novembro), os
vizinhos indonésios comecem uma invasão militar que deixará um rasto sangrento
de 200 000 mortos, com os norte-americanos, presididos por Gerald Ford e
inspirados por Henry Kissiger a lavarem as mãos como Pilatos (7 de
Dezembro). Depois de Otelo Saraiva de Carvalho regressar inebriado de uma viagem
a Cuba e de ter posto a hipótese de mandar os fascistas para o Campo Pequeno
(1 de Agosto), o país transforma-se efectivamente numa espécie de manicómio
em autogestão. Perante a degradação, a facção moderada do MFA, apoiada por
elementos do Conselho da Revolução afectos ao major Melo Antunes faz editar o
célebre Documento dos Nove, em oposição ao gonçalvismo e ao controlo do
PCP no processo revolucionário (7 de Agosto). No dia seguinte ainda se forma um
último governo de Vasco Gonçalves, o surrealista V Governo Provisório, o
primeiro que não é participado pelo PS e pelo PPD.
Independências
das ex-colónias – Proclamada a independência de Cabo Verde. Vasco Gonçalves
entrega o poder ao PAIGC (5 de Julho). Independência de S. Tomé e Príncipe. Rosa
Coutinho entrega o poder ao MLSTP (12 de Julho)
A revolução
devorando os próprios filhos – D. António Ferreira Gomes, no jornal da
diocese do Porto, Voz Portucalense, proclama que não é devorando os
seus filhos que as revoluções se alimentam e se salvam. Não é com saneamentos
irracionais e ritualizados que se faz a catarse nacional e a purificação da
sociedade portuguesa (5 de Julho).
Manifestação da
Fonte Luminosa (19 de Julho). Gigantesca manifestação do PS na Fonte
Luminosa mobiliza cerca de 100 000 pessoas. Há barragens de controlo popular à
entrada de Lisboa, com tropas do COPCON.
Temores
europeus – Governo francês decide vetar auxílio a Portugal,
invocando o facto de assim se estar a apoiar uma coligação socialista-comunista.
Conselho da CEE lança ultimato ao governo português: a CEE, tendo em conta a
sua tradição política e histórica, só pode dar o seu apoio a uma democracia
pluralista (17 de Julho).
Força,
força, companheiro Vasco – Começa a campanha da 5ª Divisão.
Lançado o slogan Força, força, companheiro Vasco e um cartaz de João
Abel Manta com o dístico MFA/POVO/VASCO (19 de Julho). No dia anterior, pode
ler-se, num comunicado do PCP: é necessário cortar o passo à reacção! é
necessário levantar barragens para impedir qualquer marcha sobre Lisboa
O povo já não
está com o MFA Costa Gomes reconhece que o povo já não está com o MFA,
que a revolução tem de ser realista e não hostilizar o Ocidente. Otelo
continua em triunfal visita a Cuba. Melo Antunes, Vítor Alves e Vítor Crespo não
estão presentes (25 de Julho).
Documento dos
Nove Nove membros do Conselho da Revolução (Melo Antunes, Vasco Lourenço,
Sousa e Castro, Vítor Alves, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro,
Costa Neves e Vítor Crespo) elaboram documento crítico do gonçalvismo e
entregam-no a Costa Gomes, sem antes o apresentarem no Conselho da Revolução.
Dizem recusar tanto as vias totalitárias como as sociais-democratas. Defendem a
construção de uma sociedade socialista, mas em ritmos adequados à realidade
social concreta portuguesa. Apontam para uma transição gradual sem
convulsões e pacífica (7 de Agosto).
Manifestação de
Braga – D. Francisco Maria da Silva proclama: queremos autoridades
mandatadas pelo povo como seus representantes e não como tutores. Cerca de
cem mil pessoas saem à rua e o arcebispo, sem papas na língua, é comicieiramente
anticomunista (10 de Agosto). Assaltadas sedes do PCP em Braga, Monção, Porto e
Trofa. Comité central do PCP reúne em Alhandra.
Manifestações em
Leiria e Vila Real de apoio ao Episcopado. Em Leiria, cerca de 20 000
pessoas em defesa da liberdade e da Igreja Católica. Intervenção do
bispo D. Alberto Cosme do Amaral: não queremos uma Igreja algemada. (24
de Agosto).
Governo nº 108, V
Governo Provisório de Vasco Gonçalves (8 de Agosto, 42 dias). Teixeira
Ribeiro assume as funções de Vice-Primeiro Ministro, juntamente com Arnão
Metelo. Vasco Gonçalves reconhece ser uma medida transitória, um governo de
passagem, uma pausa política.
Outros ministros são
Oliveira Sá, Cândido de Moura, Oliveira Baptista, Pereira de Moura, Domingos
Lopes, Macaísta Malheiros, Correia Jesuíno, Silvano Ribeiro, José Emílio da
Silva e José Joaquim Fragoso.
Documento da 5ª
Divisão apoia o Documento do COPCON. Varela Gomes sai da 5ª Divisão (15 de
Agosto).
Vários comandantes
de unidades militares da Região Militar do Norte reúnem sem o conhecimento de
Eurico Corvacho e decidem entrar em prevenção rigorosa, apoiando o Documento dos
Nove (17 de Agosto).
O frustrado
governo Fabião – Reunião em S. Julião da Barra de oficiais do grupo dos Nove
e do COPCON, presidida por Costa Gomes. Decidida a criação de sexto governo
provisório, a ser presidido por Carlos Fabião (19 de Agosto). Vítor Alves, Vasco
Lourenço e Melo Antunes reúnem-se com Carlos Fabião, tendo em vista a
organização de um novo governo, apoiado por Costa Gomes (20 de Agosto). Nova
reunião no Restelo entre o Grupo dos Nove e homens do COPCON. Não chegam a
acordo, a não ser quanto à oposição comum ao governo de Vasco Gonçalves (22 de
Agosto). Reunião de vários elementos do MFA, do Conselho da Revolução e do
COPCON em S. Julião da Barra com Costa Gomes onde se não aprova o Documento dos
Nove (24 de Agosto).
Carta de Otelo a
Vasco Gonçalves: o companheiro Vasco tem de ser dispensado... é o MFA
que tem de assumir as suas responsabilidades. Peço-lhe que descanse,
repouse, serene, medite e leia (20 de Agosto).
Jornal A Luta –
Surge o jornal A Luta dirigido por Raúl Rego e mobilizando antigos
jornalistas da República afectos ao PS. Isto é, um grupo que recebe
grande parte da herança político-cultural de Afonso Costa e que fazia o jornal
fundado por António José de Almeida, restaura agora o título do jornal fundado
por Brito Camacho, como que congregando a herança dos três partidos em que se
sustentou inicialmente o regime da Primeira República. O director adjunto é
Vítor Direito e o chefe de redacção, João Gomes. Entre os colaboradores, Álvaro
Guerra, Maria Antónia Palla, Rocha Vieira, José Pedro Castanheira, Miguel Sousa
Tavares e Helena Marques (25 de Agosto).
Tempo dos
moderados – Em Setembro, dá-se uma alteração de forças no comando do
processo revolucionário, quando a assembleia do MFA realizada em Tancos opta
pelo afastamento de Vasco Gonçalves, gerando-se um sexto governo provisório, com
a presidência do Almirante Pinheiro de Azevedo, que toma posse no dia 19 de
Setembro. O processo revolucionário passa a perder fulgor a partir de então,
entrando em regime de lume brando. O novo governo, ainda participado pelos
comunistas, mas agora revestidos de pele tecnocrática, com o ministro do
Equipamento Social, Veiga de Oliveira, vai agora ter o papel de amortecedor
revolucionário. O Partido Comunista deixa de ser o principal controleiro do
processo, a partir do centro do aparelho de poder pelo que desencadeia
importantes acções directas, principalmente no domínio da ocupação de terras,
rivalizando com a extrema-esquerda que chega mesmo a levar a cabo um assalto,
seguido de incêndio, à Embaixada de Espanha (26 de Setembro).
Assembleia do MFA
de Tancos decide-se pelo afastamento de Vasco Gonçalves. Este também
renuncia a CEMGFA, dada a oposição da maioria dos comandos. Saem do Conselho da
Revolução nove membros afectos a Vasco Gonçalves (Eurico Corvacho, Pinto Soares,
Ramiro Correia, Pereira Pinto, Costa Martins, Graça Cunha, Ferreira de Sousa,
Ferreira Macedo e Miguel Judas). O Conselho fica reduzido a 19 membros (5 de
Setembro). Primeira reunião do novo Conselho da Revolução em Belém sob a
presidência de Costa Gomes. Regresso de Melo Antunes e de mais sete conselheiros
do ex-grupo dos Nove, face à saída de Vítor Alves. Criticada a extrema-esquerda
(6 de Setembro)
Governo pede a
demissão em 6 de Setembro. Costa Gomes aceita-a no dia 8. Publicada a 12.
Armas em boas
mãos. Capitão Álvaro Fernandes desvia do depósito de material de guerra de
Beirolas 10 000 metralhadoras G3 que entrega ao PRP, de Carlos Antunes e Isabel
do Carmo (10 de Setembro). Passa, depois, à clandestinidade
(23 de Setembro). Otelo, ao regressar de uma viagem à Suécia, desde
o dia 20, declara que as armas estão em boas mãos
(25 de Setembro).
Mudanças nas
chefias militares – Pinto Soares retoma o comando da Academia Militar (11 de
Setembro). Pires Veloso substitui Eurico Corvacho no comando da Região Militar
do Norte (12 de Setembro)
Criação dos SUV
num pinhal, na estrada de Braga-Porto. O movimento assume-se contra os
reaccionários nos quartéis e os oficiais burgueses
(6 de Setembro). Emitido o primeiro comunicado da frustrada
organização leninista, logo no dia 8. Primeira manifestação decorre no Porto no
dia 10. No dia 11 manifestação em Lisboa (06 de Setembro). Em comício do PCP em
Lisboa, Jaime Serra, antigo dirigente da ARA, afirma que o inimigo principal já
não é a social-democracia (leia-se PS), mas a reacção e o
fascismo, manifestando assim um recuo na chamada táctica do salame.
Criados os SUV de Évora. SUV manifestam-se em Lisboa com o apoio do MES e da LCI
(25 de Setembro)
Estrela de cinco
pontas. Capitão Faria Paulino entrevistado pelo Diário de Notícias considera
que Portugal, mesmo que não queira, terá bordada na sua bandeira uma estrela
de cinco pontas (17 de Setembro)
Governo nº 109, o
VI Governo Provisório de Pinheiro de Azevedoö, desde 19 de Setembro, 308
dias. Entre os ministros: Vasco Almeida Costa (MFA), na administração interna,
Lopes Cardoso (PS), na agricultura, Rui Machete (PPD), nos assuntos sociais,
Jorge Campinos (PS), no comércio externo, Magalhães Mota (PPD), no comércio
interno, Almeida Santos, na comunicação social, Vítor Crespo (MFA), na
cooperação, Vítor Alves (MFA), na educação, Salgado Zenha (PS), nas finanças,
Eduardo Pereira (PS), na habitação e urbanismo, Walter Rosa (PS), na indústria,
Pinheiro Farinha (ind.), na justiça, Melo Antunes (MFA), nos negócios
estrangeiros, Veiga de Oliveira (PCP), nas obras públicas, Tomás Rosa (MFA), no
trabalho, e José Augusto Fernandes (ind.), nos transportes e comunicações.
O novo gabinete,
face à ausência de parlamento e de controlo constitucional, quase reveste uma
feição de pequeno parlamento, nomeadamente quanto à produção legislativa, com
activa disputa entre o comando político dos três principais partidos que o
integram. No gabinete coordenador do PPD, junto do ministro Magalhães Mota,
surgem os jovens adjuntos Guilherme de Oliveira Martins, António Rebelo de Sousa
e o próprio autor destas linhas. No do PS, junto do ministro Salgado Zenha,
destaca-se a capacidade organizativa do chefe de gabinete, António Guterres. No
do PCP, junto do ministro Veiga de Oliveira, salienta-se o papel de Luís Sá.
Manifestação dos
SUV no Porto. Cerca de 1 500 soldados fardados contra o VI governo. Fabião e
Charais são acusados de quererem acabar com a revolução (21 de
Setembro). Manifestação dos SUV em Lisboa com apoio da Associação dos
Deficientes das Forças Armadas. Ocupam emissores e ponte sobre o Tejo.
Sequestram o governo durante seis horas e barricam-se junto ao Palácio de Belém.
Em defesa do governo, manifesta-se o Regimento de Comandos da Amadora (22 de
Setembro).
Bomba na
messe da Marinha em Cascais onde dormia Pinheiro de Azevedo (21 de Setembro)
Criada uma Acção
Revolucionária dos Praças do Exército (24 de Setembro).
Governo decide
retirar ao COPCON poderes para o restabelecimento da ordem pública (25 de
Setembro).
Manifestantes,
mobilizados pela Associação dos Deficientes das Forças Armadas, ocupam a
Emissora Nacional (25 de Setembro). Deixam as mediáticas e dramáticas próteses à
porta do Regimento de Comandos da Amadora (28 de Setembro)
Assalto à
Embaixada de Espanha. Invoca-se um protesto contra cinco bascos executados
(26 de Setembro).
Manifestações da
FUR em Évora e em Beja (28 de Setembro). Manifestação da FUR em Lisboa
contra ocupação das estações de rádio (29 de Setembro).
O Fidel de Castro
da Europa – Otelo promete desocupar estações de rádio, mas é vaiado pelos
manifestantes (29 de Setembro). Declara então: tenho falta de cultura
política. Se tivesse essa cultura que não tenho poderia ter sido um Fidel de
Castro da Europa (30 de Setembro)
Apreendido material
de guerra na sede do MES em Santarém (28 de Setembro)
Manifestação em
Lisboa de apoio ao VI Governo Provisório, apoiada pelo PS e PPD. Defende-se
a lei e ordem (30 de Setembro) Associação dos Deficientes das Forças
Armadas volta a ocupar a Emissora Nacional (30 de Setembro)
Começa no Porto
conflito do CICAP (Centro de Instrução Auto do Porto) e do RASP (Regimento
de Artilharia da Serra do Pilar) contra Pires Veloso. Soldados e milicianos
gritam Corvacho voltará e o povo não quer Pires Veloso (1 de
Outubro) Manifestação no Porto no quartel da Serra do Pilar contra
Pires Veloso (2 de Outubro) que ordena a desactivação do CICAP (4 de Outubro)
Soldados do RASP ocupam o CICAP e exigem o saneamento do coamndante da região
militar. Confrontos sangrentos entre soldados do RASP e militantes do PPD (5 de
Outubro). Manifestação de apoio ao CICAP no Porto (6 de Outubro). Manifestação
do PPD no Porto em apoio ao Pires Veloso e contra o RASP. Confrontos com
centenas de feridos. Grita-se o povo está com Pires Veloso e em
frente, sem medo, Pinheiro de Azevedo (8 de Outubro). Pires Veloso,
transforma-se assim no diabo contra-revolucionário, objecto de chacota
por parte dos intelectuais esquerdistas, chegando até a ser gozado por Eduardo
Lourenço.
A revolução e as
maiorias – Discurso de Rosa Coutinho perante trabalhadores da CUF:
ser-se revolucionário de acordo com as maiorias é um contra senso... um
revolucionário pode ter que estar durante muito tempo com as minorias
esclarecidas... Hitler e Mussolini quando subiram ao poder eram socialistas...
(4 de Outubro).
Manifestações de
apoio a unidades militares – Manifestação do PS na Amadora de apoio ao
Regimento de Comandos (03 de Outubro). Partidos de esquerda promovem
manifestação de apoio ao RALIS. Trabalhadores rurais alentejanos comandados pelo
proprietário Celestino Graça, da Herdade do Monte Sobral, onde dois anos antes
se realizara uma reunião do movimento dos capitães, apoiam Dinis de Almeida (6
de Outubro). Manifestação de metalúrgicos, em greve, contra o ministro do
trabalho, Tomás Rosa (7 de Outubro).
Desembarque de
cubanos em Angola. Chega ao Porto Amboim, em Angola, o primeiro contingente
de tropas cubanas destinado a apoiar o MPLA (5 de Outubro).
Mudanças
político-militares – Helicóptero da Força Aérea sobrevoa o RALIS (7 de
Outubro) Plenário de soldados em Beirolas decide suspender fornecimento de
armamento a unidades militares (7 de Outubro). Brigadeiro Melo Egídio passa a
comandar o AMI que é institucionalizado (09 de Outubro). Pinto Ferreira é
exonerado de comandante da GNR e da PSP (10 de Outubro)
PS ocupa a rua –
Manifestação do PS em Coimbra de apoio a Franco Charais (8 de Outubro).
Manifestação do PS no Porto de apoio a Pires Veloso. Assaltadas séries da UDP e
da OCMLP nessa cidade. Um morto. Contra-manifestação da extrema-esquerda,
apoiando o chamado Conselho Municipal (10 de Outubro).
Otelo em
entrevista a O Jornal declara: não há neste país quem tenha a
coragem para me demitir. O mesmo, entrevista a A Capital salienta
que o cavalo do poder já passou encilhado mais do que à minha frente
(10 de Outubro)
Mais Manifs –
Manifestação unitária no Barreiro (12 de Outubro). Manifestação em Oeiras
pelo poder popular (12 de Outubro). Manifestação dos SUV em Évora (15 de
Outubro). Manifestação em Vila Franca de Xira, também pelo poder popular
(15 de Outubro). Manifestações do mesmo teor em Sines e Setúbal (16 de Outubro).
Conferência de imprensa clandestina dos SUV no Porto (19 de Outubro).
Governo manda
selar instalações da Rádio Renascença (15 de Outubro) Radicais de esquerda
assaltam a emissora (21 de Outubro). Controlada pela extrema-esquerda retoma as
emissões em 23 de Outubro. Manifestação de apoio à comissão de trabalhadores da
Rádio Renascença, com as instalações da Buraca a ficarem sem os selos
protectores(22 de Outubro).
Manifestação dos
SUV em Lisboa (22 de Outubro) A Luta fala na hipótese de um golpe de
esquerda (22 de Outubro) Nos jornais fala-se na existência de uma Frente Militar
Unida destinada a responder aos SUV (22 de Outubro).
Brigadas
Revolucionárias de Carlos Antunes e Isabel do Carmo decidem passar à
clandestinidade (23 de Outubro)
Manifestação do
PCP em Lisboa (23 de Outubro) Manifestação do PCP em Faro com ocupação do
governo civil. Segue-se imediata contra-manifestação do PS e PPD (26 de
Outubro). Manifestação dos SUV no Entroncamento (29 de Outubro).
Grande
manifestação do PS e do PPD no Porto, em apoio de Pinheiro de Azevedo, reúne
cerca de 200 000 pessoas. Grita-se: a foice e o martelo na cabeça do Otelo
e morte ao careca (25 de Outubro).
A vertigem –
No mês de Novembro de 1975, a sucessão de acontecimentos atinge a vertigem. No
dia 6, num frente-a-frente transmitido em directo pela televisão, Mário Soares
assume-se, em debate com Álvaro Cunhal como o principal líder anticomunista.
Três dias depois o país anticomunista revê-se numa grande manifestação de apoio
ao governo no Terreiro do Paço, também transmitida em directo pela televisão. No
dia 12, a Assembleia Constituinte é sequestrada, na sequência de uma
manifestação de operários da construção civil.
Reunião conjunta do
governo com o Conselho da Revolução (6 de Novembro).
O embaixador
norte-americano Carluci decide visitar a cidade de Braga, então
considerada o coração da contra-revolução (6 de Novembro).
Polícia desfaz
piquete de trabalhadores que impediam o acesso de Ferreira da Cunha,
secretário de estado da informação e antigo colaborador de Costa Gomes, ao
respectivo gabinete. Acusado de ter feito parte do CDI (Centro de Documentação
Internacional), antes de 1974 (10 de Novembro). A esquerda considera tal
organismo como elemento fundamental da chamada reacção internacional, onde
também colaboraria o ex-ministro de Salazar, Adriano Moreira.
Incidentes em
Santarém entre militares da EPC e assalariados agrícolas. Dois mortos e 25
feridos (6 de Novembro).
Bomba contra
militante comunista em Valpaços (6 de Novembro).
Um manicómio em
auto-gestão – Paraquedistas do AMI rebentam à bomba emissor da Buraca da
Rádio Renascença, de acordo com ordens de Pinheiro de Azevedo (7 de Novembro).
Petardo contra sede do PS em Lisboa (7 de Novembro). Manifestação contra o
rebentamento (8 de Novembro). PRP em comunicado faz apelo directo à
revolução armada (8 de Novembro). Esquadras da PSP em Lisboa atacadas à
granada (8 de Novembro). Conferência de imprensa na sede da ADFA de uma
Associação Revolucionária dos Militares na Disponibilidade que se propõe
preencher o vácuo deixado pelo afastamento dos militares revolucionários (8
de Novembro).
Grande
manifestação de apoio ao VI Governo Provisório no Terreiro do Paço
com transmissão em
directo pela RTP. Ataque às aventuras de esquerda e ao golpismo do
PCP. Rebentam granadas de gás lacrimogéneo lançadas pela Polícia Militar e
petardos do PRP contra os manifestantes. Pinheiro de Azevedo clama o povo é
sereno e que é só fumaça (9 de
Novembro).
Plenários –
Plenário na BETP onde se repudia operação contra o emissor da Buraca. 123
oficiais abandonam a unidade contra degradação das instituições militares.
Dias antes os dois mil paraquedistas pedem directa dependência do COPCON (10 de
Novembro). Plenário da EPAM reconhece que crescem as possibilidades de um
golpe fascista (10 de Novembro). Otelo diz que não volta a reuniões do
Conselho da Revolução (10 de Novembro). Para-quedistas tomam conta da base de
Tancos e colocam-se na dependência do COPCON. Otelo promete-lhes armamento
pesado (11 de Novembro).
Independência de
Angola (11 de Novembro). É declarada com o jovem Estado fragmentado por
movimentos político-militares em guerra civil, que constitui uma espécie de
guerra de procuração, com o bloco soviético a apoiar o MPLA e o chamado
Ocidente a hesitar entre a enfraquecida FNLA, a animada UNITA e outros agentes,
nomeadamente os sul-africanos e alguns mercenários.
Cerco à
constituinte Declarada greve da construção civil (10 de Novembro). Operários
grevistas da construção civil sequestram a Assembleia Constituinte. Cerca de 100
000 em greve (12 de Novembro). Continua cerco a S. Bento. Deputados apenas podem
sair às 12 horas e 30 minutos. Cerco apoiado por trabalhadores agrícolas do sul
(13 de Novembro).
Diário de Lisboa
em primeira página anuncia que oficiais reaccionários do Porto ameaçam
marchar sobre Lisboa (12 de Novembro). Otelo em Beja defende revolução
proletária e poder popular. Rompe definitivamente com Pinheiro de
Azevedo (13 de Novembro).
Manifestação em
Viseu de apoio ao VI Governo Provisório com ocupação Emissor Regional (13 de
Novembro). Entrevista de Alpoim Calvão ao jornal Comércio do Porto (13 de
Novembro). Sá Carneiro é entrevistado pela BBC e pelo Jornal de Notícias
(13 de Novembro).
Diploma nacionaliza
a Companhia das Lezírias (13 de Novembro).
Manifestação do
PCP e da FUR no Terreiro do Paço também é transmitida em directo pela RTP,
com Otelo a apoiar o evento (16 de Novembro). Há tractores e atrelados, neste
fim de Verão de S. Martinho. O PS fala em insurreição, o PCP (ml) diz que a
manifestação até deveria ter sido proibida. Afinal a insurreição manifesta não
passa de uma manifestação insurrecta e Álvaro Cunhal até decide dar uma volta
pelos países de Leste. Fica uma espécie de triunfalismo balofo, com o actor José
Viana a fazer teatro e com o capitão Costa Martins a aparecer inesperadamente.
Gritam todos por Vasco, chamam-lhe a muralha de aço, mas Vasco não é
Lenine. Clamam por Otelo, mas o comandante do Copcon também não é Trotsky nem
sequer Fidel de Castro, apesar de recente estágio triunfal nessa pátria da
revolução barbudamente açucarada. O PCP parece não ter suficiente força para
saltar para o cavalo do poder.
Filme do golpe
final do PREC – Pinheiro de Azevedo declara o governo em greve: estou
farto de brincadeiras, já fui sequestrado duas vezes. Já chega! Não gosto de ser
sequestrado, é uma coisa que me chateia.
Apenas não cumpre a ordem o ministro comunista Veiga de Oliveira
(18 de Novembro). Nesse dia é encerrada
a Academia Militar e Vasco Lourenço na RTP confirma a existência de escutas
telefónicas manipuladas pelo bloco dos comunistas e da extrema-esquerda. Há
também uma reunião em Belém dos chefes dos três ramos das forças armadas com
elementos do grupo dos Nove a criticar Otelo. O Século e o Diário de
Notícias anunciam para o dia seguinte um golpe da direita.
Na RTP, um programa
do CEMGFA transmite reportagem sobre as comemorações da revolução soviética em
Moscovo, e oficiais que abandonaram Tancos encontram-se na base aérea da
Cortegaça. Morais e Silva determina a passagem à reserva de 1200 para-quedistas
(19 de Novembro). Incendiada sede do PS em Ermidas/Sado.
Um Secretariado
Provisório da Cintura Industrial de Lisboa manifesta-se em Belém exigindo a
demissão do VI Governo Provisório (dia 20). Capitão Cabral e Silva do Regimento
de Polícia Militar defende então o poder popular armado.
Vasco Lourenço é nomeado Comandante da Região Militar de Lisboa.
COPCON apoia paraquedistas de Tancos. Cunhal regressa da URSS.
No dia 21, Jaime
Neves no plenário do Regimento de Comandos promete defender a vontade da maioria
e oficiais da Região Militar de Lisboa recusam obedecer a Vasco Lourenço,
enquanto 170 recrutas juram bandeira no RALIS de punho erguido, perante Carlos
Fabião.
No dia 22,
manifestação do PS no Porto, com o jornal A Luta a alertar para um golpe
militar que estaria a ser preparado pela FUR.
No dia 23, Sá
Carneiro em Bona com Willy Brandt e Helmut Schmidt. Há um comício do PS na
Alameda apoiando Vasco Lourenço e Otelo entrevistado na RTP, para criticar Jaime
Neves, o VI governo provisório e Vasco Lourenço, enquanto regressam de Angola
por mar as últimas tropas portuguesas.
No dia 24, CAP corta
estradas em Rio Maior. Linha férrea do Oeste e Linha do Norte também são
cortadas na região.
No dia 25,
paraquedistas de Tancos ocupam bases aéreas de Monte Real, Ota e Montijo,
Polícia Militar ocupa a Emissora Nacional e EPAM ocupa a RTP. É declarado o
estado de sítio em Lisboa na Região Militar de Lisboa, que dura até 2 de
Dezembro.
No dia 26, Comandos
da Amadora controlam Regimento da Polícia Militar na Ajuda e triunfa o
contra-golpe dos moderados. Melo Antunes declara que o PCP é necessário à
democracia.
No dia 27, Ramalho
Eanes é indicado para CEME e dissolvido o COPCON. Jornal Novo publica
edição especial impressa nas oficinas do Diário de Coimbra. Há bombas em
Braga, Viana do Castelo e no Porto.
No dia 28 já
Pinheiro de Azevedo, na RTP, declara que chegou a hora dos partidos
políticos. A base de Tancos volta à
normalidade, enquanto Zeca Afonso é preso nessa base, onde foi encontrado com
farda de para-quedista. Suspensa a publicação dos jornais estatizados. Emitidos
mandatos de captura contra Duran Clemente e Varela Gomes
Em 2 de Dezembro,
termina o período de estado de sítio. Há reunião da Assembleia Constituinte. PS,
PPD e CDS acusam PCP de envolvimento no golpe. PPD põe em causa a participação
dos comunistas no governo, defendida pelo PS. Os três defendem a revisão do
Pacto MFA/Partidos. Eanes visita o Porto.
No dia 3, são
suspensos 35 funcionários da rádio e da RTP, implicados no 25 de Novembro
Militares de
regresso aos quartéis – No dia 6, Ramalho Eanes toma posse como Chefe de
Estado-Maior do Exército. Diz querer fazer dele uma força apartidária e uma
instituição nacionalmente prestigiada, intimamente ligada ao povo que deve
servir. Vasco Lourenço também é empossado como Comandante da Região Militar
de Lisboa.
Sevícias – No
Relatório das Sevícias. Relatório elaborado em 8 de Novembro de 1976 por uma
comissão nomeada por Ramalho Eanes, a Comissão de Averiguação de Violências
sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, reconhece-se que centenas
de portugueses foram sujeitos a prisões arbitrárias, viam-se privados de
garantias judiciárias, sofreram torturas físicas e morais e tornaram-se ainda
vítimas de outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. A comissão,
presidida pelo brigadeiro Henrique Calado, tinha, entre outros, a presença do
juiz António Gomes Lourenço Martins e dos advogados Ângelo Vidal de Almeida
Ribeiro e Francisco de Sousa Tavares. Pronuncia-se fundamentalmente sobre os
factos ocorridos entre 11 de Março e 25 de Novembro de 1975, reconhecendo que as
prisões, algumas vezes com mandatos de captura assinados em branco resultaram de
denúncias de organizações partidárias e sindicais, de gabinetes ministeriais e
do SDCI. As torturas foram praticadas no RALIS e no Regimento de Polícia
Militar.
II Congresso do
PPD em Aveiro, no Cine-Teatro (dias 6 a 8 de Dezembro). Saem do partido
Emídio Guerreiro, Mota Pinto, Carlos Macedo, José Augusto Seabra, Júlio Castro
Caldas, José Ferreira Júnior, Jorge Sá Borges, Vasco Graça Moura, Miguel Veiga e
Alexandre Bettencourt. Segundo um participante afecto à linha mota-pintista,
aquele congresso tinha a exaltação de um comício e a devoção de uma procissão...
ali havia dedo da Católica.
No dia 11, vinte e um deputados dissidentes do PPD decidem
constituir-se em grupo parlamentar independente liderado por Mota Pinto.
Jornais e livros
da pós-revolução – Surge o primeiro número do jornal O Dia, sob a
direcção de Vitorino Nemésio e David Mourão Ferreira (11 de Dezembro).
Constituído, fundamentalmente, pelos jornalistas saneados por José Saramago do
Diário de Notícias. Retoma a publicação o Jornal do Comércio,
tendo Luís Salgado de Matos como director. Aparecem à venda os livros de Sanches
Osório, O Equívoco do 25 de Abril e de Fernando Pacheco de Amorim,
Portugal Traído. Diário de Notícias
volta a ser publicado, agora dirigido por Vítor Cunha Regoö, com Mário Mesquita
a subdirector (19 de Dezembro). Rádio Renascença volta à Igreja (28 de
Dezembro). Jornal O Século retoma a publicação dirigido por Manuel Magro.
Spínola é entrevistado por Fernando Barradas do Comércio do Porto em Bayonne (29
de Dezembro).
Plenário de
agricultores em Rio Maior, com a presença de Jaime Neves. Reunidos 60 000
militantes. Ataques de José Manuel Casqueiro à lei da reforma agrária (12 de
Dezembro).
Intervenção
socialista – Jornal Novo publica o manifesto do grupo Intervenção
Socialista, que une os ex-MES, liderados por Jorge Sampaio que pretende
pensar o caminho e o modo de construção do socialismo democrático e que quer
intervir pensando o socialismo. Por outra palavras, antigos compagnons
de route da esquerda revolucionária, simbolizada por Carlos Antunes,
preparam uma viagem mítica que os há-de conduzir à liderança da democracia
pluralista, a que tardaram a aderir, tal como antigos militantes comunistas que
apoiaram o cerco à Constituinte, se hão-de converter nos papas do
constitucionalismo. E todos se condecorarão mutuamente, não faltando sequer o
discreto tique das memórias do quase adolescente totalitarismo, quando alguns
tratam de invocar a necessidade de uma espécie de caça às bruxas
fascistas, como tal qualificando os que, na altura, deram a vida pelo pluralismo
contra o comando comunista do PREC. Nem por isso deixam de aliar-se a antigos
ministros de Salazar, ainda no activismo, porque alguns deles até descendem
directamente de antigos ministros da Ditadura e são filhos de directores-gerais
e de outras figuras gradas ao salazarismo. A respectiva coragem antifascista
teve sempre esta espécie de seguro de vida boa, que lhes garantiria um exílio
doirado. Daí que o respectivo antifascismo platónico nunca tenha passado as
raias do revolucionarismo armado, até porque sempre reconheceram a falta de
condições objectivas para o triunfo da revolução, com as consequentes crises
de choro.
Violência
anticomunista – Bomba contra sede do PCP em Vila Nova de Famalicão (4 de
Dezembro). Tiros contra sede do PCP em Vila Nova de Famalicão (15 de Dezembro).
Incendiada a sede da UDP em Braga (18 de Dezembro). Bombas contra sedes do PCP
em Freamunde e Póvoa do Varzim (23 de Dezembro). Bomba contra livraria comunista
em Vila Nova de Gaia (25 de Dezembro).
Europa connosco –
Mário Soares desloca-se a Bona, Estocolmo, Oslo e Londres, de 15 a 20 de
Dezembro. Na Alemanha encontra-se com Willy Brandt e Helmut Schmidt, pedindo
ajuda financeira tanto para Portugal como para o Partido Socialista.
Congresso do PDC
em Leiria. Silva Resende é o novo secretário-geral (16 de Dezembro).
Os novos
equilíbrios do poder – Encontro entre membros do Conselho da Revolução e dos
partidos para a revisão do Pacto (16 de Dezembro). Vasco Gonçalves é demitido de
director do Instituto de Altos Estudos Militares (20 de Dezembro). Diploma sobre
perdão e amnistia para infracções militares posteriores ao 25 de Abril (22 de
Dezembro). Kaúlza de Arriaga e Arnaldo Schultz passam de Caxias para a Trafaria,
onde continuam detidos (22 de Dezembro). Extinção do Tribunal Militar
Revolucionário (23 de Dezembro).
As resistências –
Manifestação em Custóias contra a detenção dos implicados no 25 de Novembro
(21 de Dezembro). Vigília em Custóias, contra as detenções do 25 de Novembro (24
de Dezembro).